quarta-feira, 17 de março de 2010

Um estranho ponto de vista etíope sobre o caso Adriano e Vágner Love

- Quem inventou o jogo da velha?

- Bom, pelo nome, desconfio que tenha sido uma velha. E, por ser um jogo tão debilóide, acredito que era uma velha senil, senil. Pô, uns nove quadrados para serem preenchidos com xis e bola e que dão poucas combinações não pode ser coisa de gente com 100% centrada.

- E esse tal de Chatroulette. Você sabe quem inventou? Ou melhor, o que é?

- É um site que você entra e aparece uma webcam. Você liga a sua e te colocam aleatoriamente pra bater papo com quem aparece.

- Que cousa!

- Mas a proporção é de 20 homens pra cada rapaz. E como é aleatorio, aparece nego pelado, traçando uma cabra ou uma melância, essas coisas.

- A putaria é liberada, então?

- Não precisa de cadastro, nada. Só acessar.

 - E essa coisa tá na moda, procede?

- Parece que sim. Tanto que li a respeito na Istoé. E se chegou na Istoé, até em Pirituba já chegou.

- Até em Perus, se bobear.

- Na Febem de Franco da Rocha não se fala em outra coisa.

- Até em Ermelino Matarazzo a rapeize tá na área, aposto.

- Tudo com a piroca de fora, esperando as chuchucas.

- Nem preciso dizer que em Perus, o peru fica o tempo todo aparecendo no Chatoulette.

- Não precisaria dizer. Mas já que disse...

- Se o Adriano fica sabendo do esquema, aí acabaram as festas com Jumento e Anão. Só Chatroulette daqui para a frente.

- Você viu ele no Fantástico, no domingo?

- Não. Eu estou acompanhando mais de perto o caso Vagner Love.

- Esse negócio do Vagner Love ainda não vi, preciso ir atrás

- Não me interessou o fato dele ser escoltado por nego armado. E, nem tanto, por ter neguinho com uma bazuca na favela. Mas o que me chamou a atenção mesmo foi que, pelas fotos, deram a bazuca pro rapaz mais fraco. Ele sofre pra carregar aquilo. 

- Porra, favela!

- Ou melhor, porra, comunidade menos favorecida! 

- Quer dizer que deram a bazuca pro único traficante que veio da Etiópia na favela? 

- Exato. Deviam dar prum cara mais bem alimentado. A dificuldade com que ele carrega aquilo da dó. E eu achei que nunca fosse ficar com dó de um cara com uma bazuca.

- Aposto que os lança-chamas deles dão pra um cego operar.

- Porra, mas, pensando bem, bem feito pra esse filho da puta. Ninguém é obrigado a carregar bazuca.

- Não fala bobagem. Ele é etíope. Não sabe que tem escolha.

- Quem te falou que os etíopes são burros a esse ponto? Tem no YouTube?

- Eu não disse que são burros. É que na Etiópia o pessoal vive ao sabor do vento, sem escolher nada. Quando deram a bazuca na mao dele, ele pegou e ficou com ela.

- Esse é o estudo antropológico mais profundo que já ouvi sobre a Etiópia.

- É como seu sempre digo, quer saber sobre a Etiópia, vem comigo. 

- Hahahaha.

- Não parece, mas sou letrado em certas coisas. Agora, com licença que vou ali rezar para São Patrício e só volto na sexta.

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Como já está virando tradição, colaboração, de novo, da @vannmarques.


segunda-feira, 15 de março de 2010

Probabilidade, Pombos, Pombagira e Armero

- Já ouviu falar no Problema de Monty Hall?

- Não me lembro.

- É uma questão de probabilidade meio que simples. 

- Não tem matriz, determinante, log e nem multiplicação?

- Não muito.

- Me fale mais a respeito.

- O problema surgiu em um programa americano, uma espécie de Porta dos Desesperados, do Sérgio Mallandro. 

- Ou da Porta da Esperança, do Silvio Santos?

- Não. Está mais para a Porta dos Desesperados mesmo. Imagine que há três portas. Dentro delas, há um prêmio de valor alto, como um carro. Nas outras duas, porcarias, como uma cabra e um sujeito fantasiado de gorila. Você deve acertar a porta que tem o melhor prêmio. Só que, ao escolher uma porta, o apresentador vai em uma que ele sabe que não tem o prêmio e não é a que você escolheu e a abre, mostrando que o prêmio não está lá. E pergunta se você quer mudar sua escolha. Agora, são só duas portas. Você mudaria?

- Não.

- Mas aí é que está. Pela probabilidade, agora você teria mais chance de ganhar o carro se mudasse de porta.

- Mas eu não quero um carro. Esqueceu que minha carteira foi cassada? Eu queria mesmo era a fantasia de gorila.

- Eu não sei se eles liberam a fantasia de gorila.

- Eu me contentaria com a cabra.

- Mas mesmo assim. Supondo que eles liberem os outros prêmios, eu acho que a cabra, tudo bem, você pode levar para casa. No caso da fantasia, teria que levar o cidadão vestido de gorila. O prêmio é o cara de gorila. Nem uma ocisa nem outra. E, uma vez em casa, você que o convencesse a tirar a roupa.

- Ah, mas isso seria fácil. Se eu o ganhei, ele é meu. Meu escravo. Bastaria ordenar a tirar a roupa.

- Não sei. Pensando bem, você ganhou um cidadão vestido de gorila. A partir do momento que pedisse para tirar a roupa, ele não seria mais um cidadão vestido de gorila e você perderia o poder sobre ele. Ele estaria livre para partir. 

- E deixaria a fantasia para trás?

- Duvido. Essa gente que se fantasia profissionalmente e se esconde atrás de portas se apega muito às vestes. Você ia ficar com uma mão na frente e outra atrás.

- Será que se eu fizer um café e usar água com gás no lugar de água torneiral, a coisa fica boa?

- Sei lá. Mas deixe-me voltar ao problema do Monty Hall. Acabo de ler que fizeram um pesquisa com pombos e eles são melhores nesse jogo do que a gente. Eles sempre mudam de opção, quando das opções, de três, mudam para duas. A cada 10 jogos no estilo Monty Hall, oito vezes quem muda de porta ganha. E os pombos fazem isso sabe Deus como.

- Aí, sim, fomos surpreendidos novamente.

- E não é?

- A porra dos pombos são foda. E pensar que uma vez atropelei um. Mas foi sem querer, obviamente. É certeza que matei um pequeno Einstein.

- Ele deve ter calculado erroneamente as probabilidades de atravessar a rua sem ser atropelado. Ou calculou bem demais e era um suicida. 

- Deve ter pensando "chance de ser atropelado se atravessar voando: 0%. Chance de ser atropelado de ser atropelado se atravessar andando: 100%. Agora, preciso provar minha teoria."

- Exato. Foi voando. Ok. Voltou andando, morreu. Se sacrificou pela sua ciência. 

- Os pombos são mesmo uns abnegados. 

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De novo, colaboração da @vannmarques.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Uma conversa. Nenhum assunto.

- Você acredita que Belle & Sebastian seja a banda mais nada a ver do mundo?

- Não considero, não. Ronaldo e os Impedidos está na frente.

-  E o que dizer do Sigue Sigue Sputinik?

- Não lembro das músicas deles. Só dos moicanos que usavam.

- Isso é um bom resumo da banda. De tão nada a ver que eles eram, usavam moicano e tocavam coisa que nem o Shaquille O´Neil teria coragem.

- Mudando de assunto, preciso de confessar uma coisa. Tem um cabelo que cresce dentro da minha orelha que é comprido, bem comprido, e isso me dá uma aflição dos infernos.

- Arranque. Nem precisa de pinça, se é tão grande.

- Ele é quase transparente. Isso faz com que a tarefa de arrancá-lo se torne uma grande dificuldade. E, o pior, ele é branco. 

- Mudando de assunto de novo, hoje de manha estava vendo Ana Maria Braga. Fiquei puto com o desafio de charadas entre ela e Louro.

- Eu acompanho isso na medida do possível. São charadas horríveis.

- Exato. "O que é um ponto verde andando pelo calçadão de copacabana? Um greengo." 

- Sei bem. "Como se prende um ponto rosa voador? Numa gayola."

- Chega a ser ofensivo. Porra, Ana Maria! Porra, Louro José!

- Ofensivo mesmo foi o que passei outro dia. Estava na padaria da esquina de casa e resolvi acender um cigarro. O dono pediu educadamente que eu apagasse o cigarro ou fosse fumar lá fora.

- O que tem de ofensivo nisso? É lei.

- Eu sei. Mas na mesma padaria tem máquina de videopoker. Eles também apontam o jogo do bicho, lá. Achei que contravenção por contravenção, eu poderia fumar sem ser incomodado.

- E você apagou o cigarro ou foi fumar fora?

- Apaguei. Não queria largar a máquina de videopoker. Eu estava indo bem.

- Olha só isso. 

- Manda.

- "Você sabia que na esquizofrenia catatônica pode haver o fenômeno 'Obediência Automática' onde qualquer comando é obedecido mesmo que danoso?" Só faltou chamar esquizofrenia acrumbática maluco 

- Isso sim é uma doença do inferno. Imagina ficar catônico na frente da TV e obedecer tudo o que o Gene Hackman fala. Seria um inferno.

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Colaborou involuntariamente: @vannmarques


quarta-feira, 10 de março de 2010

Prostitutas, Jornalistas, Essas Coisas

- Vai, Corinthians!

- Saravá, São Jorge.

- Uma dúvida me ocorreu agora.

- O time ideal? Essa é fácil: sacamos o Tcheco e o Willian. Colocamos o Dentinho e o Leandro Castan e pronto. Não tem como dar errado.

- É... Mas não era isso.

- Ah.

- Queria saber o seguinte: se eu encontro uma prostituta na rua, mas à paisana.

- Defina paisana.

- Ah, em horário não comercial dela. Fora do expediente de trabalho e vestida com sobretudo.

- Sei.

- E ofereço uma grana para transar com ela. Ela aceita? 

- Hummm. Pensemos. 

- Sim.

- Se eu te encontrar na rua. Você é jornalista, mas está fora do seu expediente. 

- Certo.

- E eu te pedir um texto. Você escreve?

- Depende de qual for o assunto. Depende de quem pedir, do jeito que pedir. Depende também o quanto eu vou ganhar com isso. Mas considerando que seja um assunto que eu entenda, que seja você quem peça e que me pague um valor justo, acho que escreveria, sim. 

- Eu não escreveria se você me pedisse, não importa o jeito ou a grana. Logo, acho que, se eu pedisse, a prostituta transaria. Se você pedisse, não. E pior: ela poderia te processar por assédio sexual.

- Nossa. Aí, sim, eu ia me dar mal.

- Mas, por outro lado, se você estivesse andando na rua e uma prostituta te abordasse, você poderia processá-la por assédio também.

- E se ela me pedisse um texto, eu poderia processá-la por assédio?

- Poder processar, você pode processar quem você bem entender. O duro é ganhar a causa.

