terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Eu Conheço Alguém que Fala Baleiês

- Minha memória anda cada vez pior. Já te falei isso?

- Isso o quê?

- Ih, esqueci.

- Repete, pô.

- Não, é sério. Esqueci mesmo. Mas mudo de assunto.

- Mude.

- Minha memória anda cada vez pior.

- É? A minha também.

- Já te falei isso?

- Nunca saberemos. A minha memória vai de mal a pior.

- A minha chegou em um ponto que não sei se li algo, se vi na TV, se vi no cinema ou se sonhei.

- Eu, pelo menos, fico feliz várias vezes pelo mesmo motivo. "Vai casar? Parabéns! Ah, já disse? E o que eu disse da primeira vez? Parabéns, também? Viu! Eu não estava mentindo."

- Minha situação é tão ruim que falo uma coisa que acho que inventei e posso estar plagiando Shakespeare sem saber.

- Outro dia, eu estava contando uma piada, perdi o fio da meada e, quando vi, estava recitando Carlos Drummond de Andróide.

- Andrade.

- Não, era Carlos Drummond de Andróide mesmo. Não conhece?

- Não. É bom?

- Uma máquina de escrever. Uma máquina!

- Ai, ai.

- O quê?

- Me diz que você fez esse trocadilho infame com o Drummond só pra emendar essa piada.

- Que piada?

- Carlos Drummond de Andróide.

- Como?

- Carlos Drummond de Andróide, o poeta que é uma máquina.

- Hahaha. Muito boa. Gostei da piada. Posso usar?

- É sua, pô.

- É?

- É.

- Ah, então não espalha. Não achei tão boa assim.

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com ajuda involuntária da Juliana.