terça-feira, 18 de maio de 2010

Melhor ser surdo do que ouvir Carcass

- Hoje aconteceu uma coisa muito inusitada no metrô, na hora que eu tava vindo pra cá. 

- Você veio para cá de metrô?

- Sim.

- Como, se não tem metrô aqui perto? Aliás, não tem metrô nem na cidade. 

- Você não n0tou que demorei mais tempo para chegar aqui do que o de costume?

- Sim.

- Então, foi isso. 

- Foi isso o quê?

- Então, estava eu no metrô. Ao meu lado, uma senhora idosa. Eu estava distraído, ouvindo umas músicas com meu fone de ouvido.

- Vai mudar de assunto assim, sem mais nem menos?

- Mudar? Ué, eu não estava falando justamente de algo que aconteceu no metrô?

- Tá, mas é que... deixa. O que tem a velha?

- Bom, aí estou ouvindo o Symphonies of Sickness, do Carcass. Cantarolando e tals.

- Que merda. Ninguém com mais de 20 anos ouve Carcass.

- Eu ouço.

- Crianção!

- Ninguém com mais de seis anos chama outra pessoa de "crianção".

- Bobão!

- Tá, tá. Bom, aí, de canto de olho, eu vejo a mão da velha me oferecendo o fone de ouvido dela.

- Sei.

- Considerei que ela queria fazer um swing de fones. Queria que eu entregasse o meu, para escutar o que eu ouvia. E ela me daria o dela. Considerei uma experência esquisita, mas topei.

- E o que ela ouvia?

- Então, somente ao colocar o fone dela no meu ouvido e não ouvir nada, reparei que não era um fone. Era um aparelho de surdez. Pelo que percebi da pior forma possível depois, ela havia tirado do ouvido para limpar, porque estava cheio de cera.

- Irônico você colocar um aparelho de surdez no ouvido e não ouvir nada. E ela gostou de Carcass?

- Acho que nem ouviu. Sem o aparelho de surdez, ela não deve ouvir nada. Eu mesmo, depois que recuperei meus fones, também não consegui mais ouvir o Carcass ou coisa alguma.

- Por quê?

- Como disse, o aparelho da velha estava cheio de cera. Impreguinou meu canal auditivo e me deixou surdo até eu parar em uma farmácia para lavar.

- Em farmácias fazem lavagem de ouvido?

- Não sei. Pedi isso, mas não conseguia ouvir o que o farmacêutico dizia. 

- Você ficou surdo dos dois ouvidos?

- É. Depois que coloquei o aparelho da véia na minha orelha esquerda e achei que fosse um fone, conclui que estava surdo daquele ouvido. Aí, mudei de orelha, o que acabou só por piorar as coisas.

- Incrível!

- Pois então. Cheguei à farmácia e pedi lavagem, mas não entendia a resposta do atendente. Apelei logo para o que eu mesmo podia fazer. F~ça-você-mesmo e tudo mais. Comprei listerine, álcool e umas pedras de crack, logo atrás da farmácia. Misturei tudo num pote, mergulhei um cotonete dentro e meti na orelha. 

- Resolveu?

- Na orelha direita, sim. Na esquerda, que estava um pouco mais afetada pela cera, não muito. Quer dizer, deixei de ficar completamente surdo nela, já que o total silêncio foi substituído por um zumbido chato. De qualquer forma, é melhor ouvir um zumbido do que ser surdo.

- É melhor ser surdo do que ouvir Carcass.

- O quê?

- É melhor ser surdo do que ouvir Carcass.

- O quê?

- É melhor ser surdo do que ouvir Carcass.

- O quê?

- É melhor ser surdo do que ouvir Carcass.

- Eu ia perguntar "o quê" de novo. Mas depois da terceira perdeu a graça.

- Crianção!

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Pão com Pipoca e Açúcar

- Ontem eu estava com tanto sono, mas tanto sono, que dormi durante o jantar. Dei de cara na comida.

- Se você estivesse com tanto sono assim, teria dormido antes do jantar. Tipo umas seis da tarde.

- Mas eram seis da tarde. Lá em casa o pessoal janta cedo.

- Hummm. Mas e aí, deu de cara em quê?

- Em uma sopa de ervilhas.

- Queimou a cara?

- Nada. O sono era tanto que eu estava pescando fazia horas. Deu tempo da sopa esfriar. Na verdade, fiquei com a ponta do nariz gelada.

- Ainda bem que você não estava jantando uma planta carnívora. Senão, seu nariz ficaria mordido, não congelado.

- E quem é que come planta carnívora?

- Tive um vizinho que jantava isso todo dia. Era vegetariano radical. Aí comia a planta para, além de se alimentar, meio que para se vingar dos carnívoros. Como dizia que não ia comer gente, comia a planta e se sentia vingado.

- Não comia gente por não ser caníbal ou por ser vegetariano?

- Não sei. Mas dava na mesma: não comia do mesmo jeito. Aliás, um caníbal vegetariano come o que?

- Gente de soja.

- Não parece bom. 

- Nada de soja é. Mas esse meu vizinho aí gostava mesmo de coisa estranha. Lembro que uma vez me chamou para lanchar na casa dele e me serviu pão com pipoca e açúcar.

- Não parece tão estranho.

- Nem se eu te falar que o açúcar era mascavo?

- Aì, sim, a coisa muda de figura. Era mascavo?

- Não era. Era refinado. O pão era francês. A pipoca, microoondas. Cara mais previsível, não?

- Acho que sim. Se eu comesse pão com pipoca e açúcar, usaria exatamente esses ingredientes. Talvez substituísse o açúcar por adoçante, se estivesse de regime. Mas só. No final das contas, esse lanche estava gostoso?

- Médio. Se eu pudesse, substituiria a pipoca por um queijinho. O açúcar por um presuntinho. E meu vizinho pela Erika Mader. Aí, sim, a coisa ficaria boa.

- Com a Érica Mader, meu chapa, até pão com pipoca.

- E com açúcar?

- Não vamos exagerar também.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

A Garota Caiu na Rua...

- Daí, ela me pediu ajuda para... para...

- Fazer um filme pornô?

- Não. Para... como é que fala mesmo?

- Amarrar o sapato?

- Não, porra. Para...

- Comer mandioca? Fazer dobradura com papel? 

- Não. Para... para... 

- Para fazer dobradura sem papel?

- Aí meu Deus. Para...

- Comer uma macarronada da mama sem mastigar?

- Não, cacete. Para...

- Ela te pediu ajuda para soletrar a palavra "ambíguo" no programa do Caldeirão do Hulk.

- Porra, porra. Não. Para...

- Trocar pilha de um rádio? Escalar os 20 maiores jogadores que usaram bigode na história? Coçar sua omoplata? Definir o gênero de omoplata, se é "o omoplata" ou "a omoplata".

- Hum, hum. Para...

- Fazer um cafuné? Fazer um filme pornô?

- Você já chutou essa.

- E não era, né?

- Não. Aliás, você está chutando aleatoriamente há alguns minutos. Você tem alguma idéia sobre o que eu estava falando?

- Eu achava que estava acompanhando seu raciocínio. Mas se não tem a ver com filme pornô, mandioca, dobradura, macarronada, soletramento, pilhas, bigodes, gênero de palavras, então em algum momento eu me perdi.

- Soletramento?

- É. O ato de soletrar.

- Não seria soletração?

- Não, acho que não. De qualquer forma, me perdi na sua história. O que você dizia mesmo antes de chegar na parte de que ela te pediu ajuda para algo indefinido. 

- Que uma garota andava na minha frente esses dias. Aí ela escorregou e caiu no chão. Eu parei para ajudá-la. Ela estendeu a mão e aí me pediu ajuda para... aí meu Deus, para... com o se fala mesmo?

- Fazer um filme pornô?

- Não. Uma pena. E ela era meio boa até. Mas não sei se teria coragem de ficar pelado na frente de câmeras. Se fosse ajuda para uma peça pornô, acho que aceitaria. Acho teatro arte mesmo. Até o pornô. Já filme é coisa de alienado. 

- Então não consigo fazer idéia de que tipo de ajuda ela queria, já que estava ali no chão, com a mão estendida.

- Pois é. Depois eu até saquei o que era, mas não lembro a palavra agora.

- Você a ajudou a levantar?

- Nada. Não sabia bem o que ela queria. Fiquei confuso. Perguntei se estava bem, ela disse que sim. E estendeu a mão. Aí dei uma bica na mão dela e sai andando. Achei que fosse me assaltar, com aqueles dedos ágeis. 

- Entendo.

- Demorou um pouco, mas conclui que ela estava se fazendo de coitada para me assaltar. Certeza que queria ajuda para... para...

- Aumentar o número de idiotas que caíram no velho golpe da mulher indefesa e gostosa no chão, que acaba surrupiando a carteira do bom samaritano, que, na ânsia de a levantar, não percebe que está tendo sua carteira subtraída pela mão-leve.

- Exatamente! Era isso que ela queria como ajuda. Não sei como estava me fugindo essa expressão.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Um assalto à moda antiga

- Vi um assalto à moda antiga hoje.

- Você viu um homem à cavalo, com um lenço no rosto, invadir o banco do condado, dar dois tiros para cima e fugir com os sacos de dinheiro, levantando muita poeira por onde passava? Ah, claro, e não sem antes dar uns tiros no xerife local?

- Não foi um assalto tão à moda antiga assim. 

- Conte-me.

- Conto-lho. Um cidadão parou de moto do lado de uma moça, em um ponto de ônibus, que segurava uma bolsa. Ele disse "passa a bolsa". Ela disse "não!". Ele disse "passa!". Ela "não!". Ele puxou. Ela repuxou. Depois de 3 minutos, ela conseguiu ficar com a bolsa. Deu umas bolsadas no infeliz e ele saiu correndo. 

- Isso não foi um assalto, mas uma tentativa de assalto. 

- Nada. Quando eu disse que ele saiu correndo, ele realmente saiu correndo. Largou a moto lá. A moça, que não quis esperar o ônibus, pegou a moto e levou embora. O assalto foi dela nele e não o contrário.

- E isso é um assalto à moda antiga?

- É, você tem razão. Nem tanto. A tentativa de assalto foi à moda antiga. O assalto em si foi bem moderno e às avessas. Achei que nunca fosse ver um negócio desse na vida.

- Coincidência.

- Você viu algo parecido hoje?

- Não. Mas vi algo que nunca achei que fosse ver.

- Um gato com cabeça de leão?

- Não. Um cidadão correndo atrás de uma mulher, tentando bater nela com um cação. Achei que nunca fosse ver uma surra de cação na vida. E vi. 

- Outra coisa que vi por esses dias, e também me impressionou, foi uma balança quebrada.

- Essas de pesar pessoa?

- É.

- Por que te assustou?

- Achei que um negócio feito para aguentar neguinho obeso pulando em cima e se lamentando das calorias fosse bem resistente. 

- Pode até ser, mas às vezes a balança chegou ao limite extremo da exaustão e desmaiou, entregou os pontos, sei lá. Vai que o Jô Soares se pesa nela todos os dias.

- Nesse caso, não foi à toa que ela quebrou. Além do peso físico dele, teve que suportar o ego do gordo mala. Aí é dose para balança de caminhão. E mesmo assim, não sei se seria suportável.

- Fato. Sempre que entro em um avião, examino se o Jô Soares, o Milton Neves, o Boris Casoy ou a Fernanda Young não estão presentes. Duvido que a aeronave aguentasse tanto ego. Sejam eles juntos ou separados. 

-  Sempre que entro em um avião, vou vestido de padre. Duvido que Deus tenha coragem de meter abaixo e matar um avião com um padre dentro.

- Mas você não é padre.

- Shhhhhhh. Fala baixo. Eu sei disso. Você sabe disso. Mas duvido que o todo poderoso, onisciente e onipresente, saiba.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Vagner Love, el fobista

- Descobri ontem que o Vagner Love é muito fobista. Daí, não tive alternativa a não ser torcer contra ele e contra o Flamengo.

- O que diabos é fobista?

- Não sei. Mas meu pai disse com tanta ênfase, que não tive dúvidas de que ele é 100% fobista.

- Olha, pensando bem, acho que é mesmo. Vamos analisar a carreira dele.

