quinta-feira, 12 de maio de 2011

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Banhos Públicos em Lugares Nada Privados

- Por que você tá de capacete?

- Ah, ganhei de uma mendiga. Peraí que vou tirar.

- O quê?

- Ganhei de uma mendiga. Peraí que vou tirar?

- Tira o capacete, que não entendo nada do que você tá falando.

- Peraí, vou tirar.

- O quê?

- Pronto. 

- Argh. Sua cara tá preta.

- Sério? Acabei de tomar banho.

- É. Parece carvão. 

- Preciso ver no espelho.

- Pega esse. Olha.

- De onde você tirou esse espelho tão rápido?

- Não importa. Olha.

- Eita!

- Viu?

- Hummm. Já sei. Deve ter sido a mendiga que me deu esse capacete. A gente acabou de tomar banho junto. 

- Eu vou só recapitular, para ver se entendi e se não perdi minha sanidade. Você tomou um banho com uma mendiga, banho esse que te deixou mais sujo, e ela te deu um capacete, para você vir trabalhar?

- Do jeito que você coloca, parece maluquice. 

- Existe um jeito de isso não parecer maluquice?

- Olha, eu estava vindo para cá. Sempre passo em uma praça que foi tomada por uns sem-tetos. Quando passo por lá, até afrouxo o passo, porque gosto de me misturar, sabe?

- Sei.

- Bom, aí num dos cantos dessa praça, que dá de frente para a Via Anchieta, tinha uma mulher se banhando, mas tipo aqueles banhos de gato. Ela pegava uma esponja e passava no rosto e coisa assim. Com o sol matutino batendo nela, que estava com um belo vestido esfarrapado e amarelo, e os carros passando em alta velocidade ao fundo, me emocionei. 

- E fez o quê? Puxou um papel de pão e escreveu uma poesia?

- Quase. Eu sorri. 

- E aí?

- E aí que ela sorriu de volta. E acabou de convidando para seu banho.

- E você aceitou?

- Tenho uma política: nunca recusar tomar banho com uma mulher. Nunca neguei esse tipo de convite.

- Já te aconteceu muito?

- Primeira vez. Mas não quis perder a chance.

- Tá, e aí você se banhou?

- Sim, estilo banho de gato. Ela pegou uma esponja e passou no meu rosto. Depois, fumamos um cigarro. Ela perguntou se tinha sido bom para mim, eu disse que sim e pronto, vim embora.

- E o capacete?

- Ah. Então, quando eu estava saindo, ela me chamou de volta.

- Para?

- Disse que meu cabelo tava todo zuado, por causa do banho. Perguntou se queria que ela secasse ou penteasse.

- E ela não fez uma coisa nem outra?

- Mais ou menos. Pedi para ela fazer tudo o que eu tinha direito: secar e pentear. Aí ela começou a baforar uns restos de fumaça de Hollywood vermelho no meu cabelo. 

- Tá. 

- Aí quando terminou, disse que infelizmente tava sem pente. Mas tinha um negócio que me deixaria mais bonito. E me deu esse capacete. Legal, né?

- Lindo. Mas olha, ela só sujou sua cara. Se fosse você, iria ali no banheiro e dava uma esfregada.

- Vou manter. Já já volto para casa e vai que no caminho a encontro de novo. 

- Você acha que ela ia se ofender se te visse limpo?

- Pelo contrário. Mas se eu me limpar, vai que perco a oportunidade de tomar outro banho com ela.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Vamos Falar de Supino

- Tem um amigo meu que tem uma teoria sobre a Dona Canô.

- Que ela não é a mãe biológica de Caetano e Bethânia? Compartilho com a opinião.

- Como é?

- Tá na cara que ela não é a mãe deles. Foi adoção ou chocadeira.

- Olha, ele nunca falou sobre isso. A tese dele é que para qualquer assunto mundial, quando a imprensa não tem a recorrer ou mesmo quando tem, dá uma entrevistada na Dona Canô. 

- Sabe que tem ele tem certa razão.

- Pois é. Pensei nisso hoje, quando a vi comentando o casamento real.

- Por falar em casamento real, agora que já foi, é só esperar o divórcio surreal e partir para o abraço.

- Como é que é? 

- Agora é aguardar o divórcio surreal e partir para o abraço.

- Tipo um frango depenado fazendo o desquite?

- Isso. Ao mesmo tempo em que o príncipe canta Touradas em Madri de sunga e a até então princesa, caminhando no teto e petecando um dente canino com a perna esquerda, recita "Fogo na bomba". De trás para a frente. 

- Com muita pompa e glamour, groselha é servida para os convidados, todos muito semelhantes aos Curly, dos 3 Patetas.

- Na hora de dizer "aceito a separação", o princípe sopra uma língua de sogra e se dá por feliz.

- No momento em que se tem de assinar os papéis, a até então princesa, vestida com um macacão que ganhou na promoção "Visite Perus com o Molejão", tira uma BIC quatro cores do bolso mas a tinta verde acabou e ela não consegue escrever.

