quinta-feira, 30 de julho de 2009

Na BR 116, Quase em Registro

- Vai pra onde, dona?

- Como "pra onde", garoto? Nem precisa ligar o carro, já que você já tá no acostamento mesmo. O programa custa R$ 20.

- Eita, como assim?

- Ué. Eu sou puta de beira de estrada.

- Achei que nunca fosse ouvir uma frase dessas pessoalmente. Aliás, tirando os filmes do cinema nacional, achei que nunca fosse ouvir essa frase em lugar nenhum.

- Como?

- Nada. Nada. É que eu estava passando, vi você estender a mão e achei que queria carona. Como estou faz mais de 5 horas dirigindo sozinho e estranhamente meu CD player quebrou na primeira hora de viagem e está tocando Fly by Night há tempos, achei que seria bom dar carona para alguém para me distrair.

- Se quer se distrair, são R$ 20.

- Mas eu não quero transar. Aliás, a senhora não está um pouco sambada para ser puta?

- Ué. Você dirige mal para a porra e está aí, querendo "dar carona".

- Como você sabe que eu dirijo mal? Ainda nem dei partida no carro.

- Eu vi quando você entrou na reta. Você cortou um caminhão, quase bateu em uma Fiorino e quase te acertaram a traseira quando embicou para "me dar carona".

- É que eu estava tentando desligar a porcaria do CD ou tirar o disco. 

- Fly by Night é de matar mesmo, não?

- A senhora conhece Rush?

- Olha aí, já está puxando assunto. Você quer uma puta ou uma analista?

- Eu não quero nem um nem outro. Só queria dar uma carona e me distrair. Mas se...

- Para se distrair, custa R$ 20. Mas eu vou avisando que, comigo, só com camisinha.

- Olha, esquece. Desce do carro que eu vou embora com o maldito Rush tocando Fly by Night.

- Para onde você vai?

- São Paulo.

- Vai passar pela Lapa?

- Não sei. Não é muito meu caminho.

- Bom, porque já que estou aqui mesmo e o meu expediente está acabando, você poderia me levar lá, até a Lapa. Eu aproveitaria para visitar minha irmã, que não vejo há anos.

- É meio fora de mão. Mas eu te levo, sim. Custa R$ 20.

- R$ 20? 

- É. Mas te deixo na porta da sua irmã.

- Certo. Mas olha, hoje o dia foi difícil e eu não peguei um só cliente. Você não quer transar? Daí você me dá R$ 20 e eu te devolvo esses mesmo R$ 20 quando você me deixar na Lapa.

- Minha senhora, já disse mil vezes que não quero transar. Só queria companhia.

- Só pela companhia, cobro R$ 10. Mas se eu tiver que falar muito daqui até lá, aí sai por R$ 25.

- Olha, eu te pago R$ 40, se você conseguir tirar esse CD daí de dentro. E ainda te levo até a Lapa, na casa da sua irmã.

- Tudo bem, eu aceito. Toca o carro. Aposto que até a gente chegar em Registro, já tirei o CD.

- R$ 40.

- Como?

- Aposto R$ 40 que você não tira o CD até Registro.

- Peraí que a conta está complicando. Se eu tirar até Registro, ganho R$ 40. E se eu tirar até a Lapa, ganho mais R$ 40? 

- Não. Se tirar até Registro ganha R$ 40. Se não tirar, me deve R$ 40. Se tirar só na Lapa, ganha R$ 40. O que dá zero a zero, já que perdeu a grana em Registro. No final das contas, se não tirar, leva R$ 10. Mas isso se falar pouco. E como estou percebendo que a senhora fala mais do que a nega do doce, vai ser R$ 25, no mínimo. Mas como...

- Tá, tá, já basta. Não entendi bem, mas está combinado. Tem certeza de que não quer se divertir?

- Certeza. Agora coloca o cinto que vou dar a partida e entrar na estrada com tudo.

- Só transo com camisinha, viu!

- Mas eu já disse que...

- Eu sei, eu sei. Desculpe. Foi puro reflexo. Sempre que eu ouço alguém dizer "entrar com tudo", respondo que tem que ser com camisinha.

- É mesmo?

- É.

- Vou entrar com tudo.

- Só transo com camisinha, viu?

- Vou entrar com tudo.

- Só transo com camisinha, viu?

- Vou entrar com tudo.

- Só transo com camisinha, viu?

- Hahahahaha.

- ...

- Vou entrar com tudo.

- Só transo com camisinha, viu?

- Vou entrar com tudo.

- Só transo com camisinha, viu?

- Agora perdeu a graça. Põe o cinto.

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