- Acho que nem precisa ir tão longe. Olha as trancinhas. Repara no jeito de correr. A malemolência e o olhar quase brejeiro. É, sim, um fobista.

- Eu acho que fobista tem mais a ver com a carreira. Artilheiro da série B, mais ou menos no CSKA, volta à série A do Brasil defendendo o Palmeiras e se mostra um mindingo. Aí, vai jogar no Rio e, se aproveitando das traves grandes do Maracanã e do condicionamento físico dos anos 40 dos adversários, vira atração quase principal. Pegue todas as informações, as condense e, aí sim, temos um tremendo de um fobista. Quiçá, o maior do Brasil.

- Eu diria que é o maior fobista do mundo.

- Não é. Do mundo, acho que é o Val Kilmer.

- Esse aí é o maior fobista fracassado do mundo. O Love faz parte do rol de fobistas ainda não completamente fracassados.

- Sei não. Acho temos quase um empate no quesito fobismitismo entre Val Kilmer e Love. A diferença fica no fato de que um já é fracassado. O outro está no caminho certo.

- O que só faz do Love mais fracassado que o Val Kilmer, já que o primeiro nem é mais fracassado que o segundo. O Kilmer ganha no quesito fracasso, mas perde em termos de fracasso no fobistismo. O Love, enquanto quase fracassado, é um fobista na acepção pura da palavra, se excluirmos o ponto "quase completamente fracassado no caminho certo para tal objetivo".

- E qual é a acepção pura da palavra fobista?

- Taí. Não sei bem. Vou perguntar para o meu pai.

- Não foi seu pai que disse, certa feita, que o diminutivo de moto não era nem motinho nem motinha, mas motolina?

- Ele mesmo.

- Ah, então aproveita a sapiência dele e pergunta se o Christopher Lambert é muito ou pouco fobista também. Sempre tive a impressão que ele era um pouco... um pouco... então, um pouco uma palavra que eu não sabia nunca qual era. Se pans, era fobista.

- Beleza. Vou aproveitar e consultá-lo e perguntar se ojeriza é com "o" ou com "agá".

- Será que ele sabe isso também?

- Ele é praticamente um oráculo.

- Sabe tudo?

- Não. Mas o que não sabe, inventa. E ai de você se discordar. 

- Te devora?

- Não. Te tira de fobista.

- Credo! Manda só um abraço, então.

- Será mandado.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Das Coisas Saudáveis da Vida

- Se motoristas de ambulância ganhassem comissão por produtividade, certeza que eles iam atropelar pessoas de propósito só para poderem enfiar na caçamba e tirar uns trocos a mais.

- Sei não. É o mesmo que dizer que se açougueiro ganhasse comissão por fazer carne moída, eles iriam fatiar as pessoas a torto e a direito, só para ganhar mais um pouco.

- Sabe que eu estava pensando isso hoje de manhã. Até apressei o passo quando estava perto de um açougue, só por medo de ser picado.

- Hoje de manhã, não consegui pensar em nada. Entrei no banco distraidamente e tomei um susto enorme. Foi tão grande que, de tão atônito, levei umas duas horas para me recobrar.

- Foi assaltado?

- Nada. Entrei na fila do caixa automático e tals. Quando reparei nas pessoas ao redor, vi que na minha frente estava uma mulher que tinha o corpo mais disforme que já vi em uma pessoa sem que ela fosse oficialmente deformada.

- Era gorda demais? Ou magra demais?

- Difícil definir em linguagem humana. Mas vou tentar te dar uma idéia clara. Imagina um vaso.

- De quê?

- Barro. Com um pouco de argila.

- Certo.

- Pinta com tinta guache vermelha.

-  Ela era índia?

- Certeza que não. Se fosse, os índios teriam sacrificado em homenagem ao deus sol ou sem motivo religioso bem demarcado. Em resumo: a sacrificariam só para livrar a aldeia daquela feiura.

- Entendo.

- Agora, pinta com um pouco de amarelo por cima.

- Ainda com o guache?

- Não. Pode ser com gema de ovo cru.

- Tá ficando feio.

- Agora cola umas penas no vaso. Pega uma cabeça de gente, pode ser uma bem parecida com a do Abraham Lincoln, e coloca dentro do vaso.

- Éca.

- Agora, jogue água até a borda. Se a cabeça boiar, pronto. Temos uma imagem aproximada do que vi hoje.

- E se a cabeça não boiar?

- Aí todo meu esforço de descrição foi em vão. A imagem fica bem distante da mulher do banco. Uma pena.

- Mas eu acho que cabeça bóia.

- Pode imaginar isso?

- Acho que posso, peraí.

- ...

- CREDO! Que disformidade.

- Viu. E isso porque só falei de uma parte do corpo dela. Quer que descreva a parte de riba?

- Ué, e essa cabeça boiando no vaso?

- É só até a cintura. Continuo?

- Hummm. Não sei se quero.

- Bom, acho que se eu continuar, quando chegar nos ombros, você já estará cego. Daí pra cima, é perda de lucidez na certa.

- Então deixa quieto. 

- E para piorar, ela ainda demorou na máquina. Parece que não sabia bem como operar. Os outros dois caixas estavam quebrados e eu não tve alternativa a não ser esperar.

- Hummm.

- Quando ela finalmente saiu, eu estava ainda em estado de choque. Esqueci minha senha, o que ia fazer no caixa e tudo mais. 

- Perdeu seu tempo, então. E o pior: sofrendo.

- Fato. Acho que nesses 10 minutos na fila, perdi coisa de umas semanas de vida. Seria mais saudável se eu tivesse fumado um cigarro. 


terça-feira, 13 de abril de 2010

Durma com um barulho destes

- Tô com um problemão.

- Eu também. Estou com uma calça de moletom bem justa e sempre que me movo na cadeira, a costura avança pro meu saco e esmaga minhas bolas.

- Que horror.

- Pois é. É a quarta vez que seguro o grito hoje.

- Ah, então é por isso que você deu um grito agorinha.

- É. Tem uns gritos que não consigo segurar.

- Ah, tá explicado. Como você tava de fone, achei que fivesse ouvindo Michael Jackson. "Who´s bad", manja?

- Cara, você tem mesmo problema. 

- Tenho. Não te disse? Coloquei uma música para despertar no meu celular que me faz dormir, na verdade.

- Muda a música, uai. 

- Mas é uma música tão fofa, que não tenho coragem. Prefiro cochilar ao som dela e me atrasar para os compromissos do que evitá-la.

- Com medo da resposta, te pergunto. Qual é a música?

- Não sei o que Abbys, do Slayer

- E Slayer é fofo? E Canibal Corpse é o que? Sublime?

- É um pouco. Eu acho que aquela pose deles, do Slayer, é tudo fachada. Por trás dos bastidores,, eles devem afofar carneirinhos e soltar bolhinhas de sabão?

- Por trás dos bastidores ou nos bastidores?

- Olha, do jeito que eles são fofos, aposto que afofam carneirinhos nos bastidores e por trás dos bastidores.

- Falando em fofo e em questões de áudio, tive um professor de biologia que tinha uma voz doce que só. Era começar a assistir a aula e me dava um sono danado. Muito melhor dormir com a voz dele do que ouvindo Slayer. Tanto dormi que nunca aprendi nada de biologia.

- Eu aprendi um pouco, mas bem pouco.

- Aliás, ele entrava na aula, abria a boca e eu abria a minha. Mas no meu caso, para bocejar.

- Hahahaha.

- Aliás, só de pensar nele, me dá sono. Meu coração até fica meio vermelho, só de lembrar a voz.

- Vermelho? Mas coração é vermelho mesmo.

- É?

- É.

- Te falei que nunca aprendi nada de biologia.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Museus, Futebols e as ex-mulheres do Netinho reunidos

- Vai vendo como são as coisas.

- Como são?

- Esses dias, estava visitando um museu. E pedi para um cidadão bater uma foto minha.

- Ele disse que sim, você deu a máquina e ele saiu correndo, te roubando o equipamento na cara larga?

- Não, nada disso.

- Que pena, a história ficaria bem mais legal se fosse isso. E ainda te daria uma lição valiosa: nunca pedir a um cidadão com uma meia-calça na cabeça, com a camisa do Corinthians e usando calças cáqui para bater uma foto sua.

- Ô, debilóide. Posso terminar minha história? A qual, aliás, me deu uma outra lição valiosa, diga-se.

- Pode. Mas lembre-se: nunca peça a um mascarado com uma meia calça para bater uma foto sua.

- Certo. 

- Então, prossiga.

- Pois então. Aí pedi para o caboclo bater a foto e ele, amavelmente, se prontificou a fazê-lo. Até aí, tudo normal.

- Sim.

- Bateu várias fotos, até. Me entregou a máquina. Fui olhar e estava tudo muito ruim. Boa parte delas tremidas. Outro tanto, cortando minha cabeça ou minhas pernas.

- Aí você foi reclamar?

- Não, claro que não. Imagina. O cara tinha feito um favor. Achei por bem ficar quieto. Mas o problema é que ele veio perguntar se estavam ok.

- E?

- Bom, daí eu disse que sim. Que alguma tinham ficado meio estranhas, mas que não tinha problema. Aí ele justificou dizendo que era fotógrafo profissional.

- Formado pela APAE?

- Hahahaha.

- Aliás, como alguém justifica algo que fez bisonhamente dizendo ser profissional naquilo? Não seria o contrário?

- Ele disse que, como era fotográfo profissional, não poderia tirar fotos boas em horário de folga sem cobrar nada. Seria uma espécie de postura ou principio profissional.

- Que coisa mais estranha.

- Exato. Disse que se batesse fotos com maestria estaria, em momento de folga, exercendo a profissão. Que isso não seria correto e, mais, injusto com seus patrões, que pagavam para ele tirar fotos enquanto eu, com um simples pedido verbal, conseguiria seus préstimos.

- Que história mais sem pé nem cabeça. É como se eu pedisse para você pegar um papel no chão e você dissesse que não, porque é um gari profissional e não limpa nada fora do horário de trabalho.

- Exatamente.

- Ou se esticasse a mão para te comprimentar e você se recusasse, alegando que é mímico profissional e não faz gestos fora do horário de trabalho.

- Como é?

- Acho que agora exagerei.

- Tá. De qualquer maneira, peguei a máquina, agradeci o fotógrafo e resolvi ir ver outras coisas no museu.

- E acabou a história?

- Mais ou menos. Antes de sair, o fotógrafo me deu o cartão dele e disse que, precisando, estava à disposição. Daí, eu virei as costas e ele me cutucou. Voltei a ele e ele me perguntou as horas.

- E?

- E eu disse que eram 7 e meia da noite.

- E?

- Como era  dia claro ainda - para ser exato, era de manhã -, ele estranhou. E até mesmo disse: 'ué, mas não é de manhã?'. 

- Por que você mentiu?

- Disse a ele que era cuco profissional e não podia responder corretamente, já que não estava ganhando nada com aquilo. Achei que ficou tudo elas por elas, nesse caso.

- Isso me lembrou uma vez, que fui jogar bola com uns desconhecidos, em uma praia em Cuba.

- O que tem a ver?

- Então, vi uns caras jogando bola e fui perguntar se podia entrar. Disseram que sim. Era um bando de turistas iranianos, mais um punhado de guatemaltecos e eu, brasileiro.

- Sei.

- Quando me apresentei, eles logo ficaram cabreiros. Todos me queriam no time, só pelo fato de ser brasileiro.

- Já te vi jogando futebol. É patético, para dizer o mínimo. Parece muito o Curly, dos Três Patetas tentando fritar um ovo.

- Pois então, eu sei disso. Você sabe disso. Mas a turistada não sabia. Fama de brasileiro é essa aí.

- Ainda bem que você não é mulato, se não tinham de proposta casamento ali mesmo na praia.

- Pensei nisso também. De qualquer forma, foi minha melhor partida. 

- Fez gol e tudo mais?

- Nada. Aos 4 minutos de jogos, eu já tinha apanhado mais do que ex-mulher do Netinho de Paula. Um inferno mesmo. 

- E como jogou tão bem?

- Só apanhei. O pessoal não me deixava dominar a bola e já vinha passando o rodo. No final das contas, sai mancando, todo roxo e sem encostar na bola. E ainda assim, todo mundo veio me dar os parabéns. Ah, a fama dos brasileiros é mesmo uma coisa ímpar. 