- Aí há muito corre-corre, muito diz-que-me-disse, intervenção da turma do deixa disso, ação pessoal dos panos quentes, e, na confusão, em vez de assinar o divórcio, ela escreve uma receita de pudim de pão.

- E acaba a cerimônia. Ambos continuam casados, mas agora com um contrato de pudim de pão de gaveta. Daqui para a frente, o primeiro que pedir desquite será obrigado a comer o doce mais esúpido inventado pela humanidade.

- Fios de ovos?

- Não, pudim de pão. 

- E os fios de ovos?

- A princesa guardou a receita, para quando eles forem fazer a adoção surral.

- Não seria surreal?

- Não, surral mesmo. A criança vai apanhar para porra. Chute, soco, tapa, dedo no olho.

- Nossa, esse casal é brabo, né?

- Realcionários, praticamente.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Ai, que nojo!

- Quase fui atropelado, agorinha agorinha, por um senhor com um bigodinho de Hitler.

- Por que será que as pessoas falam "bigodinho de Hitler" e não "bigodinho de Charles Chaplin" ou "bigodinho de Carlitos"?

- Será que o mundo prefere um estadista que tornou potência um país arrasado pela guerra a um cidadão que ficou imortalizado como vagabundo?

- Eita, seu nazista!

- Epa, epa. Chamou de nazista, perdeu.

- Mas você tá defendendo Hitler.

- Eu só estou ponderando algo em cima de uma pergunta estúpida sua.

- Poderia ponderar dizendo "ah, o mundo é nazista".

- Taxar o mundo de nazista não seria um ato nazista e, portanto, o mesmo que dizer que as pessoas preferem um estadista que tirou da lama um país arrasado pela guerra a um caboclo que ficou imortalizado como vagabundo?

- Repete, que me perdi.

- Débil mental.

- Nazista!

- Falando em nazismo, eu sempre achei que era bom em biologia na escola. Mas com essa onda de coleta seletiva, tenho dúvidas.

- ...

- ....

- ...

- Diz aí o que o nazismo tem a ver com biologia e com coleta seletiva.

- Ah, é tudo matéria escolar.

- Onde você estudou? No colégio Dom Menguele de la Vega Sopave?

- Como?

- Esquece. Fala do nazismo biológico da coleta seletiva.

- Eu sempre achei que soubesse o que é papel, o que é plástico, o que é metal, o que é orgânico. Mas agora, toda vez que chego nas lixeiras, fico uns 10 minutos decidindo o que é o que.

- Tem muito papel plastificado hoje em dia. Te entendo. Mas eu uso uma fórmula simples para resolver essa dúvida. Nunca fico mais de 2 segundo na frente dos lixos de coleta.

- Faz o que? Como bom nazista taca tudo no chão?

- De novo esse papo?

- Desculpe. O que você faz?

- Ah, na dúvida, dou uma catarrada no que tiver a mão e jogo no lixo orgânico. Cuspe é orgânico, não? Aí ele contamina tudo e tudo vira orgânico.

- Credo, que recurso mais vagabundo. E nazista.

- De novo?

- Ah, mas é. Pô, cuspir nas coisa para tudo virar orgânico é triste. Muito vagabundo, você. E nazista.

- Vagabundo e nazista?

- É.

- Tá me dizendo que Hitler e Chaplin se orgulhariam de mim?

- Não. Estou dizendo que você é porco, nazista e vagabundo.

- Gostei. Vou deixar o bigode.

- De Hitler ou de Chaplin?

- Ah, tá zuando.

- Ariano? Nazista.

- Porra, velha surda! Chega desse papo.

- Gestapo?

- Chega! Na moral...

- Eva Braun?

- Não importa o que eu fale, você vai rimar com algo do nazismo?

- Nazismo?

- É, nazismo.

- Nazismo?

- É, porra. Nazismo.

- Ah... droga. Agora que você assumiu, perdeu a graça.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Hitler Transsexual Descasca Batata

- Deve ter algum motivo para você estar usando uma blusa de moletom, uma bermuda, meias e chinelo havaianas. Só não consigo imagina qual, além de você estar completamente senil.

- Estou confortável.

- E pelo conforto, você resolveu sair à rua vestido como um mongol?

- Eu estou tão, mas tão, mas tão confortável que eu não queria ser eu, mas um conhecido de um amigo meu, só para poder olhar para meu amigo perto de mim e sentir inveja por estar por perto e ser amigo de alguém que é amigo de alguém tão, mas tão, mas tão confortável.

- É, o motivo é senilidade.

- Pense o que quiser. Mas estou me sentindo um sofá-cama, tão confortável estou.

- Falando em sofá-cama, faz dois dias que sonho com você.

- Quer contar resumidamente?

- Resumidamente?

