quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Camisa do Flamengo, Dia 3

- Daqui a pouco essa camisa do Flamengo virá trabalhar sozinha.

- Eu agradeceria. A situação já está ficando insuportável e estou em "uma sinuca de bico", como diria aqueles que gostam de frases feitas. Se eu a uso com uma camiseta qualquer por baixo, esquenta muito. Se a uso diretamente sobre o corpo, suo para diabo e ela vai feder e estará inusável na segunda-feira. É uma escolha difícil.

- Isso me lembra a história do garoto que queria comer uma lesma com sal. 

- Que história é essa?

- É uma espécie de fábula, que minha mãe me contava quando me punha para dormir. 

- Não conheço. Resuma para mim, por favor.

- Era uma vez um garoto chamado Arthur. Ele tinha 8 anos e, como tal, vivia enfiando coisas aleatórias na boca.

- Crianças de oito anos enfiam coisas aleatórias na boca?

- Posso terminar a história?

- Claro.

- Pois bem, ele já havia comido terra, tijolo, aspargos. Uma vez, havia até abocanhado um molde da orelha do Carlos Alberto de Nóbrega, feito em gesso.

- Nossa!

- Pois é. Até que um dia ele ficou com vontade de comer uma lesma. Mas achava que seria algo sem graça e pensou em colocar sal. Mas sabia que se jogasse sal no bicho, ele derreteria. Então, ele ficou no dilema: comer a lesma insossa ou tacar sal e ter que se contentar em água de lesma com sal.

- E o que ele resolveu fazer?

- Aí ele resolveu procurar uma lesma e, quando achasse, decidiria. Procurou no jardim de casa até que a encontrou. Parou e ficou olhando para a lesma, para se decidir. 

- E o que decidiu?

- Passou muito tempo pensando. Pesou prós e contrar. Pensou, pensou, pensou.

- E a lesma não fugiu nesse meio tempo?

- Lesma é um negócio bem lento, como você deveria saber.

- Não sabia.

- Pois é. Então, depois de muito pensar, desistiu da lesma, do sal, de colocar coisas estranhas na boca. Saiu do jardim, arrumou um emprego, casou e, hoje, é um feliz contador que mora em Diadema.

- Ele era uma criança e arrumou emprego?

- Não. Como eu disse, ele pensou muito. Foram anos pensando. Daí, quando se decidiu, tinha já uns 25 anos e estava na hora de trabalhar.  Saiu de casa, alugou um apartamento em Diadema e virou contador.

- Isso não é uma fábula, não é? Você acabou de inventar, não foi?

- Foi. Mas achei que era uma boa história para te contar e te dar alento.

- Alento? Qual seria a moral da história? O que isso tem a ver com a camisa do Flamengo que uso?

- Que você tem tempo para decidir se usará uma outra camisa por baixo pelos próximos dias ou não. E, se não se decidir até os 25 anos, pode virar contador em Diadema.

- Mas eu já tenho 30.

- Nesse caso, se deu mal.

3 comentários:

Leandro Leal disse...

Bonita fábula.

As primas disse...

Também gostei da fábula...
Tenho pensado muito esses últimos dias:

Será que como Nutella??Será que não como???

Que dilemaaaa

olívia

Buchabick disse...

Eu fiquei na dúvida se é mesmo uma fábula ou se era um conto oriental de moral duvidosa.

Sempre ouvi falar que, em fábulas, os bichos falam. E nessa daí a lesma saiu sem um pio.

Olívia, coma Nutella.