- Você iria em um cabeleireiro careca?
- Nunca!
- A-há. Então você acha que uma condição congênita antagônica à profissão é determinante para o sucesso ou insucesso laboral do indivíduo?
- Como é?
- Você acha que um cabeleireiro não pode ser careca?
- Ah, isso? Não, acho que pode sim.
- Mas você disse que nunca iria a um cabeleireiro careca.
- Sim. Mas é porque não vou a cabeleireiros. Frequento barbeiros, sabe? Sou machão.
- Tá. Entendi. Então me diga: você iria a um barbeiro careca?
- Claro. Meu barbeiro, por exemplo.
- É careca?
- Sei lá. Tá sempre de chapéu. Nunca pensei no que tem ali embaixo.
- Tá, mas então você iria a outro barbeiro, que fosse careca, no caso?
- Nunca...
- A-rá!
- Mas é porque sou fiel ao Afrânio, meu barbeiro. Nunca mudaria de barbeiro.
- Sei, sei. Então, deixe-me mudar a pergunta. Você iria a uma nutricionista gorda?
- Não iria.
- A-rá!
- Mas é porque não vou a nutricionistas. Minha vizinha é nutricionista e falo diretamente com ela, quando preciso. Aliás, a consulto quase todo dia.
- É mesmo?
- Mais ou menos. Eu saio para trabalhar no mesmo horário que ela e sempre a encontro. Aí digo "bom dia". Ela responde "tudo bem?". Eu digo "sim". "Ela, que bom, continue assim". E pronto, acho que estou oficialmente consultado.
- Só porque ela pergunta "tudo bem?"?
- É. Tudo, pelo que compreendo, compreende tudo. E tudo inclui o café da manhã, o almoço e o jantar. Quando ela diz "continue assim", acredito que seja uma receita de como proceder.
- Ela é gorda?
- É. Muito.
- Bom, então você iria a uma nutricionista gorda.
- Possível. Mas ela é minha vizinha. E vizinha a gente não escolhe.
- Pô. Tá. Você iria a uma manicure sem unhas?
- Eu ou ela?
- O quê?
- Quem sem unhas? Se eu não tivesse unhas, não iria, não. Afinal, ia fazer o que? Pedir para ela pintar meus dedos?
- Não, não. No caso, ela. A profissional, a manicure. Se ela não tivesse unhas, você iria até ela, pagar pelos serviços da dita cuja?
- Jamais!
- Por quê?
- Porque tenho aflição de gente sem unha se roçando em mim.
- Tá difícil de responder à minha questão, hein.
- Mas você também não facilita. Só pergunta idiotice.
- Ok, mais uma tentativa. Iria a um travesti ginecologista?
- Mas eu sou homem.
- Se fosse mulher, iria a um ginecologista travesti?
- Peraí. Travesti ginecologista ou ginecologista travesti?
- Faz diferença?
- Ô se faz.
- Nesse caso, se fosse um travesti ginecologista, iria. Se fosse um ginecologista travesti, não.
- E você deve ter um bom motivo para isso.
- Tenho. Se é um travesti ginecologista, entendo que o cidadão primeiro se travestia. Aí, fez faculdade, se formou e optou pela profissão de ginecologista, mesmo na condição de traveco. Acho bonito, um exemplo de superação.
- E o contrário?
- Bom. Se é um cidadão que virou ginecologista e, posteriormente, resolveu se travestir e trabalhar à noite, aí acho que não rola.
- Por quê? Porque um travesti não pode atuar na medicina?
- Até pode. Mas como trabalha à noite, deve ter muito sono durante o dia. E eu não gostaria de ser tratado por alguém bocejando. Odeio ver o céu da boca alheio.