- É. Odeio ouvir sonho. Mas já que é comigo e se você resumir muito, talvez eu preste atenção. Se se alongar, pego no sono. Além de me entediar com sonho alheio, hoje estou tão confortável que qualquer coisa é motivo para eu tirar um cochilo.

- Bom, em resumo, a gente estava numa festa e só.

- Ah, batata. Joga no avestruz.

- Esse é o significado do sonho?

- É. E o segundo sonho, como foi?

- Sonhei que eu sonhava com um avestruz. Aí eu acordava do segundo sonho, ia até a banca do jogo do bicho e apostava em você. Dizia "Sérgio da cabeça".

- E ganhava?

- Sei lá. Acordei antes de sair o resultado. Mas isso foi bom.

- Por quê?

- Porque de repente virou um pesadelo. O apontador do bicho era o Hitler vestido de mulher. E enquanto ele me atendia, descascava uma batata.

- Não consigo imaginar isso.

- Tirei uma foto. Ó:





- Credo! Você tirou uma foto do seu sonho?

- Sim. Foi um dia que contratei uns fotógrafos para retratarem meus sonhos e eu dormindo. Mas aí fiquei tão ansioso que acabei confundindo meu travesseiro com um bolo. Foi uma lambança só.

- Tem foto disso também?

- Tenho, ó:



- Credo!

- Achou feio eu dormir sobre um bolo?

- Não. É que você dorme sem camisa. Qualquer um que entenda de conforto sabe que o ideal é usar um moletom, um samba calção e meias.

- E o chinelo e a bermuda?

- Ah, isso é só para vir para o trabalho ou para ocasiões mais especiais, como batizados e visitas a canis.

- E em formaturas?

- Deixo a costeleta. E vamo que vamo.

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(fotos encontradas pela @vannmarques.)

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Edson Celulari, Dedé Santana, Essas Coisas

- É muita bichice ter vontade de abraçar outro homem?

- Bichisse é com c ou com dois ésses?

- Gíria vale qualquer grafia. E então, é ou não muita bichisscçe ter vontade de abraçar outro homem?

- Olha, se for o Edson Celulari o outro homem, não é. não. Afinal, quem resiste a ele?

- E se não for ele?

- Se for um cara bem parecido com ele, tipo o Dedé Santana, aí também não é. Afinal, dá para confundir fácil.

- Falando em confusão, outro dia me senti fora do meu próprio corpo.

- Como assim?

- Estava caminhando tranquilamente pelas alamedas de São Caetano quando vi uma casa para vender. 

- E se viu lá dentro, dando tchauzinho para você mesmo?

- Quase. Na placa de "vende-se" estava anotado o meu número de celular.

- Nossa! E aí, você ligou?

- Não tenho muito saco de conversar comigo mesmo. Aliás, quem fala sozinho é louco. 

- Pô, mas não ficou curioso? Não coçou ligou para ver o que era?

- Então, eu até pensei nisso, mas estava sem crédito.

- Rapaz... então torço para que você venda logo a casa. Aí pode colocar uns créditos no celular.

- Não vou pensar a respeito da sua frase. Acho que se eu tentar entendê-la, ficarei louco. Ou "sairei fora do meu próprio corpo". Ou entrarei em um episódio do "Além da Imaginação".

- Sabe quando eu me sinto assim? Toda vez que eu entro no metrô Armênia.

- Como é?

- Toda vez que eu entro no Metrô Armênia, senta ao meu lado uma pessoa com uma guia da Amil rasurada.

- Toda vez?

- Toda. Não sei mais o que fazer. Até penso em descer uma estação antes da Armênia, pegar um taxi até uma depois e usar o metrô novamente. 

- Te incomoda tanto assim uma pessoa com uma guia da Amil ao seu lado?

- A guia em si, não. A pessoa, também não. Mas já vi cada rasura cabeluda. Mamãe!

quarta-feira, 23 de março de 2011

Navegar é Preciso, Roubar não é Preciso

- Quem era esse?

- Esse quem?

- Esse cara que você ficou conversando por uns dez minutos. Que acabou de sair daqui e que tava com uma meia calça na cabeça e que tinha uma tatuagem dizendo "tudo o que aprendi foi no xilindró" no braço direito.

- Ah, é um camarada meu.

- Para você ver como são as coisas. Na hora em que ele veio em nossa direção, achei que ia ser assalto. Mas aí ele ficou falando com você sobre Fernando Pessoa e Alberto Caeiro e tive que refazer todos meus conceitos. Afinal, quem diabos é esse cidadão?

- O conheci outro dia, no ponto de ônibus. Ele veio me assaltar e a gente ficou conversando.

- Você ficou amigo do ladrão?

- Mais ou menos. Ele queria levar minha mochila. Mas justamente nesse dia, eu estava com meu notebook e, nele, mais de duas semanas de trabalho. Se fosse pelo notebook, só, poderia levar. Mas sabe que eu odeio refação, né?

- Sei.

- Aí tive que pensar rápido, para que ele não levasse. Aí inventei uma história qualquer.