- Rapaz. Estou achando que é melhor, então, eu não me envolver com prostitutas.

- É. Você só tem a perder. 

- Mas, me diga, se eu estou andando na rua e um travesti me aborda, pedindo um texto. Eu posso processá-lo por assédio?

- Olha, como eu disse, você pode processar quem você quiser. O duro é ganhar.

- Mas e se ele fosse muito insistente. Me segurasse pelo braço e não me deixasse ir até escrever?

- Mesmo assim, acho difícil. 

- E se ele estiver com a piroca para fora, enquanto pede encarecidamente o texto?

- Nesse caso, acho que aí sim, você pode processar.

- Ah, que bom. Não vejo a hora de um travesti com o pinto para fora me agarrar e exigir um texto.

- É sério isso?

- Então... eu acho que...

- Por favor, não responda. Vamos mudar de assunto. Se não, vou acabar de processando por assédio moral.



terça-feira, 2 de março de 2010

Ajudante de Ambulante

- Preciso fazer alguma coisa para me animar.

- Como?

- É que eu estava analisando minha vida.

- Lá vem...

- É sério. E reparei que sempre que vou em algum lugar, acabo de envolvendo com as pessoas mais escumalhentas do local.

- Regras da atração, sabe? Porcaria atrai porcaria.

- Sei, sei. Mas a coisa já passou do limite.

- Como assim?

- De uns tempos para cá, nem mesmo essas meninas que ficam na porta da lojas oferecendo crediário, empréstimos, cursos de inglês e de informática me chamam. Já estou um nível abaixo desse povo aí.

- Você queria fazer crediário? Tá precisando de grana ou coisa assim?

- Não. Mas percebo que, pelos olhos dessas moças, estou num grau de vida sub-necessitado. Aquele necessitado que não pode nem pagar por essas coisas.

- Ou um nível acima. Do bem sucedido. Se bem que, olhando para você, ninguém diz.

- Exatamente. E repare: sempre que estou na rua, na padaria, ou onde quer que seja, quem vem conversar comigo?

- Não são as mocinhas do crediário.

- Não são. Não mendigos, pedintes, pungistas e lelés da cuca em geral.

- E isso te incomoda.

- Não muito. Mas andaei reparando que é frequente. Se vou a casamentos, já me junto logo à turminha do funil e sou o último a ir embora. Se vou a batizados, quase não me deixam entrar na igreja, mesmo que eu seja o padrinho. Aliás, muitos amigos meus me chamaram para ser padrinhos de casamento deles porque disseram que seria a única chance de me verem bem vestido na cerimônia.

- Hahahaaha.

- Nesse carnaval, por exemplo. Fui muito humilhado.

- Você me contou. Te tiraram de traficante e outras coisas, não?

- Sim. Mas agora, remexendo na minha mente, vi que além de tudo, me prestei a um papel de ambulante.

- Como assim?

- Lembrei que no meio de um bloco, me envolvi com um vendedor de "tequila" e acabei vendendo a bebida dele para terceiros, sem qualquer pudor.

- Por que tem essas aspas na palavra tequila?

- Porque desconfio que não era tequila. Parecia conhaque com água. Mas como tava quente, já que eu estava vendendo a um sol de 40 graus, podia ser qualquer outra coisa, como metanol. Mas tequila não era.

- Você vendeu ou bebeu?

- Vendi e bebi. Comecei bebendo. Daí, resolvi vender. E ganhava comissão: a cada 3 doses vendidas, podia beber uma. Foi uma maravilha.

- E o dono da garrafa?

- Ele só ficava com a grana. Eu vendia, servia, oferecia, negociava. O rapaz só ficava com a grana.

- Cara, então acho que realmente você atingiu um nível inferior na escala profissional. Ajudante de vendedor de falsa tequila é demais, hein.

- É. Mas foi pior.

-Por que?

- Já te falei que eu estava vestido de Minnie?

- A rata?

- É. Olha as fotos.




segunda-feira, 1 de março de 2010

A Patada do Sul

- Vai vendo.

- Vou.

- Outro dia, uma amiga estava participando de um quiz. E pediu ajuda: perguntou qual era o nome do golpe de esquerda que o Rocky dava. 

- Rocky do Stallone?

- É.

- Seria "canhotinha de ouro"?

- Não seria.

- "Canhotinha de prata"?

- Nops.

- "Esquerdosa mortal garanhosamente italiana"?

- Duvido que você repita isso.

- Eu também.

- Me deixe continuar a história. Daí, eu não sabia. E encasquetei. Procurei no Google que nem um débil mental por umas quatro horas.

- Compreendo. 

- Não achei. Mas horas depois, saiu o resultado do quiz.

- E qual era a resposta? "Esquerdosa mortal garanhosamente italiana"?

- Caraca, parabéns!

- Era isso?

- Não. Mas você conseguiu repetir a mesma expressão estúpida duas vezes.

- Repeti? Achei que fosse outra.

- De qualquer forma. O nome do diabo do golpe é "patada do sul".

- Nunca ouvi falar.

- Nem eu. Mas vai vendo. Além do Google, perguntei a todos que conhecia. No MSN, no Google Talk, por telefone, SMS. Fiquei meio paranóico com isso, até descobrir.

- E não teve jeito.

- Não teve. Aparentemente, só poucas pessoas na Terra sabiam esse nome. Daí, depois que veio a resposta, e por nunca ter ouvido falar nela, resolvi beber para esquecer. Fui até um boteco com essa minha amiga e resolvemos logo enxugar as mágoas. 

- E os copos.

- Precisamente. Então, como queríamos esquecer, evitamos falar no assunto Rocky. Na verdade, não falamos sobre nenhum filme do Stallone, para evitar completamente o assunto.

- Difícil ir para o bar e não falar de Rambo III. 

- Também achei. Mas conversamos sobre amenidades, como casamento de padres, legalização do aborto e outros clichês estúpidos.

- An ran.

- Sim. Mas lá pelas tantas, não aguentei. Tive que comentar, em meia voz, até. Disse "era patada do sul!". Ela assentiu.

- E?

- E aí tinha um bêbado, desmaiado no fundo do bar. Ao ouvir "patada do sul", ele levantou rapidamente. De desmaiado na mesa, virou outra pessoa. Elétrico, ficou esperto na hora.

- E vocês não falaram mais nada? Ou algo sobre Rocky ou Stallone, antes?

- Nada. Ele ouviu somente "patada do sul" e se levantou. Disse "Rocky II" e começou a golpear o ar com a mão esquerda. Impressionante. 

- Olha aí. Quer dizer que uma das únicas pessoas do mundo que sabiam sobre a "patada do sul" era um bêbado de fundo de bar?

- Exato. E mais: desconfio que ele ficou assim porque participou de um quiz sobre o assunto. Não adivinhou e acabou exagerando na cachaça. 

- E era exatamente isso que você e sua amiga estava fazendo naquele momento, procede?

- Procede. Mas daí, depois da atuação do bêbado, pedimos dois cafés e fomos embora. Resolvemos assistir Rocky II, para saber se era "patada do sul" mesmo o apelido.

- E era mesmo?

- ...

- Era?

- Merda. Vou beber. Com licença.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Jogos de Inverno e Nicorete

- Hoje cedo tive a pior experiência da minha vida.

- Começou a acompanhar as Olimpíadas de Inverno também?

- Como?

- Porque, pior do que esses Jogos Invernais, não existe nada. Ou melhor, existe: a programação da ESPN. Toda vez que ligo lá, em vez de futebol, eles estão passando concurso de salsa ou caça à raposa, mas com um fantoche no lugar da raposa, para a coisa ficar politicamente correta. Uma desgraça.

- Não, nada disso, seu debilóide. Masquei nicorete.

- Você quer parar de fumar?

- Não. Mas um camarada meu estava com uma cartela e resolvi experimentar um. Só para tirar onda, sabe?

- E eu que sou o debilóide aqui?

- Foi a pior coisa que já meti na boca em toda a minha vida. E olha que já comi pão com açúcar e pipoca. 

- É tão ruim assim o nicorete?

- Bom, nas primeiras mastigadas, ele é ok. Até meio bom. Mas depois de uns minutos, dá um pigarro danado.

- Sei.

- Aí, logo depois, você já está com um mau hálito de fumante. 

- Hum.

- E, depois, vem a ânsia de vômito, o suador e a tontura.

- Exatamente nessa ordem?

- Não. Tudo ao mesmo tempo. Aí você acha que vai morrer e tenta cuspir o diabo do nicorete.

- E cuspindo resolve?

- Não conseguia abrir a boca para cuspí-lo. Foram mais alguns minutos de sofrimento até que consegui me desfazer do bicho. 

- Aí passou o mal estar?

- Não. Ainda foram mais uns 5, 10 ou 37 minutos de medo e delírio. Depois disso, melhorei. Mas não fiquei 100%. Até agora, ainda estou meio tonto e ouvindo um zunido estranho que vem de trás da minha cabeça.

- Ainda bem que você não quer parar de fumar, não é?

- Pois é. E mesmo se eu quisesse, já teria desistido, graças à essa experiência traumática. 

- No final das contas, o nicorete o encoraja a fumar, não o contrário. Irônico, não?

- Será que se a pessoa for viciada em nicorete, para curar o vício, fumar ajuda?

- Pelo que você relatou, se há alguém no mundo viciado em nicorete, aposto que ele não anda, fala, enxerga, ouve, sente. Só masca. E, obviamente, não deve querer se curado. Só tem um desejo.

- Qual?

- Outro nicorete. Bem nicotinadinho.

 


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Ressaca Pós-Carnaval

- Olha aí quem apareceu... depois de 10 dias sumido. 

- O carnaval foi longo, sabe?

- E dolorido, pelo jeito. Você está mancando.

- Mancando é o de menos. Olha esses roxos no meu braço. E repare nessas chagas aqui. 

- Jesus!

- É o que penso. Ou sou a reencarnação de Jesus ou apanhei tanto quanto ele nos últimos dia. 

- Mas o que você fez para estar assim?

- Pulei carnaval, ué.

- Ou caiu no carnaval? Porque pela situação do seu supercílio...

- Ah, isso? Nem doeu tanto. Acho que desmaiei antes de dar de cara nos peitos de uma senhora desconhecida, que passava pela minha frente em certo bloco. 

- O peito de uma senhora abriu seu supercílio.

- Acho que ela usava silicone industrial.

- Era uma senhora ou um travesti?

- Não sei. Acabo de dizer que desmaiei antes de dar de cara nela. Ou nele.

- Por acaso ou vocês estavam se conhecendo?

- Ao acaso. Eu estava me envolvendo com umas pessoas estranhas, vestidas de oncinha. Quando me libertei, tropecei, bambeei e quando vi que ia cair, um mecanismo de defesa interno resolveu me desmaiar. Aí, dei de cara nesses peitos mais duros que o diabo.

- Que horror. E essa tatuagem aí, é nova?