- E você ficou feliz em apanhar?

- Claro. Se me deixam dominar uma bola, percebem que tenho dois pés esquerdos e a coordenação de uma maria mole dotada de vida. Como não deixaram, não fiz papelão. E, no dia seguinte, ainda brigaram para me por no time. 

- Você jogou dois dias seguidos?

- Não, claro que não. Quis parar no auge. E parei.

terça-feira, 30 de março de 2010

Sócrates, cerveja, Zidane e mais cerveja

- Adivinha quem eu encontrei no final de semana.

- O Juca Chaves.

- Errou.

- O José Vasconcelos.

- Tsc, tsc.

- A Fafi Siqueira.

- Não.

- A Consuelo Leandro.

- Essa aí já morreu. Impossível ter encontrado.

- Bom, não sabia que você não era médium. Agora que já sei, ficou fácil. Vou riscar da minha lista comediantes de quinta categoria que já tenham morrido. Ficarei só com os vivos.

- Tá. Mais uma chance.

- Marcelo Tas.

- Ué, você não falou que ia riscar comediantes sem graça?

- Só os que morreram. O Tas tá vivo, não tá?

- Não sei dizer.

- Bom, fala logo.

- Dr. Sócrates.

- Que legal. 

- Foi em Ribeirão Preto. Em um evento em uma fábrica de cerveja. 

- Bacana. Já encontrei ele também. E em um bar. Acho que se qualquer pessoa no mundo sair para beber mais de 4 dias seguidos em uma mesma semana encontra o Sócrates por aí.

- Pois é. Eu nem queria ser tiéte, mas fui. Até tirei foto com ele. Olha só, que beleza.



- Coisa linda. Esse óculos também é uma beleza. 

- Pois é. Mas perdi. Comprei na semana passada e perdi durante esse evento. Perdi também dois copos. O terceiro comprado não deu tempo de me desfazer involuntariamente. 

- Bom, esse óculos aí é melhor perder do que achar. Acho que você teve sorte.

- Obrigado. Agora, sobre o Sócrates, ele é muito simpático. Atencioso e tudo mais. 

- Vocês conversaram?

- Sim. Obviamente. 

- Sobre Rivaldo e Zidane, essas coisas?

- Exatamente. Foi assim.

"Quem é melhor: Zidane ou Rivaldo?"
"Zidane".
"Você ou Raí?"
"Raí".

Aí desisti dele. E ele, de mim. Ambos ao mesmo tempo. Eu estava muito inconvenientemente bêbado. Ele, pelas respostas, lelé da cuca.

- Hahahaha. Já encontrei o Sócrates também, como te disse. 

- Em um bar, certo?

- Sim. E eu também estava um tanto inconvenientemente bêbado. Olha a foto, que legal.


- Tô impressionado com sua cara de feliz.

- Pois é. E tive uma conversa com ele muito semelhante à sua.

- Perguntou quem era melhor, se Zico ou Zetti improvisado na meia?

- Claro que não. Todo mundo sabe que a resposta é, óbviamente, Zetti. Hoje em dia, inclusive.

- E qual foi o teor da conversa.

- Foi mais ou menos isso. 

"Pode tirar um foto, Magrão?!"
"Opa, vamo lá."
"Valeu. Você e o Biro são foda. Os jogadores de hoje são tudo estrelinha, andam com fone de ouvido e um monte de segurança só para não tirar foto".

- E ele fez algum comentário sobre o seu comentário?

- Sim. Soltou um ruído incompreensível e nos separamos.

- Que bonito. Parece até fim de novela do SBT. 

- Mas depois me arrependi da conversa.

- Por quê? Achou que pegou pesado com os atuais jogadores?

- Não. É que estava com uma leve dor no fígado esse dia.

- E?

- Ué. Ele não é médico? Ia aproveitar para me consultar com ele. 

- Mas eu acho que ele é ortopedista.

- Bom, mesmo assim eu poderia ter pedido a opinião dele.

- Como médico?

- Como alcoolista, médico, ser humano, ex-jogador, sei lá.

- Só para saber a opinião dele?

- É. Imagina se ele diz "gruda um pedaço de bacon sobre a área dolorida e anda com ele por três dias sob a camisa". Seria muito legal.

- Por quê?

- Ué. As pessoas iam me perguntar porque eu estava fazendo essa sandice. E eu diria que foi uma simpatia indicada pelo Dr. Sócrates. Não é legal?

- Isso não faz o menor sentido. As pessoas iam começar a achar que você e o Dr. estão beirando a maluquice.

- Mas eu me defenderia dizendo que o Rivaldo é melhor que o Zidane e que o Sócrates jogou mais do que o Raí.

- Sim, você se defenderia. Mas e o Sócrates?

- Bom, ele acha o Raí e o Zidane melhores. Não teria mesmo como se defender, de qualquer maneira.

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Colaboração nos diálogos (e na foto cedida) do Juliano, que também pode ser encontrado aqui.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Injustiça! Injustiça!

- Por que você tá todo suado?

- Andei mais de uma hora e meia debaixo desse sol infernal.

- Ué, mas você não levava 40 minutos para chegar aqui?

- Levo, ainda. Mas hoje, no caminho, eu estava vindo para cá , numa boa. Aí veio uma loira e me deu uma foda dessas.

- Como é? Você conheceu uma loira no caminho e acabou comendo ela?

- Pelo contrário.

- Ela te comeu?

- Ai, ai. Não, não. Foi assim: virei uma esquina e logo à minha frente, uma loira de saia caminhava. De costas, era uma beleza. Aí, apressei o passo para ver se Deus era justo e havia dado uma frente tão bela quanto a retaguarda.

- Sei.

- Aí, você sabe, eu ando devagar. E tive que apressar o passo para ultrapassá-la, virar disfarçadamente para trás e ver se ela era um caso de justiça ou injustiça.

- Falando nisso, o que diabos fazem esses desocupados na frente do julgamento do Caso Nardoni?

- Esses que ficam gritando e ostentando faixas com os dizeres "justiça! justiça!"? Acho que nada mesmo. São desocupados.

- Me deu vontade de pintar lá na frente com uma placa dizendo "injustiça! injustiça!". Queria ver o que esse povo ia fazer. Pena que não sou tão desocupado assim.

- Acho que iam te arrastar para um prédio e te jogar de alguma janela. Mesmo porque esse povo não tem lógica. Eles pedem justiça, mas se absolverem os Nardoni, pelos olhos da justiça, será feita justiça. Mas esse povo vai achar que não. Logo, eles querem punição, não justiça.

- Interessante ponto de vista. Além de desocupados são umas belas bestas, é isso? 

- É isso. 

- Mas então, voltando à questão da justiça divina. Apressei o passo, mas nunca chegava nela. Ultrapassar, então, me parecia um dos 7 trabalhos de Hércules.

- 12 trabalho.

- Tá. Mas daí, quando estava quase chegano na...

- Chegando.

- Que seje. 

- Que seja.

- Tá, tá. Pascoal me deixa termina.

- Pasquale, terminar.

- Posso?

- Pode.

- Bom, quando estava quase a alcançando, percebi que me esforcei tanto em ultrapassá-la que desviei do caminho e não sabia mais onde estava. 

- Se perdeu?

- Sim. Mas daí, quando vi que a vaca tinha ido para o brejo, achei que era tarde demais para me preocupar com isso. Primeiro, veria o rosto dela. Você sabe que odeio injustiça, seja ela divina ou não. Então, a minha ideia era primeiro checar a frente da moça. Depois, me localizar.

- Seria justiça ou injustiça divina do ponto de vista do criacionismo. Se você acreditar na evolução, a injustiça é com os pais dela e com Darwin.

- Sim. Mas eu tinha um plano. Checaria o todo da moça. Conforme fosse, logo depois disso, eu ajoelharia e, fechando os olhos, faria uma prece. Na ocasião, aproveitaria para parabenizar Deus ou cornetá-lo. De quebra, por via das dúvidas, pediria a Ele para amaldiçoar ou parabenizar Darwin. Por fim, para cobrir todas as pontas, pediria à moça o endereço de seus pais e iria lá tocar a campainha e dar os parabéns ou esbofetear ambos.

- Tudo isso por conta do conjunto da obra da moça?

- Sim. Já que tinha ido longe demais, achei que era uma boa fazer o serviço completo.

- E, no final das contas, você a ultrapassou?

- Cheguei a um braço de distância, vi que minhas forças estavam se esvaindo e, aí, apelei.

- Correu?

- Não. A cutuquei. Ela se virou para mim e, para unir o útil ao agradável, puxei assunto perguntando como eu chegaria em uma rua X, já que estava realmente perdido.

- E ela?

- Estava de óculos escuros e uma máscara, provavelmente se protegendo da gripe suína.

- Rapaz, e aí?

- E aí que ela falou meia dúzia de palavras, se virou e foi embora.

- Eu já estava tão cansado que minha vista estava turva. Como ela estava de máscara, não só não consegui ver se era bonita como também não entendi a indicação que ela me deu. Aí fiquei zanzando perdido por quase uma hora até que cheguei aqui.

- Rapaz, que injustiça.

- Pois é. Odeio isso. 

terça-feira, 23 de março de 2010

Caso Nardoni: Metendo o Dedo na Ferida

- Há uma rua perto de casa que chama Raquel da Cunha. Mas eu sempre confundo o nome, achando que chama Queiroz da Cunha. Por que será isso, hein?

- Desculpa, não prestei atenção no começo. Chama como a rua? Raquel da Cunha ou Queiroz da Cunha?

- Ih. Agora não lembro. Sempre confundo.

- De qualquer forma, você quer saber por que confunde, certo?

- Certo.

- Deve ser por conta da Raquel de Queiroz. Você deve fazer uma associação bizarra subconsciente e acaba trocando o Raquel pelo Queiroz. Só mantém o Cunha. Ainda bem que você não associa também o Cunha ao Euclides. Dariam várias combinações. 

- É. Raquel da Cunha, Queiroz da Cunha, Raquel de Euclides e Queiroz de Euclides. 

- Isso.

- Merda. Por que você foi me falar isso? Agora já tenho munição para confundir mais. E isso me deixa puto.

- Falando em nomes, e o Caso Nardoni, hein?

- Como é o nome da rua mesmo?

- Sei lá.

- Euclides de Queiroz?

- Era Raquel ou Queiroz da Cunha.

- Ah. Tá. Vou tentar manter o Euclides fora. Se entrar, fodeu. Dizem que repetindo, ou ouvindo, algo 12 vezes, já fixa na cabeça. Quero evitar o Euclides. 

- Tá. Mas deixe-me repetir: falando em nomes, e o Caso Nardoni, hein?

- O que tem isso? Que assunto mais chato.

- Então, queria que eles ficassem em liberdade.

- Acha que são inocentes?

- Não sei É que queria fazer uma experiência.

- Fazer um teste para saber se são culpados ou inocentes? Deixá-los soltos e fazê-los adotar outra criança? Se em 5 anos ela caísse da janela, eles seriam culpados. Se ela passasse ilesa, eles seriam inocentes. É isso?

- De onde você tirou isso?

- Da minha cabeça.

- Vindo de um lugar que confunde um simples nome de rua, não esperava ideia melhor.

- Mas pensa bem, nunca ninguém vai saber o que realmente aocnteceu. O julgamento não provará nada. Mas minha experiência empírica seria a prova cabal de culpabilidade ou não.

- Bom, eu queria deixar o Alexandre Nardoni solto por outro motivo. Quanto à mulher, eu a queria presa.

- Para?

- Bom. É uma experiência.

- Depois fala de mim.

- Mas é uma experiência válida. A primeira mulher dele chama Ana Carolina. A segunda, Ana Carolina. Com ele solto e ela, presa, ele teria que arrumar outra namorada. 

- Ter, ter, ter, não teria.

- Não teria, é fato. Mas você sabe como é homem. Não aguenta um rabo de saia. 

- Sei.

- Daí, queria saber se a terceria namorada seria Ana Carolina.

- Você acha que ele ia namorar a Ana Carolina? A cantora? Acho que não, hein. Ela é lésba, eu acho.