- Não foi um "pelamordedeus, tem duas semanas de trabalho aí. Odeio refação!"?

- Não. Achei que não ia colar e que ele não ia se sensibilizar.

- Certo. E então?

- Então, eu disse a ele que não poderia ceder a mochila porque nela estavam os restos mortais de meu pai, Alberto Caeiro. E que eu os estava levando para jogar no mar, onde ele sempre quis ser jogado.

- Você sabe que Alberto Caeiro era um heterônimo do Fernando Pessoa, certo?

- Eu sei. Mas na hora não lembrei. Achei que tivesse inventado um nome qualquer. Queria só sensibilizar o ladrão.

- E?

- E ele disse que, nesse caso, não iria levar.

- Ele acreditou que seu pai estava na mochila?

- Ele se disse grande fã de Fernando Pessoa e que, por isso, respeitaria que eu levasse os restos mortais do heterônimo dele onde ele havia pedido.

- Como é?

- Então, pelo que percebi, conversando mais a fundo, é que ele realmente é fã do Fernando Pessoa. Mas que não tem a menor ideia do que seja um heterônimo. Graças a isso, me safei.

- Você encontrou um ladrão culto e burro?

- Acho que sim. Mesmo porque quando nos despedimos, ele ainda mandou um "manda um abraço para o Ricardo Reis e dá uns pescotapa no Alvaro de Campos, hein!".

- Será que ele não confundiu o Fernando Pessoa poeta com o Fernando Pessoa puxador de carro do Taboão?

- Acho que não. Mesmo porque, como você viu, ele recita várias coisas do Pessoa e do Caeiro, a quem ele se refere, desde então, como "meu finado pai".

- Você não vai esclarecer a situação.

- Estou quase fazendo isso. Mesmo porque, agora, sempre que ele me encontra, vem falar da porra do Fernando Pessoa. Não aguento mais. Acho que não vale um notebook. E eu já fiz o back up das duas semanas de trabalho, de qualquer forma.

- Cara, mas você ia acabar com um sonho. Ele acha que conhece o filho do Caeiro, o qual nem existe.

- Pensei em dar um dicionário a ele também. Aproveitaria e grifaria o termo heterônimo. Quando ele chegasse no agá, descobriria sozinho e eu não acabaria com nada. Só o induziria à informação.

- Bruto.

- Não é você que tem que aguentar ligações às 3 da manhã com um meliante dizendo que navegar é preciso, viver não é preciso.

- Vocês trocaram celular?

- Mais ou menos. Como ele não queria sair de mãos abanando, levou o meu. Viu meu telefone de casa e fica me ligando no fixo.

- Que história bonita.

- Agora melhorou, pelo menos. No começo, ele ligava e desligava. Depois, começou a respirar no telefone. Agora, pelo menos, fala umas poesias do Pessoa. É menos pior do que antes, mas é chato. Ainda mais de madrugada.

- E ele nunca te perguntou o que você fez com os restos mortais do seu pai?

- Perguntou. Disse que tinha jogado na Billings.

- Ué, e a Billings agora virou mar?

- Ele nem sabe que o é heterônimo, você lá acha que ele sabe a diferença entre mar e represa?

- Pelo jeito não sabe.

- Não sabe. Aliás, não sabe nada. Outro dia fiquei meia hora no telefone explicando a ele o que é papel almaço.

- Ele não sabe o que é almaço?

- Sabe nada. Acho que a única coisa que ele sabe é a poesia do Pessoa. E olhe lá.

terça-feira, 22 de março de 2011

Fogo na Bomba ou Algo do Tipo

- Que mundo é esse em que as pessoas roubam aparelhos de medir pressão à luz do dia?

- Como?

- Acabo de ver uma mulher que roubou um aparelho de medir pressão.

- Olha, essa é uma dúvida que sempre tive. Como chama isso?

- Crime.

- Não, não o roubo. O aparelho de medir pressão. Qual é o nome disso?

- Eu chamo de aparelho de medir pressão. E acho que todo mundo chama de aparelho de medir pressão. Mas você pode chamar do que quiser. Caneta, panela, sabonete, vesícula. Ele não vai atender mesmo. 

- Ô, idiota, queria saber se tem algum termo técnico para ele.

- Tem. É "aparelho de medir pressão".

- Já vi que empacamos nessa conversa. 

- Por falar em empacar, outro dia vi uma vaca móvel solta no meio da Anchieta. Que perigo, não?

- O que é uma vaca móvel?

- É um bicho que muge e dá leite. 

- Eu sei o que é uma vaca. Não entendi o móvel. 

- Ah, é móvel porque ela estava andando de um lado para o outro na Anchieta. 

- Não podia simplesmente falar vaca?

- Poderia. Mas aí pairaria no ar a dúvida se ela era móvel ou estática. Quis ser específico, não gosto de discursos dúbios.

- Mas gosta de discursos débeis.