- Isso? Não é tatuagem. É sujeira. Parece que ficou tão encrustada que não consegui tirar ainda. Nem com 7 banhos. Semana passada, na quarta-feira de cinzas, estava pior, bem maior. E parecia uma imagem de Nossa Senhora. Tive até que fugir de uma multidão que achava que era uma aparição voluntária dela e que eu era uma espécie de iluminado ou coisa assim.

- Pensaram isso porque não te viram engalfinhado com oncinhas e travestis.

- Pois é. Mas isso não foi o pior. Ouvi frases bem humilhantes neste carnaval. Foi de mendigo para baixo.

- Defina "mendigo para baixo".

- Um cara que eu nunca tinha visto perguntou se eu era traficante. Outra, de pudim de cachaça. Uma terceira moça disse "vou ali me despedir das minhas amigas e você vem comigo. Mas não abre a boca, porque não quero que elas me vejam saindo daqui sabendo que estou com um bêbado." Teve também banana, boboca e vadia.

- Vadia?

- É. Teve um dia que fui para a folia vestida de Geisy Arruda.

- Meu deus! E você ainda gosta de carnaval, depois de tudo isso?

- Não muito. Mas já estou pensando em, ano que vem, sair fantasiado de Dilma Roussef.


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Não Achei um Bom Título para Isso

- Existe diabo bom?

- Não sei. Mas pobre existe. É o Pobre Diabo.

- Aí, aí.

- Mas se tiver diabo bom, deve ser o DiaBão ou DiaBom. 

- Deus!

- Você que começou.

- Não. Eu queria saber se existe diabo bom. Ou se o diabo for bom, automaticamente, ele não é mais diabo, mas santo.

- Se ele for bonzinho, duvido que seja santo. No máximo, diabo aceitável. Se o diabo for bonzinho, pode ser bem uma pessoa feia.

- Feia?

- É. Com chifres, rabo e vermelho. 

- Mas se ele for bonzinho, não perde os chifres, o rabo e a cor vermelha?

- Os chifres podem até cair, assim como o rabo. Mas a cor não muda. Você conhece alguém que nasceu negro e morreu branco, por exemplo?

- Serve o Michael Jackson?

- Não serve.

- Posso pensar mais um pouco?

- Não.

- Ah, então não conheço. 

- Viu? 

- Mas que assunto sem pé nem cabeça. Tá pior do que uma amiga minha, que não queria sair  com um cara que ficava insistindo e veio me perguntar o que dizer a ele, sem ofendê-lo.

- Virou conselheiro sentimental?

- Bom, depende de como você julgar a dica que dei a ela.

- E qual foi?

- Falei a ela que seria legal dizer a ele que ela estava saindo com outra pessoa. E tals.

- Boa saída.

- Mas ela achou fraco. Disse que "saindo" é muito pouco e o cara poderia insistir.

- E o que você aconselhou, então.

- Falei para ela falar para ele que até saíria com ele, mas era bom esperar uns dias até passar uma coceira que ela estava nas partes pudendas, provavelmente oriudas de alguma doença que ela havia pego do namorado anterior, o cabrito Bernardo.

- E ela resolveu fazer isso?

- Ela disse que não, já que não queria ficar conhecida como zoófila. E que o que se faz entre quatro paredes, não interessa e não se comenta a ninguém.

- Pô, mas ela não gostou de nenhuma das suas ideias? Eu achei todas boas.

- Ela gostou da terceira.

- Que foi?

- Dizer a ele que ela, na verdade, era homem e tinha uma pica no meio das pernas.

- Que finesse.

- Daí, o cara, automaticamente, deveria desistir.

- E se não desistisse?

- Daí ela dizia que não queria sair com viado e pronto. Resolvido. 

- Eis uma solução escabrosa, fina e definitiva.

- Esqueceu do esacabrosa.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Musiquinha dos Trapalhões ao Fundo

- Peraí, deixa ver se entendi.

- Perfeitamente.

- Você tem um amigo que ia casar.

- Ia, não. Casou sábado passado.

- E ele tem o mesmo nome que o seu.

- Isso. Nome e sobrenome.

- Ambos são homônimos completos.

- Exato. E eu fui padrinho de casamento dele. Somos muito amigos, entende?

- Então ele te deu alguns convites, para que você distribuísse para outros amigos em comum?

- Isso. Fiquei com uns dez convites e levei para um bar, no qual seria comemorado um aniversário de terceiros e que estariam esses 10 amigos em comum, mas não o noivo.

- Você os levou. Mas, constrangido em distribuir os convites no meio de pessoas não convidadas, resolveu deixá-los em um canto, escondidos. Canto do qual, mais tarde, você os distribuiria, sempre disfarçando, entre convidados?

- Isso.

- Você é uma besta, sabia?

- Sabia.

- Então você bebeu demais, se entreteve com outras coisas e acabou indo embora sem distribuir os convites?

- Sim. Mas não esqueci apenas de distribuí-los. Eu também os esqueci no bar. Completamente.

- No dia seguinte, você ligou para o bar, que informou que os convites haviam sido entregues para a última pessoa da turma a sair do recinto?

- Sim. E era uma das pessoas que não havia sido convidada. 

- Aposto que essa pessoa não ligou de não ter sido convidada, procede?

- Como você sabe?

- Porque normalmente se a pessoa não foi convidada, é porque não tinha tal intimidade com o noivo. Ou algo assim. Não conheço ninguém que tenha ficado ofendido por não ir a um casamento. Provavelmente, se a pessoa não foi convidada, ela também não convidaria a pessoa que não o convidou. E isso não ocorre por revanchismo, mas simplesmente porque não tem a ver.

- Taí um ponto. Bom, daí os convites eram, na verdade, revistas. Os noivos criaram uma espécie de anúncio em revistas e o convite ficava estampado lá dentro, em uma das páginas.

- E daí a pessoa que pegou os convites-revista não se sabia que eram convites de casamento, pegou um taxi e acabou esquecendo as revistas lá dentro?

- Sim. Mas daí liguei a ele e contei a história toda. Por sorte, a namorada dele era amiga do taxista e conseguia pegar novamente as revistas.

- Só que houve um problema, correto? Ele iria viajar aquele dia e não voltaria até depois do casório. E você precisava dos convites.

- Aí ele resolveu deixar o diabo dos convites com uma amiga da namorada dele, porque o taxista conhecia a pessoa em questão também.

- Compreendo. E depois? Eu precisei recapitular porque estava tudo muito confuso.

- Bom, ai perguntei a ele se a amiga da namorada era bonita. Se fosse, eu pensei quem chamá-la para um chope e tals e até pegar as revistas.

- Até?

- Não. Primeiro, os convites-revista. Depois, se desse, ela também.

- Compreendo.

- Daí liguei para ela, que foi muito simpática. Disse que estava com as revistas e que podia pegar quando eu quisesse.

- Entendo.

- Então, a chamei para sair. Iria aproveitar a oportunidade e estreitar o relacionamento e tudo mais. Temos amigos em comum, sacomé?

- Seicomé.

- Daí ela bateu o telefone na minha cara. Liguei novamente, ela não atendeu. Mandei SMS, nada. E não consegui pegar os convites.

- Que menina mais estranha.

- Também achei. Mas hoje meu amigo voltou de viagem. Como tenho o mesmo nome do noivo, ela achou que eu era o noivo. E, por sinal, um noivo muito safado. 

- Eita.

- Pois é. Disse para a namorada desse meu amigo algo como "que absurdo! Estou com os convites de casamento dele e ele me chama pra sair?".

- Rapaz... que saga. E agora?

- Bom, agora quero falar com ela e ver se essa história tem um final feliz.

- Final feliz?

- É.

- Pensei em um bom. Você poderia sair com ela e esquecê-la em um taxi.

- Ai, ai.

- Ou, quem sabe, se você começasse a acordar no Dia da Marmota. Sempre acordando procurando os convites.

- Ai, ai, ai.

- Ou, então, um bom final para a história seria uma grande amnésia geral assolar toda a humanidade pouco a pouco, tipo a cegueira em "Ensaio sobre a Cegueira". Só você ficaria imune e passaria o resto da vida pensando nos convites que esqueceu. Que acha?

- Já deu, né?

- Não, não. Já pensei em mais uns 32 bons finais para essa sua história bisonha. Você poderia encontrá-la e descobrir que ela, na verdade, é um pato que sabe falar e que...

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- Essa é do festival É Tudo Verdade?

- Quase. Mas essa história foi apenas redigida por mim. Orignalmente, encenada, criada e finalizada por Leandro Leal, Costela e Jef.


quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Reflexo Condicionado

- A Febem te pegou?

- Me pegou junto com a sua mãe, seu filha da puta!

- Opa. Desculpe, não sabia que não podia brincar com seu corte de cabelo.

- Ah, isso. Não, não. Não fico ofendido. É reflexo condicionado de quando eu era criança. Sempre que alguém falava "a Febem te pegou", e foram muitas vezes desde o pré-primério, eu já respondia com falta de educação. Agora, não consigo mais me controlar.

- Hummm. Isso acontece comigo também. E é algo que comecei a ter durante as aulas de biologia na oitava série. Entranto, meu reflexo é acionado quando toca uma campainha. Eu não xingo, como você. Meu reflexo condicionado me faz salivar, querendo comer um bife.

- Seu professor de biologia chamava Pavlov?

- Você também teve aula com ele? Como sabe?

- Esquece. 

- Tem outra coisa que me faz salivar também: Urso Branco, o drink.

- Que drink é esse? 

- É fácil de fazer. Só de pensar, já estou salivando.

- Como é? 

- Receita simples. Metade leite tipo C, metade qualquer vodka. Sem gelo. Servir em copo de plástico. Ou, se quiser impressionar alguma garota, nas mãos em formato de concha e jogar na boca.

- Só de pensar já estou... 

- Salivando?

- Quase. Nauseando.

- Reflexo condicionado?

- Acho que estômago fraco mesmo. 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O Telefone Tocou Novamente, I'm A Cuckoo

- A paixão mais fugaz que já tive foi por uma garota que tinha como música, no despertador do celular, I´m a Cuckoo, do Belle & Sebastian.

- Hoje de manhã, confundi o desodorante com creme de barbear e meti espuma no sovaco. Infelizmente, não percebi a tempo e, depois de colocar e lambuzar a camiseta, ainda joguei desodorante na cara. Como uso daqueles bem vagabundos, do naipe de Avanço, ainda fiquei com o rosto ardendo e vermelho por horas. Parecia que eu estava com rubéola.

- Já fiz isso. E o pior: fiz quando eu estava, realmente, com rubéola. A coisa fica muito pior. É muita idiotice.

- Por falar em idiotice, fale mais sobre essa sua paixão fugaz.

- Pois então, é isso. Conheci a garota nem lembro onde. Não me interessei muito mas acabou que fomos parar nem sei bem onde. Aí, de manhã, acordei com I´m a Cuckoo, do Belle & Sebastian, tocando. Achei uma coisa muito perspicaz e fofa ao mesmo tempo. Cuckoo, despertador, essas coisas. E a música é fofinha, boa para acordar. 

- Acho que a paixão mais fugaz que tive foi certa feita quando me apaixonei pelo andar da Ivone.