- Bom, se ele arrumasse outra Ana Carolina, saciaria minha curiosidade. Mas se começasse a namorar uma moça que gosta de outras moças e ainda fosse cantora da MPB, aí saciaria a minha curiosidade e as manchetes da mídia por meses. Essa minha experiência faria todo mundo ganhar. 

- Bom, para sua experiência, ele não precisaria ser solto. Ouvi falar que presos recebem muitas cartas de interessadas. Era só ele escolher a moça pelo nome do remetente. E, ademais, nas prisões, sempre há travestis. Vai que algum deles não se chama, artística-detentamente falando, Ana Carolina.

- Sei não. A maior parte dos travestis que conheço chama Pamela, Ronalda e Rogéria.

- Você conhece travestis? E tantos assim, para separar por maior e menos parte?

- ...

- Hein?

- Quantas vezes mesmo a gente tem que falar ou ouvir algo para aquilo entrar na cabeça?

- 12. 

- Euclides da Cunha, Raquel de Queiroz, Cunha de Queiroz, Raquel de Euclides, Queiroz de Euclides, Euclides da Cunha, Raquel de Queiroz, Cunha de Queiroz, Raquel de Euclides, Queiroz de Euclides, Euclides da Cunha, Raquel de Queiroz.

- Deu 12?

- Deu.

- Chupa, agora você se confundiu inteiro. 

- Merda. 

quarta-feira, 17 de março de 2010

Um estranho ponto de vista etíope sobre o caso Adriano e Vágner Love

- Quem inventou o jogo da velha?

- Bom, pelo nome, desconfio que tenha sido uma velha. E, por ser um jogo tão debilóide, acredito que era uma velha senil, senil. Pô, uns nove quadrados para serem preenchidos com xis e bola e que dão poucas combinações não pode ser coisa de gente com 100% centrada.

- E esse tal de Chatroulette. Você sabe quem inventou? Ou melhor, o que é?

- É um site que você entra e aparece uma webcam. Você liga a sua e te colocam aleatoriamente pra bater papo com quem aparece.

- Que cousa!

- Mas a proporção é de 20 homens pra cada rapaz. E como é aleatorio, aparece nego pelado, traçando uma cabra ou uma melância, essas coisas.

- A putaria é liberada, então?

- Não precisa de cadastro, nada. Só acessar.

 - E essa coisa tá na moda, procede?

- Parece que sim. Tanto que li a respeito na Istoé. E se chegou na Istoé, até em Pirituba já chegou.

- Até em Perus, se bobear.

- Na Febem de Franco da Rocha não se fala em outra coisa.

- Até em Ermelino Matarazzo a rapeize tá na área, aposto.

- Tudo com a piroca de fora, esperando as chuchucas.

- Nem preciso dizer que em Perus, o peru fica o tempo todo aparecendo no Chatoulette.

- Não precisaria dizer. Mas já que disse...

- Se o Adriano fica sabendo do esquema, aí acabaram as festas com Jumento e Anão. Só Chatroulette daqui para a frente.

- Você viu ele no Fantástico, no domingo?

- Não. Eu estou acompanhando mais de perto o caso Vagner Love.

- Esse negócio do Vagner Love ainda não vi, preciso ir atrás

- Não me interessou o fato dele ser escoltado por nego armado. E, nem tanto, por ter neguinho com uma bazuca na favela. Mas o que me chamou a atenção mesmo foi que, pelas fotos, deram a bazuca pro rapaz mais fraco. Ele sofre pra carregar aquilo. 

- Porra, favela!

- Ou melhor, porra, comunidade menos favorecida! 

- Quer dizer que deram a bazuca pro único traficante que veio da Etiópia na favela? 

- Exato. Deviam dar prum cara mais bem alimentado. A dificuldade com que ele carrega aquilo da dó. E eu achei que nunca fosse ficar com dó de um cara com uma bazuca.

- Aposto que os lança-chamas deles dão pra um cego operar.

- Porra, mas, pensando bem, bem feito pra esse filho da puta. Ninguém é obrigado a carregar bazuca.

- Não fala bobagem. Ele é etíope. Não sabe que tem escolha.

- Quem te falou que os etíopes são burros a esse ponto? Tem no YouTube?

- Eu não disse que são burros. É que na Etiópia o pessoal vive ao sabor do vento, sem escolher nada. Quando deram a bazuca na mao dele, ele pegou e ficou com ela.

- Esse é o estudo antropológico mais profundo que já ouvi sobre a Etiópia.

- É como seu sempre digo, quer saber sobre a Etiópia, vem comigo. 

- Hahahaha.

- Não parece, mas sou letrado em certas coisas. Agora, com licença que vou ali rezar para São Patrício e só volto na sexta.

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Como já está virando tradição, colaboração, de novo, da @vannmarques.


segunda-feira, 15 de março de 2010

Probabilidade, Pombos, Pombagira e Armero

- Já ouviu falar no Problema de Monty Hall?

- Não me lembro.

- É uma questão de probabilidade meio que simples. 

- Não tem matriz, determinante, log e nem multiplicação?

- Não muito.

- Me fale mais a respeito.

- O problema surgiu em um programa americano, uma espécie de Porta dos Desesperados, do Sérgio Mallandro. 

- Ou da Porta da Esperança, do Silvio Santos?

- Não. Está mais para a Porta dos Desesperados mesmo. Imagine que há três portas. Dentro delas, há um prêmio de valor alto, como um carro. Nas outras duas, porcarias, como uma cabra e um sujeito fantasiado de gorila. Você deve acertar a porta que tem o melhor prêmio. Só que, ao escolher uma porta, o apresentador vai em uma que ele sabe que não tem o prêmio e não é a que você escolheu e a abre, mostrando que o prêmio não está lá. E pergunta se você quer mudar sua escolha. Agora, são só duas portas. Você mudaria?

- Não.

- Mas aí é que está. Pela probabilidade, agora você teria mais chance de ganhar o carro se mudasse de porta.

- Mas eu não quero um carro. Esqueceu que minha carteira foi cassada? Eu queria mesmo era a fantasia de gorila.

- Eu não sei se eles liberam a fantasia de gorila.

- Eu me contentaria com a cabra.

- Mas mesmo assim. Supondo que eles liberem os outros prêmios, eu acho que a cabra, tudo bem, você pode levar para casa. No caso da fantasia, teria que levar o cidadão vestido de gorila. O prêmio é o cara de gorila. Nem uma ocisa nem outra. E, uma vez em casa, você que o convencesse a tirar a roupa.

- Ah, mas isso seria fácil. Se eu o ganhei, ele é meu. Meu escravo. Bastaria ordenar a tirar a roupa.

- Não sei. Pensando bem, você ganhou um cidadão vestido de gorila. A partir do momento que pedisse para tirar a roupa, ele não seria mais um cidadão vestido de gorila e você perderia o poder sobre ele. Ele estaria livre para partir. 

- E deixaria a fantasia para trás?

- Duvido. Essa gente que se fantasia profissionalmente e se esconde atrás de portas se apega muito às vestes. Você ia ficar com uma mão na frente e outra atrás.

- Será que se eu fizer um café e usar água com gás no lugar de água torneiral, a coisa fica boa?

- Sei lá. Mas deixe-me voltar ao problema do Monty Hall. Acabo de ler que fizeram um pesquisa com pombos e eles são melhores nesse jogo do que a gente. Eles sempre mudam de opção, quando das opções, de três, mudam para duas. A cada 10 jogos no estilo Monty Hall, oito vezes quem muda de porta ganha. E os pombos fazem isso sabe Deus como.

- Aí, sim, fomos surpreendidos novamente.

- E não é?

- A porra dos pombos são foda. E pensar que uma vez atropelei um. Mas foi sem querer, obviamente. É certeza que matei um pequeno Einstein.

- Ele deve ter calculado erroneamente as probabilidades de atravessar a rua sem ser atropelado. Ou calculou bem demais e era um suicida. 

- Deve ter pensando "chance de ser atropelado se atravessar voando: 0%. Chance de ser atropelado de ser atropelado se atravessar andando: 100%. Agora, preciso provar minha teoria."

- Exato. Foi voando. Ok. Voltou andando, morreu. Se sacrificou pela sua ciência. 

- Os pombos são mesmo uns abnegados. 

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De novo, colaboração da @vannmarques.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Uma conversa. Nenhum assunto.

- Você acredita que Belle & Sebastian seja a banda mais nada a ver do mundo?

- Não considero, não. Ronaldo e os Impedidos está na frente.

-  E o que dizer do Sigue Sigue Sputinik?

- Não lembro das músicas deles. Só dos moicanos que usavam.

- Isso é um bom resumo da banda. De tão nada a ver que eles eram, usavam moicano e tocavam coisa que nem o Shaquille O´Neil teria coragem.

- Mudando de assunto, preciso de confessar uma coisa. Tem um cabelo que cresce dentro da minha orelha que é comprido, bem comprido, e isso me dá uma aflição dos infernos.

- Arranque. Nem precisa de pinça, se é tão grande.

- Ele é quase transparente. Isso faz com que a tarefa de arrancá-lo se torne uma grande dificuldade. E, o pior, ele é branco. 

- Mudando de assunto de novo, hoje de manha estava vendo Ana Maria Braga. Fiquei puto com o desafio de charadas entre ela e Louro.

- Eu acompanho isso na medida do possível. São charadas horríveis.

- Exato. "O que é um ponto verde andando pelo calçadão de copacabana? Um greengo." 

- Sei bem. "Como se prende um ponto rosa voador? Numa gayola."

- Chega a ser ofensivo. Porra, Ana Maria! Porra, Louro José!

- Ofensivo mesmo foi o que passei outro dia. Estava na padaria da esquina de casa e resolvi acender um cigarro. O dono pediu educadamente que eu apagasse o cigarro ou fosse fumar lá fora.

- O que tem de ofensivo nisso? É lei.

- Eu sei. Mas na mesma padaria tem máquina de videopoker. Eles também apontam o jogo do bicho, lá. Achei que contravenção por contravenção, eu poderia fumar sem ser incomodado.

- E você apagou o cigarro ou foi fumar fora?

- Apaguei. Não queria largar a máquina de videopoker. Eu estava indo bem.

- Olha só isso. 

- Manda.

- "Você sabia que na esquizofrenia catatônica pode haver o fenômeno 'Obediência Automática' onde qualquer comando é obedecido mesmo que danoso?" Só faltou chamar esquizofrenia acrumbática maluco 

- Isso sim é uma doença do inferno. Imagina ficar catônico na frente da TV e obedecer tudo o que o Gene Hackman fala. Seria um inferno.

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Colaborou involuntariamente: @vannmarques


quarta-feira, 10 de março de 2010

Prostitutas, Jornalistas, Essas Coisas

- Vai, Corinthians!

- Saravá, São Jorge.

- Uma dúvida me ocorreu agora.

- O time ideal? Essa é fácil: sacamos o Tcheco e o Willian. Colocamos o Dentinho e o Leandro Castan e pronto. Não tem como dar errado.

- É... Mas não era isso.

- Ah.

- Queria saber o seguinte: se eu encontro uma prostituta na rua, mas à paisana.

- Defina paisana.

- Ah, em horário não comercial dela. Fora do expediente de trabalho e vestida com sobretudo.

- Sei.

- E ofereço uma grana para transar com ela. Ela aceita? 

- Hummm. Pensemos. 

- Sim.

- Se eu te encontrar na rua. Você é jornalista, mas está fora do seu expediente. 

- Certo.

- E eu te pedir um texto. Você escreve?

- Depende de qual for o assunto. Depende de quem pedir, do jeito que pedir. Depende também o quanto eu vou ganhar com isso. Mas considerando que seja um assunto que eu entenda, que seja você quem peça e que me pague um valor justo, acho que escreveria, sim. 

- Eu não escreveria se você me pedisse, não importa o jeito ou a grana. Logo, acho que, se eu pedisse, a prostituta transaria. Se você pedisse, não. E pior: ela poderia te processar por assédio sexual.

- Nossa. Aí, sim, eu ia me dar mal.

- Mas, por outro lado, se você estivesse andando na rua e uma prostituta te abordasse, você poderia processá-la por assédio também.

- E se ela me pedisse um texto, eu poderia processá-la por assédio?

- Poder processar, você pode processar quem você bem entender. O duro é ganhar a causa.