- Não vem com ofensa. Eu já estou todo assustado e você me vem com desdém...

- Assustado por...

- Porque vi uma mulher que roubou um aparelho de pressão à luz do dia. 

- Como foi isso?

- Estava vindo para cá e cruzei com uma mulher com o aparelho de pressão preso no braço. Ela andava calmamente. Achei que ela ou alguma enfermeira tivesse esquecido de tirar e fui avisar.

- E ela?

- Ela disse "ah, não foi esquecimento. Eu roubei ali daquela clínica. Como não cabia na bolsa, resolvi colocar no braço e sair assobiando".

- Que ladra! 

- E era uma ladra móvel. Andava apressada como ninguém.

- Ela andava com pressa? Ou com pressão?

- Ai, ai. Vou ali tomar um copo d´água para me acalmar.

- Nervoso por conta do roubo?

- Não, essas suas piadinhas que me tiram do sério.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Crack, Uma Epifania. Ou Epidemia, Como Queiram.

- Mas que porra é essa?

- Ah, minha sobrancelha? Passei na frente de um cabeleireiro, vi que estava rolando uma promoção de aparar a sobrancelha por R$ 3 e investi. Gostou?

- Não, não. Isso aí, que porra é essa?

- O que?

- Por que diabos você está todo sujo, enrolado em um cobertor imundo, com chinelo de dedo e uma... uma.. isso é uma tanga frouxa, quase caindo?

- Ah, isso? Quis vim trabalhar fantasiado de viciado em crack. Curtiu?

- Mano... isso não tem graça.

- Também acho. Depois da terceira pedra, perdeu o sentido mesmo.

- Você veio para cá fumando?

- Só no começo. Depois ficou difícil fumar, segurar a bermuda, controlar o cobertor imundo e ainda fugir da polícia. Aí, parei de fumar.

- Por que, em nome de Deus, você resolveu vir fantasiado de viciado em crack?

- Carnaval, ué.

- Olha, o carnaval acabou há, pelo menos, uma semana.

- Sério?

- Bom, na Bahia ainda deve estar rolando. Mas aqui já acabou.

- Então estou atrasado. De qualquer forma, fico até que feliz que acabou.

- Por que? Agora já pode tomar banho e se livrar do cobertor?

- Não posso me livrar do cobertor, afinal, como te disse, foi muito difícil segurar a bermuda. E essa tanga tá frouxa.

- Então por que você dá graças a Deus de ter acabado do carnaval?

- Já tinha planejado a fantasia de amanhã. Ia ser doída.

- Pior que essa? Vinha de que?

- Mário Gomes.

- Nossa, ia precisar fumar muito crack para aguentar.

- Provavelmente, ia precisar fumar um viciado em crack. Ou comer uma pasta de crackelina.

- Comer?

- Na melhor das hipóteses.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O Estranho Caso das Palavras Voadoras e Outros Contos

- Eu sempre fui mau nas aulas de física. 

- Você cortava o cabelo das meninas, grudava chiclete na cadeira do professor ou costumava cagar na lancheira?

- Não. Eu tirava notas baixas mesmo. Por quê?

- Então o correto é mal, com éle. 

- Como você sabe que eu falei mau com u, se eu estou falando?

- Seu sotaque.

- Eu não tenho sotaque.

- Ok, confesso. Eu tenho um super poder. Em vez de ouvir as pessoas, eu vejo as palavras saindo da boca delas. Leio e entendo.

- Você lê os lábios?

- Não. Eu vejo as palavras voando. É um troço muito louco.

- E quando você bebe ou quando sai sem óculos de casa?

- Quando eu bebo muito, aperto os olhos e enxergo. Quando eu saio sem óculo de casa, não tem problema.

- Por quê? São letrões gigantes, à prova de problemas de visão? 

- Não. Porque eu não uso óculos.

- Ah. Mas e se alguém fala pelas suas costas, você não ouve?

- Normalmente, ouço. Ou melhor, leio. Porque a letras aparecem flutuando à minha frente. Como disse, é um troço muito louco. 

- E quando você era criança e analfabeta, como fazia? 

- Primeiro, me fiz de louco. Depois, de surdo. Por fim, mímicas. 

- Deve ter sido difícil para você. 

- Nem tanto. A pior parte é desviar das letras. Quando elas avançam na minha direção, tenho que desviar, para não levar um A ou um C na testa. Dói. Já reparou que sempre que tem alguém falando eu fico me mexendo?

- Já, mas pensei que fosse formiga no cu. 

- Não, é esse problema aí.

- Rapaz... não sabia que pelas leis da física isso era possível. 

- O que só comprova que você é mesmo muito ruim de física.

- Sim. Era isso que ia falar no começo. Que eu sempre fui muito mau nas aulas de física. 

- Mal. Fala direito. Isso fere meus olhos.

- Tá. Mau.

- Mal.

- Ai meu Deus, não consigo. 

- Usa outra palavra. Usa péssimo. 