- Como assim?

- Era uma moça que trabalhava comigo. Nem era bonita e nem parecia muito uma moça. Mas tinha um modo de andar sublime. Andava como se flutuasse no ar e exalasse lavanda ao mesmo tempo. Ela cheirava não muito bem, mas quando andava, era lavanda para cá e almíscar para lá. Uma beleza. Pena que, por motivos óbvios, não deu certo.

- Que motivos óbvios?

- Bom, eu me apaixonei pelo andar dela, não por ela. Quando saíamos, eu sempre queria ir fazer cooper ou caminhadas em geral, porque queria vê-la andando. Como ela queria ir ao cinema, teatro, bares e ficar sentada, o encanto acabou rápido. Fora que levei quase dois meses para conseguir convencê-la a sair comigo.

- Ela era irredutível?

- Não. É que sempre que eu a chamava para conversar, ela parava de andar pelos corredores. Aí, eu perdia o tesão. Só consegui chamá-la para sair enquanto estávamos em um cortejo fúnebre, de um colega em comum. A distância entre o velório e o jazigo era tão longa que deu tempo de me apresentar direito, chamá-la para sair, combinar o lugar e tudo mais.

- Rapaz, ainda bem que esse colega não era obeso. Coitado dos carregadores.

- Quem disse que não era?

- Xiii.

- Mas voltando ao negócio do Belle & Sebastian, porque foi fugaz?

- Durou exatamente o tempo da música, coisa de três minutos e pouco.

- Mas você não havia passado a noite com ela?

- Havia. Mas não havia me apaixonado. Só que, quando tocou I´m a Cuckoo, aí sim achei demais e me apaixonei.

- E por que passou tão rápido?

- Bom, aí resolvi fuçar mais no celular para descobrir qual seria o toque de chamada.

- Sei.

- Descobri que era O Telefone Tocou Novamente, do Jorge Ben ou do Jorge Ben Jor, sempre me confundo.

- E isso te broxou?

- Pelo contrário. Fiquei mais empolgado. Percebi que ela era toda temática com relação ao celular. Resolvi ir além e, já que ela estava no banho, fuçar mais um pouco no telefone e descobrir o toque de mensagem recebida.

- E qual era?

- Message in a bottle, Police.

- Realmente, temática.

- Temática e perspicaz. E a paixão aumentando. Aí, como era um smartphone desses bem modernos, resolvi procurar por qual seria a música que indicava a chegada de um novo e-mail.

- E qual era?

- Não era música. Era aquele antigamente irritante, mas hoje até que divertido, “You´ve got a mail” da AOL. Bacana, né?

- Muito.

- E aí, o que aconteceu que você desanimou?

- Bom, daí eu estava lá com o telefone na mão quando a bruaca saiu do banheiro.

- Era feia? Foi isso, então?

- Nada. Quem vê cara não vê coração. Além do que, logo mais estaremos todos bem velhos e beleza vai ser a última coisa que conta. Não queria desperdiçar a chance de ficar com uma garota tão interessante, celularísticamente falando, por conta de um rosto feio.

- Entendo.

- Bom, aí ela saiu do banheiro e logo quando eu ia elogiar os gostos telefônicos dela, ela disse algo como ‘por que você está fuçando no telefone do meu namorado?’. Então ela me explicou que havia perdido o dela e, como o namorado estava viajando, havia deixado o celular com ela.

- E você sabia que ela namorava?

- Com aquela cara, tinha certeza que não. E isso foi o segundo ponto que me desanimou. O primeiro, obviamente, foi perceber que eu estava apaixonado por um homem que estava viajando. E o pior: que ele já tinha namorada.

- E a ironia da coisa toda era que você nem tinha como pedir o telefone dele, já que o celular já estava na sua mão.

- Pois é. Mas não ia pedir mesmo. Acho que já estou muito velho para mudar meus hábitos sexuais. Mas que ele é um partidão, isso é. 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Sobre Freiras, Meninos e Lobos

- Você tem sorte de isso aqui não ser um convento e eu não ser a madre superiora. Se não, você seria punido agora. 

- Você iria me por para ajoelhar no milho ou coisa assim?

- Não sei o que faria, já que não sou a madre superiora. Mas se eu fosse, saberia direitinho o que fazer. E você, meu caro, ia sofrer de um jeito que eu nunca imaginei. 

- E você nunca imaginou porque não é a madre superiora, correto?

- Correto. 

- E você não é a madre superiora porque isso aqui não é um convento, correto? 

- Correto.

- Porque, obviamente, se isso convento fosse, a madre superiora você seria. Não é?

- É, Mestre Yoda.

- Mas porque mesmo eu seria punido? Acho que você não me explicou o que fiz para merecer tal castigo não pensado.

- Não sei. Não sou a madre superiora. Mas se fosse, eu saberia porque te puniria. E você saberia porque estaria apanhando.

- Mas se isso aqui fosse um convento, você fosse a madre superiora, eu não seria eu, correto? Eu seria uma freira, por exemplo.

- Sim, é fato. Você seria uma freira. Bem feia, é fato, mas ainda assim uma freira.

- E o que eu, como freira, poderia fazer para sofrer tamanho castigo?

- Isso aí é você quem vai me dizer. Eu seria a madre superiora, não uma adivinha. 

- Se eu esquecesse o Pai Nosso na metade, seria castigada?

- Não sei. Não sou a porra da madre superiora, já disse.

- Ah, mas agora eu queria saber porque eu sofreria. Se eu gaguejasse na Ave Maria, será que seria castigada?

- Não sei, já disse. 

- E se eu aparecesse de hábito tipo mini-saia?

- Bom, aí não precisa ser madre superiora para saber que você seria castigado. Freira drag queen já é demais.

- Ufa. Agora já sei o que não fazer, caso eu vire freira algum dia. 

- Ta satisfeito? Podemos terminar a conversa?

- Quase. Que tipo de castigo eu teria, caso pintasse de drag queen religiosa? 

- Acho que te mandava tomar banho para tirar a maquiagem. Depois, te dava um hábito bem grande, para cobrir suas pernas. Aí, te fazia rezar uns 10 Pais Nossos e umas 12 Ave Marias ajoelhado no milho. E pronto.

- Rapaz. Para quem não sabia como agir como madre superiora, até que você já tem todo o esquema de punição na cabeça, hein. Respondeu de bate-pronto e tudo mais.

- É. Por isso que eu digo, uma pena que isso aqui não é um convento e eu não sou a madre superiora. 


segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Era Uma Vez...

- Vamos brincar de “Era uma vez”?

- Cuma?

- A internet caiu, não tenho como trabalhar. Pensei em inventar uma brincadeira, enquanto ela não volta.

- E como funciona isso?

- É assim: eu começo uma história, você continua. Daí, você pára em algum ponto. Eu continuo e assim vamos, até a gente cansar ou a internet voltar para podermos voltar a trabalhar.

- Hummmm. Tá bom. Começa.

- Era uma vez uma garota chamada Adriana. Adriana não tinha o dedo mindinho do pé esquerdo. Um dia, ela saiu de casa e, distraidamente, topou com o pé em uma pedra.

- ...

- Continua, pô.

- Ah, tá. Aí veio a terceira guerra mundial. Pegou todo mundo de surpresa. O mundo explodiu e todo mundo morreu. Não sobrou nada, nem uma poeirinha cósmica para iniciar outro mundo.

- Se você não queria brincar, era só avisar. Não precisava criar uma história de catástrofe só para se livrar da brincadeira.

- Ué, mas você pode continuar a história.

- Como, se não sobrou nadica de nada?

- Só ter imaginação.

- Então continue.

- Bom, daí o mundo acabou e não sobrou nada. Mas Deus não gostou do que viu. Com uns dois gestos e sua varinha mágica de condão, recriou o mundo tal qual o conhecemos hoje. Com exceção do Jô Soares, que ele considerou um erro e decidiu não recriá-lo. Esse mundo, inclusive, tinha a Adriana, que não tinha o dedo mindinho do pé esquerdo. 

- Aí certo dia, Adriana saiu de casa, rumo à escola, e deu com o pé esquerdo em uma pedra. Ficou com ele todo dolorido. Muito mesmo. Seria uma dor mortal, se doesse um pouco mais. Mas como ela não tinha o dedo mindinho, não morreu de dor. Se tivesse, já estaria morta. Nunca um defeito físico foi tão bom.

- Aí Deus teve um infarto fulminante e foi pro vinagre. Veio a terceira guerra mundial e não sobrou nada. E, dessa vez, nem tinha Deus para recriar tudo. Acabou o mundo, o universo e tudo mais. Não sobrou nada, nada, nada.

- Cacete, como é que eu vou continuar isso agora?

- Imaginação, meu caro.

- Então continua.

- Aí Deus misteriosamente ressuscitou e recriou novamente o mundo. Igual como o conhecemos hoje. A diferença é que, além de não ter criado Jô Soares, aproveitou para emudecer o Diogo Mainardi e deu um dedo mindinho à Adriana, que saiu de casa, topou em uma pedra e morreu de dor. 

- Ah, agora quem não quer mais brincar sou eu. Você matou a pobre Adriana.

- Eu? Eu? Eu nada. Deus, meu chapa.

- Mas mesmo assim, eu queria contar a história da Adriana sem dedinho. 

- Você pode ressuscitá-la.

- Ah, não. Não quero contar a história de uma morta-viva. Muito bizarro para mim.

- Mas nessa história até Deus é morto-vivo, por que a Adriana não seria?

- Porque ela era pura e inocente. Não via maldade em nada. Era vegetariana e tudo mais. Não faz sentido ela ser tudo isso e mais morta-viva.

- Mas ela pode ser uma morta-viva limpinha, que não come miolos e nem manca e se arrasta e grunhe. Ela pode ser normal, com a dieferença que já foi para o além vida e voltou.

- Quando a pessoa vai dessa pra uma melhor e volta, volta toda zuada. Não é possível ir e voltar melhor do que era quando viva.

- Como não? Mire no exemplo de Deus da nossa história. Ele morreu, voltou e quando reconstruiu o mundo, emudeceu o Diogo Mainardi. Isso é ou não uma melhora no caráter do todo-poderoso-morto-vivo?

- É. Mas ele não é uma pessoa, e sim uma divindade. Pessoas não voltam melhores. Divindidades voltam.

- Então cria uma condição especial para a Adriana. Vamos supor que ela fosse mãe-de-santo. Mãe-de-santo é divindade?

- Não sei dizer.

- Supondo que sim. Então ela morreria e voltaria melhor. Pronto, pode continuar a história.

- A Adriana vai ser uma mãe-de-santo morta-viva vegetariana, com um dedinho colocado às pressas no pé, que vai topar com uma pedra no meio da rua?

- É.

- É o fim do mundo!

- De novo? Nosso mundo já acabou três vezes. Assim não dá.

- Não, não. Eu estava reclamando da condição da Adriana e não terminando com o mundo. Se bem que, como a internet voltou, temos que acabar a história. Como termina?

- Que tal acabarmos com o mundo, com Deus, com tudo o que existe?

