- Fim de semana estranho.
- Bota estranho nisso.
- Saí de casa na quarta à noite, para tomar uma cerveja inocente, e só consegui voltar na sexta à tarde. Depois, foram dois dias de cama, recuperando o fígado e tentando minimizar as tremedeiras.
- Jesus! Eu fiquei todos esses dias ensaiando o moonwalk perfeito, demorei, mas para conseguir chegar a algo minimamente decente. Foram quatro dias, mas, agora, estou craque. Você precisa ver. Mas, me diga, o que você fez de quarta a sexta?
- Só lembro de flashes. Primeiro, estava em um bar. Depois, em uma balada em que pagava-se R$ 50 e bebia à vontade. Já de manhã, eu lembro de estar no banco de trás de um carro desconhecido, com um negão de black power, óculos vermelho, fã da Madonna e do Michael Jackson e aparentemente gay, rumando à praia.
- Nossa!
- Bom, daí sei que a motorista desistiu da praia e, quando vi, eram umas dez da manhã de quinta e eu estava em um apartamento desconhecido servindo Yakult com Vodka para esses desconhecidos e para mais um amigo meu, o único rosto familiar dessa empreitada.
- Que beleza, hein?
- Nem tanto. O Yakult com Vodka ficou meio forte.
- Pelo menos, a essa hora, você não havia perdido o paladar.
- Não. Mas quase perdi a sanidade.
- Por quê?
- Porque o tal do black power, essa hora já evidentemente gay, resolveu chamar mais uns conhecidos para ir até esse apê. Ele disse que iria chamar a galera para o "after hours" que estava rolando.
- Certo. E nesse momento estavam quantas pessoas nesse apartamento?
- Bom, era eu, ele, uma garota e esse meu amigo, que estava de namorico com ela.
- E vocês dois, você e o do black power, estavam de vela?
- Sim. Aliás, mais ou menos. A gente estava quase se batendo por conta de uma diferença de opinião sobre o Michael Jackson.
- O que cada um defendia?
- Não lembro direito. Acho que eu dizia que o Michael era de sagitário. E ele dizia que o correto não é sagitário, mas sargitário.
- Então acho que a discussão era menos sobre o Michael e mais sobre o zoodíaco.
- Já tentou falar zoodíaco completamente alcoolizado às 10 da manhã depois de uma noite sem dormir?
- Não lembro.
- Pois é. Por isso que eu e ele concordamos que a discussão era sobre o Michael Jackson.
- Bom, mas daí ele resolveu chamar mais pessoas para o tal "after hours"?
- Sim. E então ele resolveu ligar para uma tal de Britney, que morava em Osasco, e que seria muito disposta, segundo ele.
- Defina "disposta".
- Alguém que saíria de Osasco e iria até a região dos Jardins, em São Paulo, de ônibus, para beber Yakult com Vodka com uns desconhecidos e uns amigos pós-balada.
- Entendo.
- Bom, aí ele ligou e falou com a Britney. Daí, resolveu passar o telefone para mim. Eu pego e digo "fala aí, Britney". Do outro lado, uma voz sonolenta e um tanto grave diz "oi?".
- Voz grave? A Britney era o Britney?
- Isso. Ou estava tomando bastante hormônio masculino para, em breve, ser, sim, o Britney.
- Credo!
- Bom, daí eu disse pro Britney não se preocupar em sair de Osasco de busão porque o after hours nem estava essas coisas mesmo.
- E ele?
- Sei lá. Desliguei e fui misturar mais Yakult na Vodka.
- Sei.
- Daí, de lá, fomos buscar o carro desse meu amigo. Que, obviamente, não estava no estacionamento que havíamos deixado.
- Por que obviamente?
- Porque o cara que trabalhava no estacionamento já havia avisado que, se fôssemos retirar o carro no dia seguinte ao que estacionamos, deveríamos retirar na rua de trás, em um número qualquer.
- E aí?
- E aí que esse número, na rua de trás, era uma espécie de frigorífico. E não havia campainha, nem interfone, nem nada. Mas havia um prédio colado nele. Tocamos o interfone do prédio.
- E?
- E aí saiu o cara do estacionamento do dia anterior. Aparentemente, à noite ele é garagista e de dia, porteiro. Bom, daí ele nos deu a chave do carro, abriu o frigorífico e nos mandamos.
- Para casa?
- Não. Resolvemos almoçar.
- E eu fazendo moonwalk todo esse tempo...
- Bom, a essa hora eu já estava vendo o Michael Jackson.
- Sério?
- Médio. Era o gay do black power, mas parecia muito o MJ em começo de carreira.
- Entendi. E vocês foram almoçar e beber mais.
- É. Almoçamos e tals e, aí sim, eu e meu amigo rumamos para casa.
- Mas isso ainda é quinta-feira à tarde. Você disse que somente havia chegado em casa na sexta-feira. Estão faltando 24 horas nessas história toda.
- Então, aí é que as coisas começam a fira estranhas.
- Mais estranhas do que Yakult com Vodka e Britney de Osasco?
- Mais.
- Nesse caso, não vou querer ouvir. Capaz de eu beirar a perda da sanidade, e não quero isso.
- Mas...
- Mas nada. Fora que, pelo que sei, quando alguém tem um trauma muito grande, apaga da memória os momentos que o antecederam. E eu estou com o moonwalk fresquinho, fresquinho na cabeça. Se você me contar o resto do seu final de semana, é capaz de eu esquecer tudo. Nem mais uma palavra, por favor.
- Mas tem a ver com dálmatas, hemodiálise e exorcismo.
- Shhhhhhh. Silêncio.
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