- Mas não era tão mau assim.

- Tá, mas só pra efeito de desenvolver a conversa.

- Tá. Eu era péçimo em física.

- Argh.

- O quê?

- Você falou péssimo com cedilha.

- Cério?

- Ai meu Deus. Fecha a boca, por favor.

- O que foi agora?

- Sério com c.

- Esse foi de propósito.

- Como assim?

- Era só pra ver se essa história toda era verdadeira.

- E você acha que eu ia inventar algo assim tão estupidamente estranho?

- Nunca se sabo.

- Sabo?

- É. Errei de propósito a grafia.

- Mas trocar e por o não é muito comum. Até se eu tivesse a audição normal, pegaria o erro. Foi um teste?

- Ah, não. É que além de física, sempre fui muito mau em português também. Escrito e falado.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O Bom e Velho Trote da Telerj

- Fiz um negócio bisonho. Peguei todas as músicas que estão sem nome no meu computador, puxei para o celular e tenho ouvido sem saber o que vai vir. 

- Sei.

- Só hoje, ouvi de Barry White a Jorge Ben, passando por Gil, The Pogues, o Trote da Telerj e uns gemidos de gente transando. 

- "Aqui é Eliseu Drummond".

- "Grandes merda que tu é adevogado".

- Haha. Mas, peraí, você gravou você transando em MP3?

- Rapaz, não transo desde antes de inventarem o toca-fitas. Não sei quem é que tá transando, mas é bem rapidinho. Dura uns 4 segundos. Deve ser coisa de gente com disfunção sexual.

- E não pode ser você?

- Faz tanto tempo que nem lembro. Mas acho que não. Quando eu transava demorava muito mais do que queria. E muito, muito mais do que a pobre diaba queria também. 

- Imagino. Conversar com você já é um sofrimento. Imagino transar.

- Pois é. Falando nisso, tava pensando em um trio musical muito bom. 

- Lá vem.

- Pensei em um power trio com Cassia Eller, Fernanda Keller e Helen Keller.

- Ah, não.

- Sim, sim. Chamaria Keller inGüiça. Que acha?

- Não, não.

- Pô, seria legal. A Cássia Eller seria a percussionista. E a Fernanda Keller, maratonista.

- Pára, por favor.

- E a Hellen Keller poderia ficar com o surdo, manja?

- Não, não, não.

- E o trio poderia ser agenciado pelo Mi Eller.

- Chega, por favor. Tô quase preferindo transar com você.

- Porra, se vai começar com ameaça, então eu paro. 

- Graças a Deus.

- Mas que elas poderiam posar para a revista Ele e Eller, poderiam.

- Olha que eu tiro a camisa.

- Tá, parei. Vou ouvir de novo o Trote da Teller-rj.






terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O Menino na Gengiva Verde

- Malandro... acabo de tirar um pedaço de couve do tamanho de um ornitorrinco do meu dente.

- Eu acho que não ouvi bem. Pode repetir?

- Acabo de tirar um pedaço de couve do tamanho de um ornitorrinco do meu dente. Tava preso entre meu canino e meu pré-molar.

- Por que você está me falando isso?

- Porque acabei de tirar. Se eu ainda estivesse com a couve presa no dente, dificilmente estaria conseguindo falar. Não percebeu que fiquei a tarde toda em silêncio?

- Você tava com essa couve presa aí desde a hora do almoço?

- Pior que não sei que hora ela entrou na minha boca. Almocei só um pastel. Não comi couve hoje.

- Comeu ontem?

- Também não. Acho que foi no meio da tarde.

- Como assim?

- Acho que eu tava distraído, bocejando no meio da tarde, quando a couve entrou sorrateiramente e se enfurnou entre meu canino e meu pré-molar.

- Couve anda?

- Não sei se anda. Mas que voa, voa. Não tenho outra explicação para ela ter vindo parar aqui.

- A única explicação é que ela entrou voando?

- Isso.

- Já pensou que você pode ter comido couve no final de semana. Aí, uma sementinha dela ficou presa na sua gengiva. Você foi bebendo água e, sem querer, aguando a bichinha. aí, hoje, ela floresceu. Pode ser isso, não?

- Pode. Mas como ela cresceu rápido. Precisaria de adubo, para tanto.

- E as merdas que você fala?

- Opa, opa, opa. Alto lá. Se vai ofender, depois vai ter que aguentar.

- O quê?

- A tréplica.

- Que seria?

- Humm.

- Como?

- Humm. Humm. Humm.

- Ficou mudo?

- Hummm.

- Apareceu outra couve?

- Humm.

- Hahaha. É, e dessa vez nenhuma passou voando. Acho que sua gengiva tá criando couve mesmo. E adubando que é uma beleza.


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Tem Horas para Dar?

- Tive um problema muito sério vindo para cá hoje.

- Que foi?

- Queria saber as horas, porque esqueci meu celular em casa. E vim com essa dúvida na cabeça até aqui.