- Pode ser.

- Tá. Então a Adriana andava pela rua quando aconteceu uma grande explosão intergalática, que dizimou a vida de todos os seres do mundo. Até mesmo Deus, novamente, foi para o quiabo. Acabou-se o mundo e somente sobrou...

- Um violinista surdo, seu violino e uma pedra, na qual ele sentava. Sobre ela, tocou pela eternidade uma ridícula e irritante canção de ninar. Mas como ele era surdo, não se importou. Como não havia ninguém para ouvir, não houve reclamações. Fim. 


quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Seria Isto Uma Linhagem de Repetição?

- Como se define um monumento?

- Como assim?

- O que diabos é um monumento?

- Luma de Oliveira, Viviane Araújo e quase todas as rainhas de bateria do carnaval, com exceção da Geisy.

- Não no sentido figurado. No sentido literal da coisa, porra.

- Aliás, já que você tocou no assunto, uma coisa que me irrita é quem usa o termo "literalmente" errado.

- Eu toquei?

- É. Você falou "sentido literal". Boa parte das pessoas usa o termo "literalmente" para dar ênfase a algo e não para se referir a algo que aconteceu de verdade, no sentido literal da palavra. Já reparou?

- Já, sim. Me dá um pouco de vergonha quando ouço alguém dizer "ele literalmente deu com os burros n´água" ou "ele literalmente ficou com a cara no chão" quando, na verdade, a pessoa quer dizer que o sujeito em questão se deu mal, muito mal, ou sem graça, muito sem graça.

- Eu fico puto com isso. Literalmente puto.

- Hahaha. Olha aí, usou errado.

- Não usei, não. 

- Quer dizer que... Éca!

- Tá. Não falemos sobre minha vida dupla. Explique o que você quer saber sobre monumentos.

- Preciso fazer uma relação de 50 monumentos ao redor do mundo. Achei uns três ou quatro e empaquei. Mesmo porque eu não sei bem o que é um monumento.

- É fácil. Monumento é um troço grande, que não tem qualquer serventia a não ser olhar e ser alvo de fotos de turistas orientais.

- Hummm. Como você entende do assunto. 

- Opa.

- O Arco do Triunfo, em París, é um monumento, então, certo?

- Certo. 

- O Big Ben, na Inglaterra, também?

- Não, não. É um relógio gigante. Não configura monumento.

- E o Cristo Redentor?

- Também não. Serve para o Didi se pendurar de vez em quando. Ou para um paraquedistas pularem de cima para aparecer no Caldeirão do Huck. Logo, é uma maquete da Globo.

- Xi. Então minha lista só tem um monumento. Você tem algum aí de cabeça, para eu anotar?

- O Borba Gato, em Santo Amaro.

- Que beleza. Vou anotar. E a Estátua da Liberdade, é monumento?

- Hummm. Tem alguma serventia além de base para fotos?

- As pessoas podem subir nela. 

- Ah, então é uma escada gigante. Deveria até mudar o nome para Escada da Liberdade. Não configura monumento.

- Nossa, como é difícil achar monumento. 

- Pra você, claro. Eu já pensei em mais vários.

- Quais?

- Os Moais, na Ilha de Páscoa. A Lua, no Céu. E a Luma de Oliveira, na Passarela do Samba.

- Até a Luma só serve para foto?

- Serve para muitas outras coisas. Mas no meu mundo e no seu, só em foto mesmo. E da Contigo. 

- É... uma pena. De qualquer forma, concordo. Que ela é um monumento, isso é.

- Literalmente!


quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Uma Ode ao Nani

- Como foi de ano novo?

- Até o ano novo, tudo bem. O problema veio depois.

- Vai me dizer que você também lamenta a morte do grande Eramos Dias e acha que deveria ser feita, além de uma canonização imediata, uma estátua dele dentro da PUC? 

- Não. O problema é outro.

- Seu comunistinha pilantra.

- Como? 

- Nada. Meu problema no ano novo foi escolha minha. No dia primeiro resolvi parar de fumar. Deus todo poderoso, como é difícil! Como eu planejava parar, fumei até quase morrer no dia 31. Aí dia primeiro até que foi tudo bem. No segundo, comecei a ficar irritado e com palpitações. Aí apelei para o nicorete.

- Ledo engano.

- Pois é. Nicorete na boca e lamber um cinzeiro cheio de filtro de Hollywwod é quase a mesma coisa.

- Eu sei.

- Aí, comecei a colocar cada vez mais nicorete, para ver se a vontade de fumar passava. Passou quando eu estava na ambulância, sendo levado ao pronto socorro.

- Pelo menos, passou.

- Passou, mas a que custo. De qualquer forma, logo depois de reanimado, voltou a vontade. Aí fiz de tudo para ver se passava. Tudo mesmo. Corri, gritei, entre outras coisas. Quando estava passando sangue de bode pelo corpo, a polícia me deteve.

- Hahahaha.

- Mas assim que souberam que eu estava tentando parar de fumar, me soltaram e deram até um segundo bode, de brinde, para eu sacrificar. Agora, no sexto dia, a vontade está pior do que nunca. Outra coisa que me falaram é que estou mais mal humorado, mas não notei ainda. Aparentemente, solto frases grosseiras sem perceber, no meio de uma conversa normal. Deve ser efeito colateral da falta de nicotina.

- Como o que?

- Com a porra da sua mãe, seu filha da puta!

- Caraca! Você está mesmo ficando agressivo sem perceber.

- Ah, não. Esse foi só um exemplo do que eu ando falando sem notar. Eu percebi que havia dito aquilo. Normalmente, pelo que me falaram, agrido verbalmente quando estou distraído, pensando em fumar.

- E você pensa muito em fumar?

- Não tanto. Agora, por exemplo, não sai da minha cabeça uma deliciosa sopa de nicotina, com diversas bitucas de Marlboro vermelho, boiando nela. Nham, Nham.

- Credo!

- Seu fresco com cara de melão!

- Essa foi sem querer?

- O "cara de melão" foi. Desculpe.

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Texto 90% baseado nos últimos 6 dias do Nani.

domingo, 27 de dezembro de 2009

O Caso Sean Deveria Ser Resolvido no Ratinho

- E aí, como foi o Natal?

- O Natal em si, foi ok. Já os traslados, um tanto estranhos.

- Resuma.

- Bom, peguei o ônibus rumo ao Paraná na Barra Funda. Foi quando descobri que a Barra Funda é mesmo muito, muito funda. 

- Por quê?

- Cheguei cedo para esperar o ônibus e sentei no chão, com minha mochila ao lado. Aí, à minha frente, uns dois metros, notei uma moça até que bem feia que ia começar a comer uma coxinha.

- Sei.

- Entrei em uma espécie de transe hipnótico a observando. Só despertei porque uma freira com uma costeleta enorme, que bem poderia ser confundida com o Elvis disfarçado de religiosa, tropeçou na minha cabeça.

- Devo dizer "que sorte" ou "que azar"?

- Sorte. Porque quando acordei, vi que se passara uma hora e estava quase no momento de pegar o busão.

- Rapaz, a irmã Presley te salvou.

- Sim. E mais: quando olhei para a frente, a mulher ainda estava na METADE da coxinha. Vai comer devagar assim no inferno.

- Não blasfema. A irmã Presley não ia curtir. Te daria uma bica na cabeça com sapato de camurça azul se ouvisse você falando isso. 

- Na volta da viagem, a coisa foi um pouco mais estranha. O ônibus quebrou duas vezes, conheci um declamador fanático que sentou uma cadeira atrás da minha e, ao meu lado, veio uma caixa lacrada com silvertape. Às vezes, o que quer que houvesse lá dentro rosnava.

- Credo.

- E quando rosnava, saía uma aguinha debaixo da caixa. Acho que era baba do que quer que estivesse rosnando lá dentro.

- Deus! E não dava para trocar de lugar?

- O único lugar disponível no ônibus todo era ao lado do declamador fanático. Preferi pegar hidrofobia daquilo que estava rosnando e babando dentro da caixa do que ouvir, por 12 horas, como o tal declamador era bom em fazer dobraduras com canudos plásticos.

- Ele falava isso?

- Ele falava sobre tudo. Mas olha que interessante: na segunda vez que o ônibus quebrou, estávamos pertinho, a uns 30 minutos, da rodoviária. O motorista conseguiu estacionar na frente de um batalhão de polícia, na marginal Tietê. 

- Sei. 

- Aí, todos descemos e esperamos o busão reserva. Mas uma loira que estava com mais pressa, ligou para o namorado buscá-la. Chega o namorado para pegá-la em um carro sem placa. Pronto, a poícia foi lá averiguar o cidadão. 

- Que sinuca!

- Aí checa documentos, revista o caboclo. Em resumo: o cara que ia dar carona para a namorada teve o carro apreedido e teve que esperar o ônibus reserva, como todo mundo, para ir embora.

- Hahaha. Que ironia.

- Sabe o que é pior?

- O que?

- Já te falei que o único lugar vazio no ônibus era do lado do declamador fanático? Então, adivinha onde o coitado do carro apreendido teve que sentar...

- Rapaz... e eu perdendo tudo isso, somente acompanhando o caso Sean Goldman.

- Ah, eu só acompanhei por 2 minutos, depois do desfecho. Uma pena, já que eu queria mais informações sobre o assunto. Gosto muito de casos envolvendo barracos de família.

- Eu também. Acho que a TV ficou mais pobre depois que o programa do Ratinho parou de fazer os testes de DNA.

- "E SE FOR TEU? E SE FOR TEU? TESTE DE DNA PRA SABER SE O FILHO É TEU". Essa música era sublime.

- Para mim, o melhor de todos os barracos é o caso Elian. Depois, o do menino Pedrinho. Esse do Sean fica em terceiro. 

- Mas na minha cabeça, tinha um jeito de revolver o problema rapidamente. É simples: duas famílias de países diferentes querem a custódia da criança? Então vai para o país melhor. No caso Sean, tá na cara que devia ir mesmo para os Estados Unidos.

- Hummm.

- Agora, se o pai fosse boliviano ou peruano, daí o Sean deveria ficar no Brasil. Simples assim. 

- E se o pai fosse mexicano e a família, brasileira?

- Aí, apelamos para a sabedoria de Salomão e dividiríamos a criança em questão. Azar dela se os dois países são tão semelhantes. 

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Colaborou, voluntaria e anonimamente, com medo de processos, LS.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Camisa do Flamengo, dias 5,6 e 7

- Finalmente apareceu sem a camisa do Flamengo, hein. Aguentou uma semana certinho, parabéns.

- Obrigado.

- Aliás, eu, se fosse você, ainda a usaria mais um dia. Só de farra.

- Pensei nisso. Mas a Dalva não deixou. 

- Quem é Dalva?

- A mulher que limpa minha casa e lava minhas roupas faz uns 10 anos. No meio da semana passada, depois de me ver sair uns 3 dias com a camisa do Flamengo, ela me ameaçou. Disse que se me visse saindo de casa mais um dia com aquela camisa, ia arrancar à força.