- Rapaz. Estou achando que é melhor, então, eu não me envolver com prostitutas.

- É. Você só tem a perder. 

- Mas, me diga, se eu estou andando na rua e um travesti me aborda, pedindo um texto. Eu posso processá-lo por assédio?

- Olha, como eu disse, você pode processar quem você quiser. O duro é ganhar.

- Mas e se ele fosse muito insistente. Me segurasse pelo braço e não me deixasse ir até escrever?

- Mesmo assim, acho difícil. 

- E se ele estiver com a piroca para fora, enquanto pede encarecidamente o texto?

- Nesse caso, acho que aí sim, você pode processar.

- Ah, que bom. Não vejo a hora de um travesti com o pinto para fora me agarrar e exigir um texto.

- É sério isso?

- Então... eu acho que...

- Por favor, não responda. Vamos mudar de assunto. Se não, vou acabar de processando por assédio moral.



terça-feira, 2 de março de 2010

Ajudante de Ambulante

- Preciso fazer alguma coisa para me animar.

- Como?

- É que eu estava analisando minha vida.

- Lá vem...

- É sério. E reparei que sempre que vou em algum lugar, acabo de envolvendo com as pessoas mais escumalhentas do local.

- Regras da atração, sabe? Porcaria atrai porcaria.

- Sei, sei. Mas a coisa já passou do limite.

- Como assim?

- De uns tempos para cá, nem mesmo essas meninas que ficam na porta da lojas oferecendo crediário, empréstimos, cursos de inglês e de informática me chamam. Já estou um nível abaixo desse povo aí.

- Você queria fazer crediário? Tá precisando de grana ou coisa assim?

- Não. Mas percebo que, pelos olhos dessas moças, estou num grau de vida sub-necessitado. Aquele necessitado que não pode nem pagar por essas coisas.

- Ou um nível acima. Do bem sucedido. Se bem que, olhando para você, ninguém diz.

- Exatamente. E repare: sempre que estou na rua, na padaria, ou onde quer que seja, quem vem conversar comigo?

- Não são as mocinhas do crediário.

- Não são. Não mendigos, pedintes, pungistas e lelés da cuca em geral.

- E isso te incomoda.

- Não muito. Mas andaei reparando que é frequente. Se vou a casamentos, já me junto logo à turminha do funil e sou o último a ir embora. Se vou a batizados, quase não me deixam entrar na igreja, mesmo que eu seja o padrinho. Aliás, muitos amigos meus me chamaram para ser padrinhos de casamento deles porque disseram que seria a única chance de me verem bem vestido na cerimônia.

- Hahahaaha.

- Nesse carnaval, por exemplo. Fui muito humilhado.

- Você me contou. Te tiraram de traficante e outras coisas, não?

- Sim. Mas agora, remexendo na minha mente, vi que além de tudo, me prestei a um papel de ambulante.

- Como assim?

- Lembrei que no meio de um bloco, me envolvi com um vendedor de "tequila" e acabei vendendo a bebida dele para terceiros, sem qualquer pudor.

- Por que tem essas aspas na palavra tequila?

- Porque desconfio que não era tequila. Parecia conhaque com água. Mas como tava quente, já que eu estava vendendo a um sol de 40 graus, podia ser qualquer outra coisa, como metanol. Mas tequila não era.

- Você vendeu ou bebeu?

- Vendi e bebi. Comecei bebendo. Daí, resolvi vender. E ganhava comissão: a cada 3 doses vendidas, podia beber uma. Foi uma maravilha.

- E o dono da garrafa?

- Ele só ficava com a grana. Eu vendia, servia, oferecia, negociava. O rapaz só ficava com a grana.

- Cara, então acho que realmente você atingiu um nível inferior na escala profissional. Ajudante de vendedor de falsa tequila é demais, hein.

- É. Mas foi pior.

-Por que?

- Já te falei que eu estava vestido de Minnie?

- A rata?

- É. Olha as fotos.




segunda-feira, 1 de março de 2010

A Patada do Sul

- Vai vendo.

- Vou.

- Outro dia, uma amiga estava participando de um quiz. E pediu ajuda: perguntou qual era o nome do golpe de esquerda que o Rocky dava. 

- Rocky do Stallone?

- É.

- Seria "canhotinha de ouro"?

- Não seria.

- "Canhotinha de prata"?

- Nops.

- "Esquerdosa mortal garanhosamente italiana"?

- Duvido que você repita isso.

- Eu também.

- Me deixe continuar a história. Daí, eu não sabia. E encasquetei. Procurei no Google que nem um débil mental por umas quatro horas.

- Compreendo. 

- Não achei. Mas horas depois, saiu o resultado do quiz.

- E qual era a resposta? "Esquerdosa mortal garanhosamente italiana"?

- Caraca, parabéns!

- Era isso?

- Não. Mas você conseguiu repetir a mesma expressão estúpida duas vezes.

- Repeti? Achei que fosse outra.

- De qualquer forma. O nome do diabo do golpe é "patada do sul".

- Nunca ouvi falar.

- Nem eu. Mas vai vendo. Além do Google, perguntei a todos que conhecia. No MSN, no Google Talk, por telefone, SMS. Fiquei meio paranóico com isso, até descobrir.

- E não teve jeito.

- Não teve. Aparentemente, só poucas pessoas na Terra sabiam esse nome. Daí, depois que veio a resposta, e por nunca ter ouvido falar nela, resolvi beber para esquecer. Fui até um boteco com essa minha amiga e resolvemos logo enxugar as mágoas. 

- E os copos.

- Precisamente. Então, como queríamos esquecer, evitamos falar no assunto Rocky. Na verdade, não falamos sobre nenhum filme do Stallone, para evitar completamente o assunto.

- Difícil ir para o bar e não falar de Rambo III. 

- Também achei. Mas conversamos sobre amenidades, como casamento de padres, legalização do aborto e outros clichês estúpidos.

- An ran.

- Sim. Mas lá pelas tantas, não aguentei. Tive que comentar, em meia voz, até. Disse "era patada do sul!". Ela assentiu.

- E?

- E aí tinha um bêbado, desmaiado no fundo do bar. Ao ouvir "patada do sul", ele levantou rapidamente. De desmaiado na mesa, virou outra pessoa. Elétrico, ficou esperto na hora.

- E vocês não falaram mais nada? Ou algo sobre Rocky ou Stallone, antes?

- Nada. Ele ouviu somente "patada do sul" e se levantou. Disse "Rocky II" e começou a golpear o ar com a mão esquerda. Impressionante. 

- Olha aí. Quer dizer que uma das únicas pessoas do mundo que sabiam sobre a "patada do sul" era um bêbado de fundo de bar?

- Exato. E mais: desconfio que ele ficou assim porque participou de um quiz sobre o assunto. Não adivinhou e acabou exagerando na cachaça. 

- E era exatamente isso que você e sua amiga estava fazendo naquele momento, procede?

- Procede. Mas daí, depois da atuação do bêbado, pedimos dois cafés e fomos embora. Resolvemos assistir Rocky II, para saber se era "patada do sul" mesmo o apelido.

- E era mesmo?

- ...

- Era?

- Merda. Vou beber. Com licença.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Jogos de Inverno e Nicorete

- Hoje cedo tive a pior experiência da minha vida.

- Começou a acompanhar as Olimpíadas de Inverno também?

- Como?

- Porque, pior do que esses Jogos Invernais, não existe nada. Ou melhor, existe: a programação da ESPN. Toda vez que ligo lá, em vez de futebol, eles estão passando concurso de salsa ou caça à raposa, mas com um fantoche no lugar da raposa, para a coisa ficar politicamente correta. Uma desgraça.

- Não, nada disso, seu debilóide. Masquei nicorete.

- Você quer parar de fumar?

- Não. Mas um camarada meu estava com uma cartela e resolvi experimentar um. Só para tirar onda, sabe?

- E eu que sou o debilóide aqui?

- Foi a pior coisa que já meti na boca em toda a minha vida. E olha que já comi pão com açúcar e pipoca. 

- É tão ruim assim o nicorete?

- Bom, nas primeiras mastigadas, ele é ok. Até meio bom. Mas depois de uns minutos, dá um pigarro danado.

- Sei.

- Aí, logo depois, você já está com um mau hálito de fumante. 

- Hum.

- E, depois, vem a ânsia de vômito, o suador e a tontura.

- Exatamente nessa ordem?

- Não. Tudo ao mesmo tempo. Aí você acha que vai morrer e tenta cuspir o diabo do nicorete.

- E cuspindo resolve?

- Não conseguia abrir a boca para cuspí-lo. Foram mais alguns minutos de sofrimento até que consegui me desfazer do bicho. 

- Aí passou o mal estar?

- Não. Ainda foram mais uns 5, 10 ou 37 minutos de medo e delírio. Depois disso, melhorei. Mas não fiquei 100%. Até agora, ainda estou meio tonto e ouvindo um zunido estranho que vem de trás da minha cabeça.

- Ainda bem que você não quer parar de fumar, não é?

- Pois é. E mesmo se eu quisesse, já teria desistido, graças à essa experiência traumática. 

- No final das contas, o nicorete o encoraja a fumar, não o contrário. Irônico, não?

- Será que se a pessoa for viciada em nicorete, para curar o vício, fumar ajuda?

- Pelo que você relatou, se há alguém no mundo viciado em nicorete, aposto que ele não anda, fala, enxerga, ouve, sente. Só masca. E, obviamente, não deve querer se curado. Só tem um desejo.

- Qual?

- Outro nicorete. Bem nicotinadinho.

 


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Ressaca Pós-Carnaval

- Olha aí quem apareceu... depois de 10 dias sumido. 

- O carnaval foi longo, sabe?

- E dolorido, pelo jeito. Você está mancando.

- Mancando é o de menos. Olha esses roxos no meu braço. E repare nessas chagas aqui. 

- Jesus!

- É o que penso. Ou sou a reencarnação de Jesus ou apanhei tanto quanto ele nos últimos dia. 

- Mas o que você fez para estar assim?

- Pulei carnaval, ué.

- Ou caiu no carnaval? Porque pela situação do seu supercílio...

- Ah, isso? Nem doeu tanto. Acho que desmaiei antes de dar de cara nos peitos de uma senhora desconhecida, que passava pela minha frente em certo bloco. 

- O peito de uma senhora abriu seu supercílio.

- Acho que ela usava silicone industrial.

- Era uma senhora ou um travesti?

- Não sei. Acabo de dizer que desmaiei antes de dar de cara nela. Ou nele.

- Por acaso ou vocês estavam se conhecendo?

- Ao acaso. Eu estava me envolvendo com umas pessoas estranhas, vestidas de oncinha. Quando me libertei, tropecei, bambeei e quando vi que ia cair, um mecanismo de defesa interno resolveu me desmaiar. Aí, dei de cara nesses peitos mais duros que o diabo.

- Que horror. E essa tatuagem aí, é nova?

- Isso? Não é tatuagem. É sujeira. Parece que ficou tão encrustada que não consegui tirar ainda. Nem com 7 banhos. Semana passada, na quarta-feira de cinzas, estava pior, bem maior. E parecia uma imagem de Nossa Senhora. Tive até que fugir de uma multidão que achava que era uma aparição voluntária dela e que eu era uma espécie de iluminado ou coisa assim.

- Pensaram isso porque não te viram engalfinhado com oncinhas e travestis.

- Pois é. Mas isso não foi o pior. Ouvi frases bem humilhantes neste carnaval. Foi de mendigo para baixo.

- Defina "mendigo para baixo".

- Um cara que eu nunca tinha visto perguntou se eu era traficante. Outra, de pudim de cachaça. Uma terceira moça disse "vou ali me despedir das minhas amigas e você vem comigo. Mas não abre a boca, porque não quero que elas me vejam saindo daqui sabendo que estou com um bêbado." Teve também banana, boboca e vadia.

- Vadia?

- É. Teve um dia que fui para a folia vestida de Geisy Arruda.

- Meu deus! E você ainda gosta de carnaval, depois de tudo isso?

- Não muito. Mas já estou pensando em, ano que vem, sair fantasiado de Dilma Roussef.


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Não Achei um Bom Título para Isso

- Existe diabo bom?

- Não sei. Mas pobre existe. É o Pobre Diabo.

