quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Fazendo um B.O.

- E como eram os elementos que subtraíram seu veículo?

- Silvio, no caso.

- Como, indivíduo?

- Meu carro, que subtraíram, chamava Silvio. Podemos respeitar um ente querido que, neste momento, já deve estar definhando em um ferro-velho?

- Não, não podemos. Isso é uma delegacia. Temos mais 43 B.O.s para fazer ainda nesta madrugada. Como eram os elementos que subtraíram o veículo?

- Eram morenos.

- Pardos, você quer dizer?

- Não, morenos mesmo. Se eu quisesse dizer pardos, eu teria dito pardos. Como acho que eram morenos, disse morenos.

- Olha, ou eles eram brancos, negros ou pardos. Escolha um.

- Se eu disser moreninhos cor-de-disco, o senhor aceita?

- Vou colocar "pardos". Próximo passo. O que havia no interior veículo, que foi subtraído?

- Duas garrafas de cachaça. Duas escovas de dentes. 3 cadeados e um rolo de papel higiênico. Subtraíram tudo, sem dó.

- Como você carrega coisas estranhas no veículo.

- Eu tinha acabado de sair do Extra. Vou sentir bastante falta das cachaças. Era para fazer parte de um despacho, que seria feito amanhã. Agora, vou ter que comprar mais Pitú.

- Correto. Agora, descreva o delito.

- Bom, eu ia colocar as cachaças em uma esquina, dentro de um chapéu coco e... hey, alto lá. Isso aqui é um país livre e posso ter qualquer crença religiosa. Não se trata de delito. E eu não ia sacrificar uma cabra ou coisa assim.

- O delito, no caso, é a subtração do veículo.

- Ah. Bom, eu estava saindo do Extra e parei em um faról. Quando ouvi, do carro do lado, um elogio direcionado a mim. Sorri para o lado e, quando percebi, eram dois travestis querendo graça.

- Foram eles que subtraíram o veículo?

- Não, não. Mas sempre gosto de falar das minhas conquistas. Além do que, eu sempre achei que ser paquerado por travestis era sinal de mau agouro. E é mesmo: menos de 20 minutos depois, eu chegava em casa e era rendido por dois elementos de cor indefinida.

- Pardos, você quer dizer?

- Só aceito "pardos" no B.O. se o senhor colocar Silvio como nome do carro.

- Tá. Feito. E depois que os elementos pardos te abordaram?

- Bom, daí eles pegaram o Silvio e deram no pinote. Só me restou vir para cá de carona. Vim na garupa do Silvio.

- Que Sílvio, meu Deus?

- O guardinha da minha rua, que estava dormindo no momento do crime. Ele está ali atrás, ó. Do lado daquela senhora que é a cara do Lazzaroni.

- Ah, estou vendo. É aquele sujeito moreno, de marrom?

- Não seria pardo?

- Seria se eu estivesse escrevendo no B.O., já que na literatura tenho direito a licença poética.

- E B.O. lá é literatura?

- E Silvio lá é nome de carro? E moreno é cor de gente? Não começa a espinafrar que você está perdendo.

- Sei.

- Bom, terminei o B.O. Espera um pouco que eu vou fazer uma intervenção em tinta a duas mãos naquele elemento algemado ali e já volto.

- Vai fazer o que?

- Tirar as digitais. Cada um vê arte no que pode. Agora, senta ali e espera um pouco.