- E essa Dalva tem força para isso?

- Olha, o braço dela dá minha coxa esquerda. Eu já a vi fazendo faxina. Levanta um sofá inteiro com o braço que é o dobro da minha coxa.

- Você disse que era do tamanho, não o dobro.

- Um deles é do tamanho. O outro, o dobro. Ela tem dois, sabe?

- Sei.

- Além do que, uma vez ela deu um cacete no marido que havia acabado de sair da cadeia. Depois de resistir um pouco, achei por bem tirar a camisa antes que eu apanhasse.

- Ela desceu a lenha em um presidiário?

- Ex-presidiário. Mas que antes de tudo era marido dela e se ela não tem direito em bater no próprio marido, quem teria?

- É. Taí um ponto. 

- Então, daí eu sei que ele ficou preso por umas barbaridades que fez. Foi solto e a primeira coisa que fez foi ir para casa. A Dalva deu tanta frigideirada nele que a primeira noite fora da cadeia ele passou na UTI.

- Então fez bem deixar a camisa em casa. Mas como você passou por ela nesses quatro dias restantes?

- Depois do terceiro dia, quando ela me deu esse choque de gestão, eu passei a planejar a fuga direitinho. Quando ela estava distraída lavando roupa ou no banheiro, eu passava correndo pela sala, disparava portão a fora e só parava na esquina.

- O que fazia você suar mais na camisa, claro.

- Sim. Mas é melhor suar do que sangrar nela. O que, aliás, acabou acontecendo em determinado momento do final de semana.

- Ah, é? Ontem a camisa estava nojenta, mas eu estava evitando falar com você porque estava prendendo a respiração. O que aconteceu sexta, sábado e domingo?

- Como te falei, me meti no churrasco da firrrrrma. Depois tentei emendar um show na própria sexta. Não consegui chegar ao show, mas sim ao Carrefour, onde quase acabei com o estoque de cerveja. De lá, casa. De casa, sábado, confraternização de almoço.

- É muita confraternização, não?

- Sim. O pior é que nessa hora, minha calça, que eu só havia usado no dia anterior, estava mais suja que a camisa do Flamengo. Bom, dessa confraternização, outro churrasco. Daí a gente toma um negócio aqui, esbarra na churrasqueira ali, resolve comer carne crua sangrando, e quando vê, a vaca foi para o brejo.

- Isso quer dizer exatamente o quê?

- Que quando acordei no domingo, achei que houvesse um animal morto na minha cama. E errei por pouco: tinha um animal, mas vivo. De dentro da camisa do Flamengo, jogada no chão, saiu um pombo assim que a peguei para vestir. 

- Credo.

- Daí não tive alternativa a não ser vesti-la e sair pela casa à procura do meu celular, da minha carteira e da minha dignidade.

- Sei.

- Achei quase tudo. A dignidade faltou. Deve ter ficado em algum lugar entre sexta-feira, o Brooklin e minha casa. Me movi o mínimo possível no domingo, porque eu estava passando mal e a camisa, cheirando mal. Até que lembrei o lance de tomar banho com a camisa e aproveitar para lavá-la.

- Pelo que vi ontem, não deu bem certo.

- Deu mais ou menos. No domingo à noite, lavei muito bem. Tirei para dormir e, na segunda, ela estava até ok. O problema foi na segunda de manhã.

- O que rolou?

- Bom, acordei e fiquei à espreita da Dalva. Quando achei que ela tivesse entrado no banheiro, corri para o portão. Só que eu calculei mal e ela estava na cozinha. 

- Mamãe!

- Quando eu passei pela porta da cozinha, ela me viu. Não falou nada. Pegou uma frigideira embaixo da pia e se pôs em meu encalço. 

- Compreendo.

- Corri para salvar minha vida. Já estava cagando e andando para a aposta. Então, tirei a camisa, joguei para trás e continuei correndo. Quando virei, vi que a Dalva não estava mais atrás de mim.

- Não?

- Não. Ela parou na altura em que a camisa estava jogada na rua e sambava sobre ela. 

- Que estranho. Ela não queria lavar? E estava sujando mais?

- Quem sou eu para perguntar. Sei que fiquei da esquina vendo tudo. Ela sambou bem em cima daquele trapo rubro-negro. Depois, deu umas figideiradas no pano e voltou para casa. Eu não queria vir trabalhar sem camisa e também não tinha coragem de entrar em casa e pegar outra roupa. Só me restou vir com a camisa pelo sétimo dia. 

- E mesmo assim, hoje, você queria vir com ela?

- Isso. Achei que, de farra, seria uma boa. Mas a Dalva me pegou antes de eu passar pela cozinha. Como eu estava com essa outra camisa por baixo, entreguei a do Flamengo para a Dalva e vim trabalhar.

- Mas, peraí, agora que estou reparando, essa camisa está meio resgada também.

- É que eu não quis entregar a do Flamengo sem luta. Daí sobrou até para essa coitada aqui.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Vem aqui, Fafi






Camisa do Flamengo, Dia 4

- Vou te dar uma dica para você guardar com carinho.

- Pois não?

- Quando você perder uma aposta e tiver que passar uma semana com a mesma camisa, evite fazer muito esforço físico. Principalmente se estiver nos primeiros dias de uso da porra da camisa.

- Sua muito e fode tudo, aposto. De qualquer forma, está anotado. Evitarei. 

- Ótimo.

- Aliás, sua camisa do Flamengo está bem suja, já. Tem uns pretos onde deveria estar vermelho. Parece graxa. E tem também umas marcas amareladas, que dão a impressão que você rolou no trigo.

- Parece, não. É graxa. Impressão, não. É trigo.

- Onde você se meteu?

- Tinha vendido uma máquina de lavar para um camarada e fui entregar. Nove andares para cima e o elevador estava quebrado. Depois, fui acompanhar uns amigos que estavam fazendo cerveja em casa. Veja bem: fazendo. Não bebendo. Aí eles estavam com problemas para abrir o saco de trigo e resolvi ajudar. Quando eu vi, estávamos moendo trigo, cevada, eu e quase o sofá da sala.

- Imagino o gosto que não vai sair essa cerveja.

- Depois que caiu uma furadeira no meio da água em uma das produções e o resultado até que foi aceitável, acredito que é impossível errar na cerveja a ponto dela ficar pior do que a Kaiser. Se enfiarem o Jô Soares na panela que tem cerveja, nem assim estraga a cerveja.

- Que ideia é essa de fazer cerveja em casa?

- Ah, o mercado do faça-você-mesmo é a nova sensação do momento. Depois que aquele chinês criou seu próprio submarino, não há limites para a bricolage.

- Será?

- É sim. Eu faço parte de um grupo de e-mail que discute a produção de cerveja artesanal. Nem sei bem qual era o assunto em pauta, nem a réplica. Mas veja a tréplica do email que recebi faz uns 10 minutos: "Obrigado, amigo. É a mesma que uso para fazer granola e pão integral."

- Granola não se planta?

- Eu achava que sim. Daí, fui surpreendido novamente. Veja o que descobri: a granola é um composto de cinco cereais torrados - aveia, arroz, trigo, milho e centeio -, misturados com mel ou açúcar mascavo e frutas, como uvas passas, flocos de maçã e castanhas. Se fosse pergunta do milhão, do Show do Milhão, tinha perdido.

- Eu também.

- Lendo, descobri que granola é praticamente Corn Flakes.

- E com essa descrição, nem dá mais vontade de comer granola.

- Eu nunca tive muita.

- Mas agora que sabe que não é natural, talvez agrade mais. Você vive dizendo que prefere coisa tóxica.

- Mas é natural pra porra. Se tivesse chumbo ou pólvora na mistura da granola, aí, sim, eu ia simpatizar mais.

- Caldo de galinha iria bem na granola. Aliás, taí um troço bizarro: caldo de galinha. Principalmente porque não é caldo.

- A gente poderia juntar pólvora, chumbo, bacon e galdo de galinha. Grudar tudo com molho especial do Big Mac. E, assim, criaríamos uma alternativa à granola. Seria a granada.

- Ótimo para café da manha no Iraque. Em tempo de guerra, é excelente. Serve de arma ou de alimento, depende só da situação

- Queria falar um pouco mais sobre o caldo de galinha. Debater o assunto até o limite extremo da exaustão.

- Podemos.

- É que ele é realmente bizarro. Não é caldo. E, por ser quadrado daquele jeito, não pode ser nada, nada, nada natural.

- Os caras pegam a porra da galinha e extraem dela um cubinho daqueles, sabe-se lá como. É muito obscuro esse caldo.

- Deve ser uma máquina que espreme a galinha até sair todo o caldo. Aí, colocam numa forminha, jogam argila e pronto, tá feito o caldo.

- Deve ser uma máquina em formato de Gene Simmons usando salto plataforma.

- Esse é o formato da máquina?

- É. Ele pisa nas galinhas pra tirar o caldo.

- Se as galinha tudo vê isso, nem precisam entrar na maquina. Se espremem sozinhas de medo.
O unico trabalho da maquina, por conseguinte, é fazer os cubinhos.

- Galinha é um bicho medroso mesmo. Se é feito um círculo no chão em volta das penosas, não se mexem. Têm medo do lado de fora. E olha que elas estão vendo o lado de fora.

- O azar delas é que dão um caldo muito saboroso.

- Eu acho muito salgado. Mais ou menos tão salgado como está esse diabo dessa camisa do Flamengo. Quer experimentar?

- Você lambeu?

- Dei uma lambidinha, sem querer. Tava cansado de carregar a máquina, coloquei a língua pra fora e, quando vi, tava com ela salgada, encostada na manga da camisa.

- Éca.

- Mas me deram uma ideia para tentar minimizar o cheiro e a sujeira.

- Espero que funcione, porque você já tá quase cheirando a cachorro molhado.

- Ah, é. Esqueci de mencionar que tomei chuva. Bom, então, a ideia é tomar banho com ela. A regra diz que se quiser lavar, tem que ser no banho. Bom, aí faço isso quando estiver próximo de ir dormir, que é quando posso tirá-la. Ai coloco no varal e no dia seguinte, tá seca.

- Parece que resolve. Vai tentar hoje?

- Não. Melhor amanhã à noite. Porque durante o dia terei um churrasco-escumalha da firma, depois show do Lagunna e a coisa tende a piorar bem. Não quero gastar água à toa.

- Faz bem.

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Nota:

- 99%  do texto acima é, sim, uma autêntica conversa DoisVezesUm, já que as tive com Costela.

- Textos Camisa do Flamengo, dias 5 e 6 devem ficar para o dia 7. 

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Camisa do Flamengo, Dia 3

- Daqui a pouco essa camisa do Flamengo virá trabalhar sozinha.

- Eu agradeceria. A situação já está ficando insuportável e estou em "uma sinuca de bico", como diria aqueles que gostam de frases feitas. Se eu a uso com uma camiseta qualquer por baixo, esquenta muito. Se a uso diretamente sobre o corpo, suo para diabo e ela vai feder e estará inusável na segunda-feira. É uma escolha difícil.