- Aí, aí.

- Mas se tiver diabo bom, deve ser o DiaBão ou DiaBom. 

- Deus!

- Você que começou.

- Não. Eu queria saber se existe diabo bom. Ou se o diabo for bom, automaticamente, ele não é mais diabo, mas santo.

- Se ele for bonzinho, duvido que seja santo. No máximo, diabo aceitável. Se o diabo for bonzinho, pode ser bem uma pessoa feia.

- Feia?

- É. Com chifres, rabo e vermelho. 

- Mas se ele for bonzinho, não perde os chifres, o rabo e a cor vermelha?

- Os chifres podem até cair, assim como o rabo. Mas a cor não muda. Você conhece alguém que nasceu negro e morreu branco, por exemplo?

- Serve o Michael Jackson?

- Não serve.

- Posso pensar mais um pouco?

- Não.

- Ah, então não conheço. 

- Viu? 

- Mas que assunto sem pé nem cabeça. Tá pior do que uma amiga minha, que não queria sair  com um cara que ficava insistindo e veio me perguntar o que dizer a ele, sem ofendê-lo.

- Virou conselheiro sentimental?

- Bom, depende de como você julgar a dica que dei a ela.

- E qual foi?

- Falei a ela que seria legal dizer a ele que ela estava saindo com outra pessoa. E tals.

- Boa saída.

- Mas ela achou fraco. Disse que "saindo" é muito pouco e o cara poderia insistir.

- E o que você aconselhou, então.

- Falei para ela falar para ele que até saíria com ele, mas era bom esperar uns dias até passar uma coceira que ela estava nas partes pudendas, provavelmente oriudas de alguma doença que ela havia pego do namorado anterior, o cabrito Bernardo.

- E ela resolveu fazer isso?

- Ela disse que não, já que não queria ficar conhecida como zoófila. E que o que se faz entre quatro paredes, não interessa e não se comenta a ninguém.

- Pô, mas ela não gostou de nenhuma das suas ideias? Eu achei todas boas.

- Ela gostou da terceira.

- Que foi?

- Dizer a ele que ela, na verdade, era homem e tinha uma pica no meio das pernas.

- Que finesse.

- Daí, o cara, automaticamente, deveria desistir.

- E se não desistisse?

- Daí ela dizia que não queria sair com viado e pronto. Resolvido. 

- Eis uma solução escabrosa, fina e definitiva.

- Esqueceu do esacabrosa.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Musiquinha dos Trapalhões ao Fundo

- Peraí, deixa ver se entendi.

- Perfeitamente.

- Você tem um amigo que ia casar.

- Ia, não. Casou sábado passado.

- E ele tem o mesmo nome que o seu.

- Isso. Nome e sobrenome.

- Ambos são homônimos completos.

- Exato. E eu fui padrinho de casamento dele. Somos muito amigos, entende?

- Então ele te deu alguns convites, para que você distribuísse para outros amigos em comum?

- Isso. Fiquei com uns dez convites e levei para um bar, no qual seria comemorado um aniversário de terceiros e que estariam esses 10 amigos em comum, mas não o noivo.

- Você os levou. Mas, constrangido em distribuir os convites no meio de pessoas não convidadas, resolveu deixá-los em um canto, escondidos. Canto do qual, mais tarde, você os distribuiria, sempre disfarçando, entre convidados?

- Isso.

- Você é uma besta, sabia?

- Sabia.

- Então você bebeu demais, se entreteve com outras coisas e acabou indo embora sem distribuir os convites?

- Sim. Mas não esqueci apenas de distribuí-los. Eu também os esqueci no bar. Completamente.

- No dia seguinte, você ligou para o bar, que informou que os convites haviam sido entregues para a última pessoa da turma a sair do recinto?

- Sim. E era uma das pessoas que não havia sido convidada. 

- Aposto que essa pessoa não ligou de não ter sido convidada, procede?

- Como você sabe?

- Porque normalmente se a pessoa não foi convidada, é porque não tinha tal intimidade com o noivo. Ou algo assim. Não conheço ninguém que tenha ficado ofendido por não ir a um casamento. Provavelmente, se a pessoa não foi convidada, ela também não convidaria a pessoa que não o convidou. E isso não ocorre por revanchismo, mas simplesmente porque não tem a ver.

- Taí um ponto. Bom, daí os convites eram, na verdade, revistas. Os noivos criaram uma espécie de anúncio em revistas e o convite ficava estampado lá dentro, em uma das páginas.

- E daí a pessoa que pegou os convites-revista não se sabia que eram convites de casamento, pegou um taxi e acabou esquecendo as revistas lá dentro?

- Sim. Mas daí liguei a ele e contei a história toda. Por sorte, a namorada dele era amiga do taxista e conseguia pegar novamente as revistas.

- Só que houve um problema, correto? Ele iria viajar aquele dia e não voltaria até depois do casório. E você precisava dos convites.

- Aí ele resolveu deixar o diabo dos convites com uma amiga da namorada dele, porque o taxista conhecia a pessoa em questão também.

- Compreendo. E depois? Eu precisei recapitular porque estava tudo muito confuso.

- Bom, ai perguntei a ele se a amiga da namorada era bonita. Se fosse, eu pensei quem chamá-la para um chope e tals e até pegar as revistas.

- Até?

- Não. Primeiro, os convites-revista. Depois, se desse, ela também.

- Compreendo.

- Daí liguei para ela, que foi muito simpática. Disse que estava com as revistas e que podia pegar quando eu quisesse.

- Entendo.

- Então, a chamei para sair. Iria aproveitar a oportunidade e estreitar o relacionamento e tudo mais. Temos amigos em comum, sacomé?

- Seicomé.

- Daí ela bateu o telefone na minha cara. Liguei novamente, ela não atendeu. Mandei SMS, nada. E não consegui pegar os convites.

- Que menina mais estranha.

- Também achei. Mas hoje meu amigo voltou de viagem. Como tenho o mesmo nome do noivo, ela achou que eu era o noivo. E, por sinal, um noivo muito safado. 

- Eita.

- Pois é. Disse para a namorada desse meu amigo algo como "que absurdo! Estou com os convites de casamento dele e ele me chama pra sair?".

- Rapaz... que saga. E agora?

- Bom, agora quero falar com ela e ver se essa história tem um final feliz.

- Final feliz?

- É.

- Pensei em um bom. Você poderia sair com ela e esquecê-la em um taxi.

- Ai, ai.

- Ou, quem sabe, se você começasse a acordar no Dia da Marmota. Sempre acordando procurando os convites.

- Ai, ai, ai.

- Ou, então, um bom final para a história seria uma grande amnésia geral assolar toda a humanidade pouco a pouco, tipo a cegueira em "Ensaio sobre a Cegueira". Só você ficaria imune e passaria o resto da vida pensando nos convites que esqueceu. Que acha?

- Já deu, né?

- Não, não. Já pensei em mais uns 32 bons finais para essa sua história bisonha. Você poderia encontrá-la e descobrir que ela, na verdade, é um pato que sabe falar e que...

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- Essa é do festival É Tudo Verdade?

- Quase. Mas essa história foi apenas redigida por mim. Orignalmente, encenada, criada e finalizada por Leandro Leal, Costela e Jef.


quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Reflexo Condicionado

- A Febem te pegou?

- Me pegou junto com a sua mãe, seu filha da puta!

- Opa. Desculpe, não sabia que não podia brincar com seu corte de cabelo.

- Ah, isso. Não, não. Não fico ofendido. É reflexo condicionado de quando eu era criança. Sempre que alguém falava "a Febem te pegou", e foram muitas vezes desde o pré-primério, eu já respondia com falta de educação. Agora, não consigo mais me controlar.

- Hummm. Isso acontece comigo também. E é algo que comecei a ter durante as aulas de biologia na oitava série. Entranto, meu reflexo é acionado quando toca uma campainha. Eu não xingo, como você. Meu reflexo condicionado me faz salivar, querendo comer um bife.

- Seu professor de biologia chamava Pavlov?

- Você também teve aula com ele? Como sabe?

- Esquece. 

- Tem outra coisa que me faz salivar também: Urso Branco, o drink.

- Que drink é esse? 

- É fácil de fazer. Só de pensar, já estou salivando.

- Como é? 

- Receita simples. Metade leite tipo C, metade qualquer vodka. Sem gelo. Servir em copo de plástico. Ou, se quiser impressionar alguma garota, nas mãos em formato de concha e jogar na boca.

- Só de pensar já estou... 

- Salivando?

- Quase. Nauseando.

- Reflexo condicionado?

- Acho que estômago fraco mesmo. 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O Telefone Tocou Novamente, I'm A Cuckoo

- A paixão mais fugaz que já tive foi por uma garota que tinha como música, no despertador do celular, I´m a Cuckoo, do Belle & Sebastian.

- Hoje de manhã, confundi o desodorante com creme de barbear e meti espuma no sovaco. Infelizmente, não percebi a tempo e, depois de colocar e lambuzar a camiseta, ainda joguei desodorante na cara. Como uso daqueles bem vagabundos, do naipe de Avanço, ainda fiquei com o rosto ardendo e vermelho por horas. Parecia que eu estava com rubéola.

- Já fiz isso. E o pior: fiz quando eu estava, realmente, com rubéola. A coisa fica muito pior. É muita idiotice.

- Por falar em idiotice, fale mais sobre essa sua paixão fugaz.

- Pois então, é isso. Conheci a garota nem lembro onde. Não me interessei muito mas acabou que fomos parar nem sei bem onde. Aí, de manhã, acordei com I´m a Cuckoo, do Belle & Sebastian, tocando. Achei uma coisa muito perspicaz e fofa ao mesmo tempo. Cuckoo, despertador, essas coisas. E a música é fofinha, boa para acordar. 

- Acho que a paixão mais fugaz que tive foi certa feita quando me apaixonei pelo andar da Ivone.

- Como assim?

- Era uma moça que trabalhava comigo. Nem era bonita e nem parecia muito uma moça. Mas tinha um modo de andar sublime. Andava como se flutuasse no ar e exalasse lavanda ao mesmo tempo. Ela cheirava não muito bem, mas quando andava, era lavanda para cá e almíscar para lá. Uma beleza. Pena que, por motivos óbvios, não deu certo.

- Que motivos óbvios?

- Bom, eu me apaixonei pelo andar dela, não por ela. Quando saíamos, eu sempre queria ir fazer cooper ou caminhadas em geral, porque queria vê-la andando. Como ela queria ir ao cinema, teatro, bares e ficar sentada, o encanto acabou rápido. Fora que levei quase dois meses para conseguir convencê-la a sair comigo.

- Ela era irredutível?

- Não. É que sempre que eu a chamava para conversar, ela parava de andar pelos corredores. Aí, eu perdia o tesão. Só consegui chamá-la para sair enquanto estávamos em um cortejo fúnebre, de um colega em comum. A distância entre o velório e o jazigo era tão longa que deu tempo de me apresentar direito, chamá-la para sair, combinar o lugar e tudo mais.

- Rapaz, ainda bem que esse colega não era obeso. Coitado dos carregadores.

- Quem disse que não era?

- Xiii.

- Mas voltando ao negócio do Belle & Sebastian, porque foi fugaz?

- Durou exatamente o tempo da música, coisa de três minutos e pouco.

- Mas você não havia passado a noite com ela?

- Havia. Mas não havia me apaixonado. Só que, quando tocou I´m a Cuckoo, aí sim achei demais e me apaixonei.

- E por que passou tão rápido?

- Bom, aí resolvi fuçar mais no celular para descobrir qual seria o toque de chamada.

- Sei.

- Descobri que era O Telefone Tocou Novamente, do Jorge Ben ou do Jorge Ben Jor, sempre me confundo.

- E isso te broxou?

- Pelo contrário. Fiquei mais empolgado. Percebi que ela era toda temática com relação ao celular. Resolvi ir além e, já que ela estava no banho, fuçar mais um pouco no telefone e descobrir o toque de mensagem recebida.

- E qual era?

- Message in a bottle, Police.

- Realmente, temática.

- Temática e perspicaz. E a paixão aumentando. Aí, como era um smartphone desses bem modernos, resolvi procurar por qual seria a música que indicava a chegada de um novo e-mail.

- E qual era?