- Por que não parou alguém na rua e perguntou?

- Pensei nisso. Mas só cruzei com mulheres e com homens penteados. Aí preferi não arriscar.

- Eu sei que lá vem demência, mas explica isso melhor.

- Eu evito parar mulheres na rua. Elas podem achar que ou vou passar uma cantada ou que vou assaltar. E quero evitar confusão. 

- São mesmo coisas bem semelhantes assaltar ou cantar alguém. Eu mesmo já me confundi várias vezes. Na última, de início, achei que a mina ia levar minha grana. Quando vi, estava atracado com ela num canto qualquer, trocando intimidades. Pior: quando terminamos de nos portar como dois animais, ela bateu minha carteira mesmo, se portando como uma gatuna. E ela estava longe de ser gata, ironicamente. 

- Sério isso?

- Não. É que não entendo como você, parando alguém na rua e perguntando "que horas são?", pode levar a pessoa a achar que é assalto ou paquera.

- Nem eu. Mas já aconteceu comigo. Quase fui parar na delegacia certa feita.

- Como você costuma perguntar as horas? Pára a pessoa, tira do bolso uma meia-calça, coloca na cabeça e diz "passa as horas"? 

- Não.

- Ou pára a pessoa, pergunta "teria horas, coraçãozinho?" e dá uma piscadela sexy?

- Não.

- Então me explica como te confundem.

- Sei lá. Da última vez, a mina achou que eu ia assaltá-la e assediá-la. Tudo porque, percebi mais tarde, eu estava sem camisa, com a braguilha da calça aberta e sem cuecas.

- Você sai assim na rua?

- Só quando eu estou desesperado para saber que horas são. Aí saio de qualquer jeito, como ocorreu nessa última vez. 

- E os relógios da sua casa? 

- O que têm?

- Não estavam funcionando nesse dia?

- Eu estava tão desesperado para saber que horas eram que até esqueci-me deles. Saí correndo à rua como estava, seminu, para descobrir o horário. Mais ou menos como aconteceu hoje. 

- Mas hoje, por sorte, você estava vindo trabalhar. E, portanto, estava vestido e de cuecas.

- Pois é. Mas quis evitar a confusão e não parei nenhuma moça. Vai que eu estivesse sem camisa e sem cueca.

- Você não sabia como estava?

- Quando quero saber que horas são, fico um pouco avoado e distraído, sabe?

- Você falou ali em cima que também cruzou com vários homens pelo caminho. Mesmo assim não quis perguntar?

- Eu não disse homens. Eu disse homens penteados.

- Sei. E não quis perguntar para homens penteados por quê?

- Você confia em homem que se penteia antes de sair de casa? 

- Hummm.

- Nem eu. Preferi vir na ignorância a ser enganado por esses verdadeiros sacripantas. 

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Toqu (is not) inho

- Minha playlist deve ser uma das mais bizarras da humanidade. Hoje vim para cá ouvindo, na sequência, Everything but the girl, Exaltasamba, Toquinho, Scissor Sisters, Andrew Bird, Hot Hot Heat e, quando estava entrando no prédio, começou a tocar Barry White.

- Que coincidência você falar isso. No meu caminho para cá, eu sempre vejo estacionado um Fiesta roxo. E ele sempre está com aquela portinhola de colocar gasolina aberta. Eu sei que o carro não está abandonado, porque na volta ele não está lá. Bom, hoje resolvi tomar uma providência.

- Que foi?

- Bom, resolvi fechar a portinhola.

- E aí?

- E aí, fui pego com a boca na botija. Apareceu o dono do Fiesta e me passou um pito. 

- Como assim?

- Ele saiu de uma forma, a qual fica na frente do carro estacionado e disse "a rá! Te peguei! Então é você que fica roubando meu combustível!".

- E você?

- Bom, esperei ele terminar o arroubo de raiva. Contou que há dias tenta pegar o pilantra. E que hoje tinha conseguido e etc e tal.

- E?

- E aí expliquei que não estava roubando nada. Que só queria fechar a portinhola, porque aquilo irritava meu TOC.

- E ele acreditou? 

- No início, não. Mas aí o argui que, se eu era mesmo o ladrão, onde eu teria escondido a gasolina? Já que eu estava só com uma mochila e mais nada.

- Aí ele acreditou?

- De início, não. Achou que eu podia muito bem ter bebido a gasosa.

- E como você resolveu isso?

- Falei que daria uma baforada na cara dele, para ver se ele sentia algum cheiro de gasolina ou qualquer outro combustível. Mas ele não topou.

- Compreensível.

- Aí ele propôs que eu acendesse um fósforo e engolisse. Se eu não explodisse, ele me liberaria, entendendo que eu era mesmo um bom samaritano e que só queria fechar a portinhola.

- Você topou?

- Topei. Não gostei da ideia no início, mas depois ele falou em "bom samaritano" e me sensibilizou. Sempre quis ser um "bom samaritano". 