- Isso me lembra a história do garoto que queria comer uma lesma com sal. 

- Que história é essa?

- É uma espécie de fábula, que minha mãe me contava quando me punha para dormir. 

- Não conheço. Resuma para mim, por favor.

- Era uma vez um garoto chamado Arthur. Ele tinha 8 anos e, como tal, vivia enfiando coisas aleatórias na boca.

- Crianças de oito anos enfiam coisas aleatórias na boca?

- Posso terminar a história?

- Claro.

- Pois bem, ele já havia comido terra, tijolo, aspargos. Uma vez, havia até abocanhado um molde da orelha do Carlos Alberto de Nóbrega, feito em gesso.

- Nossa!

- Pois é. Até que um dia ele ficou com vontade de comer uma lesma. Mas achava que seria algo sem graça e pensou em colocar sal. Mas sabia que se jogasse sal no bicho, ele derreteria. Então, ele ficou no dilema: comer a lesma insossa ou tacar sal e ter que se contentar em água de lesma com sal.

- E o que ele resolveu fazer?

- Aí ele resolveu procurar uma lesma e, quando achasse, decidiria. Procurou no jardim de casa até que a encontrou. Parou e ficou olhando para a lesma, para se decidir. 

- E o que decidiu?

- Passou muito tempo pensando. Pesou prós e contrar. Pensou, pensou, pensou.

- E a lesma não fugiu nesse meio tempo?

- Lesma é um negócio bem lento, como você deveria saber.

- Não sabia.

- Pois é. Então, depois de muito pensar, desistiu da lesma, do sal, de colocar coisas estranhas na boca. Saiu do jardim, arrumou um emprego, casou e, hoje, é um feliz contador que mora em Diadema.

- Ele era uma criança e arrumou emprego?

- Não. Como eu disse, ele pensou muito. Foram anos pensando. Daí, quando se decidiu, tinha já uns 25 anos e estava na hora de trabalhar.  Saiu de casa, alugou um apartamento em Diadema e virou contador.

- Isso não é uma fábula, não é? Você acabou de inventar, não foi?

- Foi. Mas achei que era uma boa história para te contar e te dar alento.

- Alento? Qual seria a moral da história? O que isso tem a ver com a camisa do Flamengo que uso?

- Que você tem tempo para decidir se usará uma outra camisa por baixo pelos próximos dias ou não. E, se não se decidir até os 25 anos, pode virar contador em Diadema.

- Mas eu já tenho 30.

- Nesse caso, se deu mal.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Camisa do Flamengo, Dia 2

- Ainda com essa camisa do Flamengo?!

- Aposta é aposta, meu chapa.

- Vai usar direto, uma semana mesmo?

- Vou sim. 

- Você poderia aproveitar, já que vai ter que usá-la mesmo, e tentar fazer umas combinações de roupa. Sapato vermelho e calça preta, calça vermelha e sapato preto. Tudo preto. Seria legal ir variando.

- Olha, considerando queesta  é mais uma semana de confraternizações, não sei se é o caso de usar preto e vermelho. Na segunda-feira que vem, último dia do pagamento da aposta, essa camisa será a coisa menos vermelha no meu corpo. É certeza.

- É. Ela vai estar zuadaça e puída. Mas pelo menos você pode lavá-la, para não ficar tão fedida.

- Nem isso posso fazer direito. Tem uma cláusula da aposta que somente permite que eu lave esse diabo de camisa embaixo do chuveiro, enquanto tomo banho. Isso, se eu quiser. Ainda não decidi se é uma boa.

- Uma vez, eu e um amigo apostamos quem conseguia ficar mais tempo, durante um carnaval qualquer, sem tomar banho de chuveiro. Sempre que precisássemos, entretanto, poderíamos tomar banho de piscina. 

- Quem ganhou?

- Eu perdi. No quarto dia, não aguentei.

- Tomou banho de chuveiro?

- Nada. Mas levei um xampu para a piscina, para lavar a cabeça. Foi considerado doping e fui desclassificado.  

- Uma vez, em uma turnê ao sul do Brasil, Argentina e Uruguai, fiquei 30 dias com a mesma camisa. 

- Aposta também?

- Não. Bobiça mesmo. Mas eu podia lavar a roupa, pelo menos.

- E você lavava com que frequência? 

- Nenhuma. No único dia que achei a camisa realmente precisava de uma higienização, estava em um hotel que faltou água. Daí, achei uma bíblia.

- E rezou para voltar a água?

- Não. Achei que se colocasse a camisa no meio das páginas da bíblia e a camisa pernoitasse ali, no dia seguinte estaria cheirosa. Sempre tive fé no desconhecido, sabe?

- E ela saiu limpa?

- Nem limpa, nem cheirosa. Mas a bíblia ficou meio prejudicada, em relação a odores diversos. Ela só não ficou inutilizada porque havia uma mesa manca no quarto. 

- Você usou a bíblia para rezar para um marceneiro entrar e consertar a cadeira?

- Não. A usei de calço mesmo.

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Colaboração de @vivoandando em algumas frases e de @binson, que apostou o lance da piscina comigo.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Camisa do Flamengo, Dia 1

- Por que diabos você está vestindo uma camisa do Flamengo?

- Uma aposta que fiz sobre futebol, no auge do campeonato.

- No auge do Campeonato Brasileiro?

- Também. Mas, nesse caso em especial, era praticamente o auge de um campeonato de ingestão de cana. Eu estava daquele jeito, com um pé na jaca e com o outro na lama.

- Sei bem.

- Apostei com um amigo que se o Flamengo fosse campeão, eu iria usar uma camisa do Flamengo uma semana, sem tirar. Só posso removê-la para tomar banho e dormir. Apostei também que nunca mais iria falar mal do Zico se o Flamengo beliscasse o caneco. 

- E você vai conseguir cumprir as promessas? Porque não falar mal do Zico é complicado, já que ele era fominha, pé frio, perdedor de penalti nato, jogador de Maracanã e, por fim, invenção da Globo.

- Bom, a aposta era a seguinte: esse meu amigo me daria uma camisa escrito "Zico" atrás se o Flamengo ganhasse. Aí eu a usaria por uma semana e não falaria mais mal dele. Como ele só arrumou uma escrito "Adriano", acredito que ele não fez a parte dele. Logo, só farei meia parte minha: a de usá-la uma semana. Quanto ao Zico, continua tudo igual.

- E esse seu amigo é Flamenguista doente?

- Ele é doente. Mas 33% doente pelo o Flamengo, 33% doente pelo o Vitória da Bahia e 33% doente pelo Palmeiras.

- E o 1% restante?

- Acho que ele tem tosse. Fuma muito. Fica com 1% doente de tosse, pelo cigarro.

- Você tem sorte. Uma vez, no auge de uma bebedeira, fiz uma aposta idiota e tive que ir trabalhar uma semana vestido de camponesa.

- Deus! Já vi que estou no lucro. O que você apostou e perdeu?

- Comentei que estava meio manguaçado, né?

- Sim.

- Bom, então não me julgue.

- Ok.

- Apostei que eu não teria coragem de ir trabalhar vestido, uma semana, de camponesa.

- Esse não foi o pagamento da aposta?

- Então. Eu apostei com um monte de gente que eu não teria coragem de ir trabalhar vestido uma semana de camponesa. E disse que, caso perdesse a aposta, para pagá-la, eu iria trabalhar uma semana vestido de camponesa.

- A aposta e o pagamento da aposta eram a mesma coisa? Como você é burro!

- Cala a boca, "Adriano".

- Não provoca, camponesa.

- Dorothy, por favor.

- Como é?

- A camponesa. Apostei que além de trabalhar trajado de camponesa, as pessoas iriam me chamar de Dorothy. E me chamam mesmo.

- Te chamaram, você quer dizer.

- Por uma semana, eu usei a roupa. Mas o apelido... ah, o apelido. Quando a gente reclama de apelido e vai chorar no banheiro no final da tarde por causa dele, aí é que pega mesmo.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

O Que Diabos é Imbuir?

- Acabo de gastar R$ 50 em uma loja de macumba. 

- Comprou o quê? Uma encruzilhada inteira?

- Umas ervas, só. Mas a coisa tá cara. Acho que a crise chegou à macumbaria.

- Por R$ 50, você podia contratar um segurança de carne e osso, acho. 

- E como ele vai me proteger de mau olhado?

- Bicho, você gastou R$ 50 em ervas. Está com mau olhado de quem? Do Delfim Neto?

- Não sei. Sei que acordei meio indisposto hoje e achei que era uma boa idéia comprar uns banhos de 7 ervas.

- Você por acaso resolveu comer um frango com farofa em uma encruzilhada ontem?

- Ontem, não.

- "Ontem, não"!? E anteriormente?

- Não posso precisar. Sabe uma coisa que reparei indo até essa casa de artigos religiosos?

- O quê?

- Que o centro de São Bernardo tem a maior quantidade de pessoas com problemas de locomoção que já vi. No caminho, passei por quatro senhoras de andador, três pessoas com muleta,  sete com bengala e até umas duas pessoas com bota ortopédica. Nem consegui contar o número de mancos que vi. Será coincidência?

- Acho que não. O ar alcalino de São Bernardo deve ter a ver com isso. 

- Como assim? O ar daqui atrai pessoas ou as imbui problemas de locomoção.

- Imbui?

- É.

- Bom, não sei o que isso quer dizer. Mas acho que o ar alcalino é o responsável pelo problema. Provavelmente, ele causa as dificuldades de locomoção. Você, por exemplo, anda extreamente devagar. E nasceu aqui, que eu saiba. 

- Aliás, andar por entre esse tanto de transeuntes com problema de meu uma vontade danada de voar. Cansa esbarrar em todo mundo que se encontra. Os mancos, por exemplo, trombei com todos. Eu sempre achava que eles iam para um lado. Quando eu escolhia o outro, eles me supreendiam novamente. Nunca quis tanto voar.

- Eu sempre quis ser dublador de desenho animado. Mas acho que isso não tem a ver com o assunto.

- Bom, eu pedi a Deus, hoje, para me dar o dom do vôo. Ou, no mínimo, uma perna mais curta que a outra. Assim eu mancaria também e não esbarraria nos meus iguais. Mas Deus não me atendeu porque eu estava muito carregado de mau olhado. 

- E você acha que, depois desses banhos de R$ 50, Ele te dará asas?

- Ou encurtará uma perna, não sei.

- Se alguma dessas coisas ocorrer, me passe a lista dos banhos. Ainda acho que não é tarde para eu virar dublador. Ainda mais com um empurrãozinho divino.

- Pode deixar.

- Mesmo porque já tenho experiência no assunto. Uma vez, fiz um curso semi-profissionalizante na USP. Dublei a professora do Bob Esponja.

- Sério? E foi bom o curso?

- Bom, era um curso de um dia só. Eu gostei. 

- Um dia só?

- É. E nem deu para aprender muita coisa, mas eu gostei.