- Não era música. Era aquele antigamente irritante, mas hoje até que divertido, “You´ve got a mail” da AOL. Bacana, né?

- Muito.

- E aí, o que aconteceu que você desanimou?

- Bom, daí eu estava lá com o telefone na mão quando a bruaca saiu do banheiro.

- Era feia? Foi isso, então?

- Nada. Quem vê cara não vê coração. Além do que, logo mais estaremos todos bem velhos e beleza vai ser a última coisa que conta. Não queria desperdiçar a chance de ficar com uma garota tão interessante, celularísticamente falando, por conta de um rosto feio.

- Entendo.

- Bom, aí ela saiu do banheiro e logo quando eu ia elogiar os gostos telefônicos dela, ela disse algo como ‘por que você está fuçando no telefone do meu namorado?’. Então ela me explicou que havia perdido o dela e, como o namorado estava viajando, havia deixado o celular com ela.

- E você sabia que ela namorava?

- Com aquela cara, tinha certeza que não. E isso foi o segundo ponto que me desanimou. O primeiro, obviamente, foi perceber que eu estava apaixonado por um homem que estava viajando. E o pior: que ele já tinha namorada.

- E a ironia da coisa toda era que você nem tinha como pedir o telefone dele, já que o celular já estava na sua mão.

- Pois é. Mas não ia pedir mesmo. Acho que já estou muito velho para mudar meus hábitos sexuais. Mas que ele é um partidão, isso é. 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Sobre Freiras, Meninos e Lobos

- Você tem sorte de isso aqui não ser um convento e eu não ser a madre superiora. Se não, você seria punido agora. 

- Você iria me por para ajoelhar no milho ou coisa assim?

- Não sei o que faria, já que não sou a madre superiora. Mas se eu fosse, saberia direitinho o que fazer. E você, meu caro, ia sofrer de um jeito que eu nunca imaginei. 

- E você nunca imaginou porque não é a madre superiora, correto?

- Correto. 

- E você não é a madre superiora porque isso aqui não é um convento, correto? 

- Correto.

- Porque, obviamente, se isso convento fosse, a madre superiora você seria. Não é?

- É, Mestre Yoda.

- Mas porque mesmo eu seria punido? Acho que você não me explicou o que fiz para merecer tal castigo não pensado.

- Não sei. Não sou a madre superiora. Mas se fosse, eu saberia porque te puniria. E você saberia porque estaria apanhando.

- Mas se isso aqui fosse um convento, você fosse a madre superiora, eu não seria eu, correto? Eu seria uma freira, por exemplo.

- Sim, é fato. Você seria uma freira. Bem feia, é fato, mas ainda assim uma freira.

- E o que eu, como freira, poderia fazer para sofrer tamanho castigo?

- Isso aí é você quem vai me dizer. Eu seria a madre superiora, não uma adivinha. 

- Se eu esquecesse o Pai Nosso na metade, seria castigada?

- Não sei. Não sou a porra da madre superiora, já disse.

- Ah, mas agora eu queria saber porque eu sofreria. Se eu gaguejasse na Ave Maria, será que seria castigada?

- Não sei, já disse. 

- E se eu aparecesse de hábito tipo mini-saia?

- Bom, aí não precisa ser madre superiora para saber que você seria castigado. Freira drag queen já é demais.

- Ufa. Agora já sei o que não fazer, caso eu vire freira algum dia. 

- Ta satisfeito? Podemos terminar a conversa?

- Quase. Que tipo de castigo eu teria, caso pintasse de drag queen religiosa? 

- Acho que te mandava tomar banho para tirar a maquiagem. Depois, te dava um hábito bem grande, para cobrir suas pernas. Aí, te fazia rezar uns 10 Pais Nossos e umas 12 Ave Marias ajoelhado no milho. E pronto.

- Rapaz. Para quem não sabia como agir como madre superiora, até que você já tem todo o esquema de punição na cabeça, hein. Respondeu de bate-pronto e tudo mais.

- É. Por isso que eu digo, uma pena que isso aqui não é um convento e eu não sou a madre superiora. 


segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Era Uma Vez...

- Vamos brincar de “Era uma vez”?

- Cuma?

- A internet caiu, não tenho como trabalhar. Pensei em inventar uma brincadeira, enquanto ela não volta.

- E como funciona isso?

- É assim: eu começo uma história, você continua. Daí, você pára em algum ponto. Eu continuo e assim vamos, até a gente cansar ou a internet voltar para podermos voltar a trabalhar.

- Hummmm. Tá bom. Começa.

- Era uma vez uma garota chamada Adriana. Adriana não tinha o dedo mindinho do pé esquerdo. Um dia, ela saiu de casa e, distraidamente, topou com o pé em uma pedra.

- ...

- Continua, pô.

- Ah, tá. Aí veio a terceira guerra mundial. Pegou todo mundo de surpresa. O mundo explodiu e todo mundo morreu. Não sobrou nada, nem uma poeirinha cósmica para iniciar outro mundo.

- Se você não queria brincar, era só avisar. Não precisava criar uma história de catástrofe só para se livrar da brincadeira.

- Ué, mas você pode continuar a história.

- Como, se não sobrou nadica de nada?

- Só ter imaginação.

- Então continue.

- Bom, daí o mundo acabou e não sobrou nada. Mas Deus não gostou do que viu. Com uns dois gestos e sua varinha mágica de condão, recriou o mundo tal qual o conhecemos hoje. Com exceção do Jô Soares, que ele considerou um erro e decidiu não recriá-lo. Esse mundo, inclusive, tinha a Adriana, que não tinha o dedo mindinho do pé esquerdo. 

- Aí certo dia, Adriana saiu de casa, rumo à escola, e deu com o pé esquerdo em uma pedra. Ficou com ele todo dolorido. Muito mesmo. Seria uma dor mortal, se doesse um pouco mais. Mas como ela não tinha o dedo mindinho, não morreu de dor. Se tivesse, já estaria morta. Nunca um defeito físico foi tão bom.

- Aí Deus teve um infarto fulminante e foi pro vinagre. Veio a terceira guerra mundial e não sobrou nada. E, dessa vez, nem tinha Deus para recriar tudo. Acabou o mundo, o universo e tudo mais. Não sobrou nada, nada, nada.

- Cacete, como é que eu vou continuar isso agora?

- Imaginação, meu caro.

- Então continua.

- Aí Deus misteriosamente ressuscitou e recriou novamente o mundo. Igual como o conhecemos hoje. A diferença é que, além de não ter criado Jô Soares, aproveitou para emudecer o Diogo Mainardi e deu um dedo mindinho à Adriana, que saiu de casa, topou em uma pedra e morreu de dor. 

- Ah, agora quem não quer mais brincar sou eu. Você matou a pobre Adriana.

- Eu? Eu? Eu nada. Deus, meu chapa.

- Mas mesmo assim, eu queria contar a história da Adriana sem dedinho. 

- Você pode ressuscitá-la.

- Ah, não. Não quero contar a história de uma morta-viva. Muito bizarro para mim.

- Mas nessa história até Deus é morto-vivo, por que a Adriana não seria?

- Porque ela era pura e inocente. Não via maldade em nada. Era vegetariana e tudo mais. Não faz sentido ela ser tudo isso e mais morta-viva.

- Mas ela pode ser uma morta-viva limpinha, que não come miolos e nem manca e se arrasta e grunhe. Ela pode ser normal, com a dieferença que já foi para o além vida e voltou.

- Quando a pessoa vai dessa pra uma melhor e volta, volta toda zuada. Não é possível ir e voltar melhor do que era quando viva.

- Como não? Mire no exemplo de Deus da nossa história. Ele morreu, voltou e quando reconstruiu o mundo, emudeceu o Diogo Mainardi. Isso é ou não uma melhora no caráter do todo-poderoso-morto-vivo?

- É. Mas ele não é uma pessoa, e sim uma divindade. Pessoas não voltam melhores. Divindidades voltam.

- Então cria uma condição especial para a Adriana. Vamos supor que ela fosse mãe-de-santo. Mãe-de-santo é divindade?

- Não sei dizer.

- Supondo que sim. Então ela morreria e voltaria melhor. Pronto, pode continuar a história.

- A Adriana vai ser uma mãe-de-santo morta-viva vegetariana, com um dedinho colocado às pressas no pé, que vai topar com uma pedra no meio da rua?

- É.

- É o fim do mundo!

- De novo? Nosso mundo já acabou três vezes. Assim não dá.

- Não, não. Eu estava reclamando da condição da Adriana e não terminando com o mundo. Se bem que, como a internet voltou, temos que acabar a história. Como termina?

- Que tal acabarmos com o mundo, com Deus, com tudo o que existe?

- Pode ser.

- Tá. Então a Adriana andava pela rua quando aconteceu uma grande explosão intergalática, que dizimou a vida de todos os seres do mundo. Até mesmo Deus, novamente, foi para o quiabo. Acabou-se o mundo e somente sobrou...

- Um violinista surdo, seu violino e uma pedra, na qual ele sentava. Sobre ela, tocou pela eternidade uma ridícula e irritante canção de ninar. Mas como ele era surdo, não se importou. Como não havia ninguém para ouvir, não houve reclamações. Fim. 


quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Seria Isto Uma Linhagem de Repetição?

- Como se define um monumento?

- Como assim?

- O que diabos é um monumento?

- Luma de Oliveira, Viviane Araújo e quase todas as rainhas de bateria do carnaval, com exceção da Geisy.

- Não no sentido figurado. No sentido literal da coisa, porra.

- Aliás, já que você tocou no assunto, uma coisa que me irrita é quem usa o termo "literalmente" errado.

- Eu toquei?

- É. Você falou "sentido literal". Boa parte das pessoas usa o termo "literalmente" para dar ênfase a algo e não para se referir a algo que aconteceu de verdade, no sentido literal da palavra. Já reparou?

- Já, sim. Me dá um pouco de vergonha quando ouço alguém dizer "ele literalmente deu com os burros n´água" ou "ele literalmente ficou com a cara no chão" quando, na verdade, a pessoa quer dizer que o sujeito em questão se deu mal, muito mal, ou sem graça, muito sem graça.

- Eu fico puto com isso. Literalmente puto.

- Hahaha. Olha aí, usou errado.

- Não usei, não. 

- Quer dizer que... Éca!

- Tá. Não falemos sobre minha vida dupla. Explique o que você quer saber sobre monumentos.

- Preciso fazer uma relação de 50 monumentos ao redor do mundo. Achei uns três ou quatro e empaquei. Mesmo porque eu não sei bem o que é um monumento.

- É fácil. Monumento é um troço grande, que não tem qualquer serventia a não ser olhar e ser alvo de fotos de turistas orientais.

- Hummm. Como você entende do assunto. 

- Opa.

- O Arco do Triunfo, em París, é um monumento, então, certo?

- Certo. 

- O Big Ben, na Inglaterra, também?

- Não, não. É um relógio gigante. Não configura monumento.

- E o Cristo Redentor?

- Também não. Serve para o Didi se pendurar de vez em quando. Ou para um paraquedistas pularem de cima para aparecer no Caldeirão do Huck. Logo, é uma maquete da Globo.

- Xi. Então minha lista só tem um monumento. Você tem algum aí de cabeça, para eu anotar?

- O Borba Gato, em Santo Amaro.

- Que beleza. Vou anotar. E a Estátua da Liberdade, é monumento?

- Hummm. Tem alguma serventia além de base para fotos?

- As pessoas podem subir nela. 

- Ah, então é uma escada gigante. Deveria até mudar o nome para Escada da Liberdade. Não configura monumento.

- Nossa, como é difícil achar monumento. 

- Pra você, claro. Eu já pensei em mais vários.

- Quais?

- Os Moais, na Ilha de Páscoa. A Lua, no Céu. E a Luma de Oliveira, na Passarela do Samba.

- Até a Luma só serve para foto?

- Serve para muitas outras coisas. Mas no meu mundo e no seu, só em foto mesmo. E da Contigo. 

- É... uma pena. De qualquer forma, concordo. Que ela é um monumento, isso é.

- Literalmente!


quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Uma Ode ao Nani

- Como foi de ano novo?

- Até o ano novo, tudo bem. O problema veio depois.

