quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Mengele é do PDT

- Temo pela minha sanidade.

- Só agora? Eu me preocupo com ela desde que você se filiou ao PFL.

- Eu só me filiei ao PFL porque abriu um diretório do partido na frente da minha casa. E você sabe que eu sou um homem prático. De qualquer forma, me arrependi.

- Ainda bem.

- Mas só porque dois meses depois o PFL virou DEM e eu tive que perder tempo e dinheiro fazendo outra carteirinha de correligionário. Bando de ratos!

- Essa idéia de se filiar a um partido só porque há um diretório próximo à sua casa não faz o menor sentido.

- Tá vendo essa tatuagem? Eu fiz em uma ocasião em que, na frente do meu trabalho, havia um tatuador.

- Por essa lógica, se abrir uma clínica de aborto em frente ao seu trabalho ou à sua casa, você aborta. Correto?

- Claro que não.

- Ufa!

- Primeiro teriam de abrir uma clínica de mudança de sexo próxima à minha casa e ou ao trabalho.

- E ou.

- Isso. Depois, deveriam abrir uma clínica de inseminação artificial experimental em transsexuais, o que seria o meu caso. E depois disso tudo, contando com o sucesso da minha gravidez bizarra, finalmente eu abortaria. Acho muito difícil tudo isso acontecer e ainda mais nessa sequência. Mas, se ocorrer, corro mesmo para a clínica de aborto e entro na faca.

- Depois dessa explanação sem pé nem cabeça, eu acho que nem deveria perguntar, mas o farei. Por que você disse que teme pela sua sanidade?

- Desde ontem, ouço uma voz na minha cabeça. Isso está me preocupando.

- O que ela diz? "Não confie neles! São todos traidores! Mate-os! Use a faca de manteiga!"?

-"Se fosse o Mengele?".

- Ela diz "se você fosse o Mengele?"?

- É uma pergunta. Ela diz, a cada 45 minutos, mais ou menos, "e se o Mengele?".

- Se VOCÊ fosse o Mengele?

- Se eu, não. Se fosse o Mengele. Só isso.

- Se fosse o Mengele o que?

- Bom, ela fica repetindo "E se fosse o Mengele? E se fosse o Mengele?".

- O que isso quer dizer?

- Bom, a primeira vez que a voz apareceu, disse mais ou menos o seguinte.

- Mais ou menos?

- Mais ou menos, porque eu tava distraído e só comecei a prestar atenção depois que ouvi o nome Mengele. Ela disse assim: "se você estivesse com dor nos rins, fosse se consultar, descobrisse que seria necessária uma operação, marcasse a operação e, assim que estivesse na mesa de operação, percebesse que o cirurgião era, na verdade, o Mengele. O que você faria, se fosse o Mengele?"

- E desde então, ela só repete "e se fosse o Mengele?"?

- Isso. 

- Bom, responde logo, vai que ela só quer tirar essa dúvida e ir embora.

- Pois é. Mas eu não respondo porque estou com algumas dúvidas. 

- Que dúvidas?

- A operação seria pelo convênio, particular ou SUS? 

- Faz diferença?

- Faz. Se for convênio, eu não faço nada, porque iria dar muita dor de cabeça brigar com eles. Se for particular, eu queria saber quanto estou gastando e analisar o custo benefício de sair de uma operação de rim com oito rins ou com um gêmeo colado na parte de trás do meu corpo. Mas como seria algo curioso, eu acabaria aceitando. Se for SUS, eu aceito e depois processo o Estado.

-Então, de qualquer forma, você não faria nada. Pode responder isso.

- É mesmo! Ah, mas tenho outro dúvida. Queria saber com a tal voz como, sedado e sem nunca ter visto uma foto do Mengele na vida, reconheceria o médico. E mais: ele deveria estar de máscara, não? Acho que não teria como reconhecer.

-Ah, isso nem precisa da voz misteriosa para te explicar. Eu respondo. Você o reconheceria pelos olhos.

- É?

- É. Todo cirurgião nazista tem os olhos de cigana oblíqüa e dissimulada. Bastaria olhar para ele e saber.

- Bom, sendo assim, eu digo que, se fosse o Mengele, eu não faria nada. Pronto, respondi. Acho que agora ela me deixa em paz. Aliás, já vai dar 45 minutos da última vez que ela falou. Vamos ver se ela sumiu.

- Certo. Me diga se ouvir algo.

- ...

- Ouviu?

- ...

- E?

- Droga. 

- O que foi?

- Agora ela disse "e se fosse o Roger Abdelmassih?"

- Como cirugião?

- É.

- Xiiii. Agora, danou-se.