- Peraí. Sua história começou com um curso profissionalizante na USP. Agora, você diz, praticamente, que esbarrou em um mendigo na rua, ele te pediu cigarro e você respondeu que não tinha imitando a voz da professora do Bob Esponja. Esse papo está estranho.

- "Olá, claaaaaasse. Hoje vamos aprendeeeeer matemááááááática."

- Foi isso que você falou na dublagem de professora do Bob Esponja?

- Não. Isso eu disse para o mendigo que me pediu cigarros. Na aula de dublagem, acho que fiquei envergonhado e não consegui falar nada.

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Colaborações involuntárias de Fábio Primo e Camila Pratti.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Gata Tatu, Cotia Não

- Sempre que minha gata quer entrar ou sair do quarto, ela fica arranhando a porta. Aí preciso levantar e abrir a porra da porta. É um inferno. Não aguento mais e não sei bem o que fazer.

- Você poderia deixá-la do lado de fora. E estaria resolvido o problema.

- Eu estava cogitando implantar polegares nela. Daí, ela não ficaria me estorvando. Abriria a maçaneta sem problemas enquanto eu fico na rede.

- Mas você pode deixá-la do lado de fora também. Isso seria bem mais prático.

- Sim. Mas a longo prazo, ela poderia aprender a usar os polegares para outras coisas. Como pegar o leite na geladeira. Daí, eu não teria que ficar levantando, abrindo a porta do quarto, na sequência, abrindo a porta da geladeira e, por fim,  colocando leite no pote.

- Acho que deixá-la do lado de fora seria uma boa solução para o problema da porta. Dar leite, entretanto, faz parte da tarefa de cuidar de animais de estimação.

- Se ela tivesse polegar, ela também poderia se depilar. Nesse calor, iria bem. E eu não ia precisar ficar depilando-a e cortando os bigodes.

- Você depila sua gata?

- Claro. Ela é menina. E não pega bem uma mocinha peluda zanzando por aí.

- A gata a que estamos nos referindo é um felino, certo? Não é uma garota que você chama de gata, de forma afetuosa?

- É gata mesmo. Do tipo felino. Além do que, com polegares, ela poderia trocar a própria caixa de areia, atender o telefone. Quem sabe, ela poderia até comprar pão. Tudo isso enquanto eu fico deitado na rede.

- Você não quuer um gato, quer uma empregada, correto?

- Eu queria um gato que fizesse as coisas sozinhas. Acho que implantando polegares, ela seria bem auto-suficiente. 

- Sugiro trocar seu gato, sem polegares mesmo, por uma empregada. Ou por uma tartaruga. Elas nunca arranham portas e não bebem leite.

- Nem a empregada nem a tartaruga beme leite ou arranha a porta?

- É.

- Hummm. Bom, vou tentar implantar os polegares. Se não der certo com o gato mesmo assim, aí a troco por uma empregada ou uma tartaruga.

- Troca? Troca com quem? Quem vai querer um raio de um gato com polegares?

- Algum caronista profissional bem preguiçoso, claro.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Post do Resenha em 6. Em várias linhas

- Eita!

- Oi?

- Mano, por que você tá em posição fetal?

- Tava ouvindo o disco "Romântica", da Mara Maravilha.

- E por que seus olhos estão lacrimenjando?

- Tava ouvindo o disco "Romântica", da Mara Maravilha.

- Esse tufo de cabelo aí no chão, é seu também, né?

- Hummm. Acho que... bem... Tava ouvindo o disco "Romântica", da Mara Maravilha.

- Rapaz... e você tá com umas olheiras incríveis. Será também por causa do disco?

- Ah, não, não. Resolvi passar lápis antes de sair de casa hoje, só para ver como ficava. Gostou?

- As lágrimas borraram um pouco. Mas acho que estava até que ok, considerando que você é homem. Olha, acho que, antes do choro e do disco, você estava aceitável.

- Maldita Mara Maravilha

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Deus e o Diabo na Terra dos Gêmeos

- Se eu tiver três filhos, vou dar uma religião para cada.

- Você deve ter um excelente motivo para isso.

- Ô se tenho. 

- E não tem a ver com experiências genéticas, pesquisas com humanos no lugar de camundongos e variantes?

- Não, não.

- Então explique.

- Eu sempre quis saber qual é a religião de Deus.

- Essa é fácil. Ele é ateu. 

- Como?

- Ele não acredita n´Ele?

- Acredita. Mas não se leva a sério. Semi ateu, então.

- E você tem provas disso?

- Não.

- Pois é. Eu queria uma prova da religião de Deus.

- Para?

- Estou ficando velho, sabe?

- Sei.

- Vou morrer logo mais.

- Mas você só tem 30 anos!

- Bom, o mundo anda cada vez mais violento, eu só como bobagens, sou sedentário e moro quase na divisa com Diadema. Não é bom dar sopa para o azar e já estou me preparando. 

- Certo. E o que isso tem a ver com seus três filhos e com a religião de Deus?

- Eu não tenho três filhos.

- Caso tivesse. 

- Ah, sim. Bom, vou morrer sabe Deus quando. E não quero ir para o Inferno. 

- Te conhecendo bem, acho que é tarde demais. 

- Pois é. Me conhecendo bem, acho que posso ir para no Inferno. Mas talvez tenha uma chance no Purgatório e, se meu plano der certo, talvez vá até para o Céu.

- Mas só se você tiver três filhos e der uma religião para cada. Certo?

- Certo! Já te falei essa minha teoria?

- Não, seu debilóide. É que você começou a conversa falando sobre isso.

- Ah, sim. Pois então. Aí, terei três filhos. Um educarei como católico. Outro, como evangélico. O terceiro, como espírita. 

- Não terá um judeu e um mulçumano?

- Não. Para se matar em casa, vai bastar eu e minha futura esposa. Além do que, se Deus é brasileiro, acho pouco provável que seja de alguma dessas duas aí.

- Sei.

- Daí, os criarei cada um com uma religião e observarei de perto o dia-a-dia de cada um por uns 20 anos. Ao final dessas duas décadas, examino quem está melhor no geral, em termos pessoais, profissionais e de time de futebol. Quando concluir quem se saiu melhor, eu me converto à religião dele.

- Você pretende escolher uma religião na base de uma gincana?

- Mais ou menos isso. Mas veja: os três filhos terão oportunidades iguais. Provavelmente, saúde semelhante. Herdarão os mesmos genes. O que os diferirá será mesmo a religião. Logo, só posso concluir que foi Deus quem tornou esse ou aquele melhor nos quesitos gerais. Posto isso, analisando tudo, por meio de matrizes, determinantes, logaritmos e outras marmotas do demônio, concluo qual a religião de Deus. Daí, me converto e, quando morrer, sendo da religião do Homem, tenho boa chance de me livrar do Inferno.

- Supondo que ao fim dos 20 anos os três filhos tenham rigosoamente a mesma renda familiar, esposas semelhantes, empregos que se valham, saúde nem tão boa e nem tão ruim. Você fará o que?

- Te darei os parabéns.

- Como assim?

- Nessas circunstâncias, concluo que Deus é ateu mesmo e paro de acreditar nele até morrer. E, nesse caso, meu caro, você já estará no céu. Ou onde quer que Deus queira te levar.


segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Hahahahaha

- E o Palmeirahahahahaahahahahahahas hein?

- O que tem o hahahahahahaha?

- Hahahahahaha.

- Hahahahahaha.

- Hahahahahaha.

- Hahahahahaha.

- Ai, ai. Agora perdeu a gra... hahahahaha.

- Hahahahaha.

- Hahahahaha.

- Ai. Dói a barriga. Agora acho que... hahahahaha.

- Hahahahaha.

- Hahahahaha.

- Então, já te falei que... hahahahaha.

- Hahahahaha.

- Hahahahaha.

- Hahahahaha.

-  E é melhor torcer pro Asa de Arapiraca não pintar na Copa do Brasil.

- "Aqui é papelão, meu filho!"

- Hahahahaha.

- Hahahahaha.

- Chega. Tô passando mal.

- Tá. Mas daí eu tava lendo que o Internacional quer contratar o Luxa para ganhar a Libertadores.

- O Luxa? Hahahahaha.

- Hahahahaha.

- Hahahahaha.

- Tô até chorando. 

- Isso porque você não é palmeiren... hahahahahaha.


quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Luiz Lombardi, Leila Lopes e outros LLs

- Ontem foi o Lombardi. Hoje, a Leila Lopes. Percebeste alguma coincidência nisso?

-  Coincidência?

- É.

- Que morreram duas personalidades que já fizeram filme pornô?

- O Lombardi já fez filme pornô?

- Não sei. Estou chutando.

- Bom, para mim, a coincidência é que ambos começavam seus nomes com dois éles. Luiz Lombardi. Leila Lopes.

- Nesse caso, se eu fosse o Leão Lobo, estaria cagando de medo.

- E se eu fosse a Luma de Oliveira estaria dando graças a Deus pelo escrivão não ter errado e escrito na certidão Luma de Loliveira.

- A Lindsay Lohan deve estar morrendo de medo também. 

- Mas ela não deve estar sabendo das mortes.

- Só porque é americana e brasileiro é lixo para ela?

- Não, não. Porque, a essa hora, deve estar chapada demais para saber que está viva. Quanto mais, no planeta Terra.

- Pior é que tem um filme pornô como ela, não tem?

- Tem umas cenas de sexo aleatórias, meio softcore, espalhadas pela internet. Tem também um filme pornozão mesmo com uma sósia dela.

- Nossa mãe! Então isso só prova uma coisa.

- O quê? Que ela é a próxima da lista e que a Dona Morte está atrás de atores pornôs?

- Isso. E que o Lombardi deve ter feito algo do gênero em algum momento da carreira.

- É fato. E nunca ninguém descobriu porque nunca ninguém nunca tinha visto o Lombardi. É o crime perfeito.

- É o que eu sempre digo: ninguém narra tanto roletrando impunemente. Nesse mato tinha coelho e, quando a Dona Morte percebeu, já era. 

- Será que o Leão Lobo tem alguma sex tape por aí?

- Se tiver e a Morte a assistir, estamos todos salvos. Incluindo aí atores pornôs que comecem com LL

- Por quê? Ela não vai levar o Leão?

- Assistir uma sex tape do Leão Lobo deve ser demais até para a Morte. No mínimo, fica cega. No máximo, tem um AVC e só não morre porque ela mesma não vai ter condição de se levar por ter tido o AVC antes de beirar a ela mesma, ou melhor, a morte. Logo, ficará inutilizada para sempre e nunca, nunca mais, ninguém vai morrer. Haverá uma superpopulação no mundo e acabarão os mantimentos e tudo mais. A coisa ficará bem apertada, literalmente. Vai ser um inferno.

- Então quer dizer que o Leão Lobo será nosso salvador e, ao mesmo tempo, nosso algoz?

- Isso. 

- Credo. Espero muito que ele nunca se filme transando.

- Dois.

- ...

- Ou melhor, três.

- Três?

- É. Eu, você e a Dona Morte, que Deus não a tenha.

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Colaborou uma amiga do Juliano.


quarta-feira, 2 de dezembro de 2009