- Vai me dizer que você também lamenta a morte do grande Eramos Dias e acha que deveria ser feita, além de uma canonização imediata, uma estátua dele dentro da PUC? 

- Não. O problema é outro.

- Seu comunistinha pilantra.

- Como? 

- Nada. Meu problema no ano novo foi escolha minha. No dia primeiro resolvi parar de fumar. Deus todo poderoso, como é difícil! Como eu planejava parar, fumei até quase morrer no dia 31. Aí dia primeiro até que foi tudo bem. No segundo, comecei a ficar irritado e com palpitações. Aí apelei para o nicorete.

- Ledo engano.

- Pois é. Nicorete na boca e lamber um cinzeiro cheio de filtro de Hollywwod é quase a mesma coisa.

- Eu sei.

- Aí, comecei a colocar cada vez mais nicorete, para ver se a vontade de fumar passava. Passou quando eu estava na ambulância, sendo levado ao pronto socorro.

- Pelo menos, passou.

- Passou, mas a que custo. De qualquer forma, logo depois de reanimado, voltou a vontade. Aí fiz de tudo para ver se passava. Tudo mesmo. Corri, gritei, entre outras coisas. Quando estava passando sangue de bode pelo corpo, a polícia me deteve.

- Hahahaha.

- Mas assim que souberam que eu estava tentando parar de fumar, me soltaram e deram até um segundo bode, de brinde, para eu sacrificar. Agora, no sexto dia, a vontade está pior do que nunca. Outra coisa que me falaram é que estou mais mal humorado, mas não notei ainda. Aparentemente, solto frases grosseiras sem perceber, no meio de uma conversa normal. Deve ser efeito colateral da falta de nicotina.

- Como o que?

- Com a porra da sua mãe, seu filha da puta!

- Caraca! Você está mesmo ficando agressivo sem perceber.

- Ah, não. Esse foi só um exemplo do que eu ando falando sem notar. Eu percebi que havia dito aquilo. Normalmente, pelo que me falaram, agrido verbalmente quando estou distraído, pensando em fumar.

- E você pensa muito em fumar?

- Não tanto. Agora, por exemplo, não sai da minha cabeça uma deliciosa sopa de nicotina, com diversas bitucas de Marlboro vermelho, boiando nela. Nham, Nham.

- Credo!

- Seu fresco com cara de melão!

- Essa foi sem querer?

- O "cara de melão" foi. Desculpe.

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Texto 90% baseado nos últimos 6 dias do Nani.

domingo, 27 de dezembro de 2009

O Caso Sean Deveria Ser Resolvido no Ratinho

- E aí, como foi o Natal?

- O Natal em si, foi ok. Já os traslados, um tanto estranhos.

- Resuma.

- Bom, peguei o ônibus rumo ao Paraná na Barra Funda. Foi quando descobri que a Barra Funda é mesmo muito, muito funda. 

- Por quê?

- Cheguei cedo para esperar o ônibus e sentei no chão, com minha mochila ao lado. Aí, à minha frente, uns dois metros, notei uma moça até que bem feia que ia começar a comer uma coxinha.

- Sei.

- Entrei em uma espécie de transe hipnótico a observando. Só despertei porque uma freira com uma costeleta enorme, que bem poderia ser confundida com o Elvis disfarçado de religiosa, tropeçou na minha cabeça.

- Devo dizer "que sorte" ou "que azar"?

- Sorte. Porque quando acordei, vi que se passara uma hora e estava quase no momento de pegar o busão.

- Rapaz, a irmã Presley te salvou.

- Sim. E mais: quando olhei para a frente, a mulher ainda estava na METADE da coxinha. Vai comer devagar assim no inferno.

- Não blasfema. A irmã Presley não ia curtir. Te daria uma bica na cabeça com sapato de camurça azul se ouvisse você falando isso. 

- Na volta da viagem, a coisa foi um pouco mais estranha. O ônibus quebrou duas vezes, conheci um declamador fanático que sentou uma cadeira atrás da minha e, ao meu lado, veio uma caixa lacrada com silvertape. Às vezes, o que quer que houvesse lá dentro rosnava.

- Credo.

- E quando rosnava, saía uma aguinha debaixo da caixa. Acho que era baba do que quer que estivesse rosnando lá dentro.

- Deus! E não dava para trocar de lugar?

- O único lugar disponível no ônibus todo era ao lado do declamador fanático. Preferi pegar hidrofobia daquilo que estava rosnando e babando dentro da caixa do que ouvir, por 12 horas, como o tal declamador era bom em fazer dobraduras com canudos plásticos.

- Ele falava isso?

- Ele falava sobre tudo. Mas olha que interessante: na segunda vez que o ônibus quebrou, estávamos pertinho, a uns 30 minutos, da rodoviária. O motorista conseguiu estacionar na frente de um batalhão de polícia, na marginal Tietê. 

- Sei. 

- Aí, todos descemos e esperamos o busão reserva. Mas uma loira que estava com mais pressa, ligou para o namorado buscá-la. Chega o namorado para pegá-la em um carro sem placa. Pronto, a poícia foi lá averiguar o cidadão. 

- Que sinuca!

- Aí checa documentos, revista o caboclo. Em resumo: o cara que ia dar carona para a namorada teve o carro apreedido e teve que esperar o ônibus reserva, como todo mundo, para ir embora.

- Hahaha. Que ironia.

- Sabe o que é pior?

- O que?

- Já te falei que o único lugar vazio no ônibus era do lado do declamador fanático? Então, adivinha onde o coitado do carro apreendido teve que sentar...

- Rapaz... e eu perdendo tudo isso, somente acompanhando o caso Sean Goldman.

- Ah, eu só acompanhei por 2 minutos, depois do desfecho. Uma pena, já que eu queria mais informações sobre o assunto. Gosto muito de casos envolvendo barracos de família.

- Eu também. Acho que a TV ficou mais pobre depois que o programa do Ratinho parou de fazer os testes de DNA.

- "E SE FOR TEU? E SE FOR TEU? TESTE DE DNA PRA SABER SE O FILHO É TEU". Essa música era sublime.

- Para mim, o melhor de todos os barracos é o caso Elian. Depois, o do menino Pedrinho. Esse do Sean fica em terceiro. 

- Mas na minha cabeça, tinha um jeito de revolver o problema rapidamente. É simples: duas famílias de países diferentes querem a custódia da criança? Então vai para o país melhor. No caso Sean, tá na cara que devia ir mesmo para os Estados Unidos.

- Hummm.

- Agora, se o pai fosse boliviano ou peruano, daí o Sean deveria ficar no Brasil. Simples assim. 

- E se o pai fosse mexicano e a família, brasileira?

- Aí, apelamos para a sabedoria de Salomão e dividiríamos a criança em questão. Azar dela se os dois países são tão semelhantes. 

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Colaborou, voluntaria e anonimamente, com medo de processos, LS.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Camisa do Flamengo, dias 5,6 e 7

- Finalmente apareceu sem a camisa do Flamengo, hein. Aguentou uma semana certinho, parabéns.

- Obrigado.

- Aliás, eu, se fosse você, ainda a usaria mais um dia. Só de farra.

- Pensei nisso. Mas a Dalva não deixou. 

- Quem é Dalva?

- A mulher que limpa minha casa e lava minhas roupas faz uns 10 anos. No meio da semana passada, depois de me ver sair uns 3 dias com a camisa do Flamengo, ela me ameaçou. Disse que se me visse saindo de casa mais um dia com aquela camisa, ia arrancar à força.

- E essa Dalva tem força para isso?

- Olha, o braço dela dá minha coxa esquerda. Eu já a vi fazendo faxina. Levanta um sofá inteiro com o braço que é o dobro da minha coxa.

- Você disse que era do tamanho, não o dobro.

- Um deles é do tamanho. O outro, o dobro. Ela tem dois, sabe?

- Sei.

- Além do que, uma vez ela deu um cacete no marido que havia acabado de sair da cadeia. Depois de resistir um pouco, achei por bem tirar a camisa antes que eu apanhasse.

- Ela desceu a lenha em um presidiário?

- Ex-presidiário. Mas que antes de tudo era marido dela e se ela não tem direito em bater no próprio marido, quem teria?

- É. Taí um ponto. 

- Então, daí eu sei que ele ficou preso por umas barbaridades que fez. Foi solto e a primeira coisa que fez foi ir para casa. A Dalva deu tanta frigideirada nele que a primeira noite fora da cadeia ele passou na UTI.

- Então fez bem deixar a camisa em casa. Mas como você passou por ela nesses quatro dias restantes?

- Depois do terceiro dia, quando ela me deu esse choque de gestão, eu passei a planejar a fuga direitinho. Quando ela estava distraída lavando roupa ou no banheiro, eu passava correndo pela sala, disparava portão a fora e só parava na esquina.

- O que fazia você suar mais na camisa, claro.

- Sim. Mas é melhor suar do que sangrar nela. O que, aliás, acabou acontecendo em determinado momento do final de semana.

- Ah, é? Ontem a camisa estava nojenta, mas eu estava evitando falar com você porque estava prendendo a respiração. O que aconteceu sexta, sábado e domingo?

- Como te falei, me meti no churrasco da firrrrrma. Depois tentei emendar um show na própria sexta. Não consegui chegar ao show, mas sim ao Carrefour, onde quase acabei com o estoque de cerveja. De lá, casa. De casa, sábado, confraternização de almoço.

- É muita confraternização, não?

- Sim. O pior é que nessa hora, minha calça, que eu só havia usado no dia anterior, estava mais suja que a camisa do Flamengo. Bom, dessa confraternização, outro churrasco. Daí a gente toma um negócio aqui, esbarra na churrasqueira ali, resolve comer carne crua sangrando, e quando vê, a vaca foi para o brejo.

- Isso quer dizer exatamente o quê?

- Que quando acordei no domingo, achei que houvesse um animal morto na minha cama. E errei por pouco: tinha um animal, mas vivo. De dentro da camisa do Flamengo, jogada no chão, saiu um pombo assim que a peguei para vestir. 

- Credo.

- Daí não tive alternativa a não ser vesti-la e sair pela casa à procura do meu celular, da minha carteira e da minha dignidade.

- Sei.

- Achei quase tudo. A dignidade faltou. Deve ter ficado em algum lugar entre sexta-feira, o Brooklin e minha casa. Me movi o mínimo possível no domingo, porque eu estava passando mal e a camisa, cheirando mal. Até que lembrei o lance de tomar banho com a camisa e aproveitar para lavá-la.

- Pelo que vi ontem, não deu bem certo.

- Deu mais ou menos. No domingo à noite, lavei muito bem. Tirei para dormir e, na segunda, ela estava até ok. O problema foi na segunda de manhã.

- O que rolou?

- Bom, acordei e fiquei à espreita da Dalva. Quando achei que ela tivesse entrado no banheiro, corri para o portão. Só que eu calculei mal e ela estava na cozinha. 

- Mamãe!

- Quando eu passei pela porta da cozinha, ela me viu. Não falou nada. Pegou uma frigideira embaixo da pia e se pôs em meu encalço. 

- Compreendo.

- Corri para salvar minha vida. Já estava cagando e andando para a aposta. Então, tirei a camisa, joguei para trás e continuei correndo. Quando virei, vi que a Dalva não estava mais atrás de mim.

- Não?

- Não. Ela parou na altura em que a camisa estava jogada na rua e sambava sobre ela. 

- Que estranho. Ela não queria lavar? E estava sujando mais?

- Quem sou eu para perguntar. Sei que fiquei da esquina vendo tudo. Ela sambou bem em cima daquele trapo rubro-negro. Depois, deu umas figideiradas no pano e voltou para casa. Eu não queria vir trabalhar sem camisa e também não tinha coragem de entrar em casa e pegar outra roupa. Só me restou vir com a camisa pelo sétimo dia. 

- E mesmo assim, hoje, você queria vir com ela?

- Isso. Achei que, de farra, seria uma boa. Mas a Dalva me pegou antes de eu passar pela cozinha. Como eu estava com essa outra camisa por baixo, entreguei a do Flamengo para a Dalva e vim trabalhar.

- Mas, peraí, agora que estou reparando, essa camisa está meio resgada também.

- É que eu não quis entregar a do Flamengo sem luta. Daí sobrou até para essa coitada aqui.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Vem aqui, Fafi