- Sei.

- Bom, aí engoli o fósforo. Obviamente não explodi e ele me liberou.

- Você comeu um fósforo aceso? 

- Comi. No começo, dá uma queimação no estômago. Mas depois, nada mais. 

- Ai, ai. E o que isso tem a ver com a história da minha playlist?

- Ah, é que você falou Barry White. E antes deste incidente acontecer, eu estava ouvindo Barry White no MP3 player também. 

- Que coincidência.

- E mais: estava até pensando em montar uma banda cover dele, chamada Barry is not White. Que acha? 

- Acho que você quer ser processado.

- Mas as versões seriam estilo rap ou black music. Assim o nome da banda teria motivo de ser.

- Então acho legal. Você poderia aproveitar e fundar outra banda, chamada Marvin is not Gay e só fazer versões bem másculas dos sons dele.

- Másculas como?

- Sei lá, algo estilo Village People. Ou poderia tentar formar um power trio com a Cher e a Barbra Streisand.

- Isso não faz o menor sentido.

- Outra banda cover legal seria Chico is not da vila Buarque. Ela faria versões só jabaquarenses das músicas.

- O que são versões jabaquarenses? Sei lá. Nem sei onde fica a Vila Buarque.

- Outra boa seria a Ram (is not) Ones, com músicas do Ramones tocadas por uma Big Band de umas 400 pessoas. 

- Seria melhor uma orquestra logo. 

- Mas será que o povo de orquestra consegue tocar só três acordes?

- Não. Aí quem consegue são os Scream ins not Trees.

- Mas esse Tress é de árvore, não de três.

- Ah, nem vem se screamiando que será à trioas.

- Você sabe que isso não faz sentido, né?

- Sei.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Tem um jacaré domindo no meu Corcel II

- Por que você tá mancando?

- Você não vai acreditar, mas um jacaré me mordeu hoje de manhã.

- Que crocodilagem, hein?

- Ai, ai, vai rindo.

- Tá, mas fala a verdade, o que aconteceu?

- Um jacaré me mordeu.

- O bicho?

- É.

- Ah, tá. E como isso?

- Eu tava distraído. Quando vi, nhac. Mordeu.

- É? Mas seu pé tá inteiro. Como ele não arrancou fora?

- Ou não tava com tanta fome, ou só me mordeu pra provocar, sei lá. Você acha que eu deveria perguntar se ele queria o pé todo?

- Devia. Porque sua história está tão fantástica que, na certa, esse jacaré fala. Ou melhor, não te responderia nada, porque é um jacaré educado que não fala com a boca cheia.

- Ele não parecia educado. Mordeu meu pé.

- Você vai ter que me provar, muito bem provado, que um jacaré mordeu seu pé. Primeiro porque não tem jacaré em São Bernardo. Segundo, se mordesse, arrancaria seu pé fora. Terceiro: você teria que estar muito distraído para um jacaré se aproximar sorrateiramente e nhac, te morder sem você perceber.

- Ele estava escondido atrás de um Passat, lá na rua. Quando eu passei pelo carro, ele saiu e nhac.

- Ah, então foi de caso pensado?

- Ou foi caso pensado ou ele tava tentando arrombar o Passat, como não conseguiu, desistiu e, muito bravo, se vingou no primeiro pedestre que passou.

- Isso não tá colando. Vai ter que fazer muito mais para que eu acredite.

- Bom, eu tirei uma foto do bicho me mordendo.

- Como?

- Na hora que ele estava avançando, eu peguei meu celular e pimba. Fotografei. Se eu te mostrar a foto, você acredita?

- Olha, em tempos de Photoshop, é meio difícil. Mas se tiver a foto no celular, acredito.

- Nada, tá em papel.

- Já revelou?

- Aproveitei que a Fotótica tá com preço bom.

- Tá, deixa eu ver.

- Aqui.



- Peraí. Você tava descalço vindo para cá? O jacaré te lambeu antes de te morder? E, por último: cara, preciso dizer que isso é um desenho? E mal feito ainda?

- Espero que um dia um jacaré de coma! Vou ficar de longe, rindo e desenha... ou melhor, fotografando tudo.


sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Uma Tarde com Valderrama

- Olha isso: Valderrama returns.

- Onde?

- Aqui. 



-  Valderrama sempre agrega. Pelo vídeo, ele tava com tanta fome de bola que comeria uma colômbia pascal inteira. Hein? Hein? 

- Era tanto tesão pra jogar que, se aparecesse uma colombina, ficaria pequeno pra ela também.

- Ah, sem dúvida. Ia, o Val, derramá todo seu charme sobre ela.

- Não sei por que, mas lembrei-me agora de um velho amigo meu, dos tempos de meninice. Eram dois amigos na verdade. Um no bairro de Ramos, outro no bairro de Olaria. Os dois, vejam vocês que coincidência, chamavam-se Val. O de Olaria era até um bom sujeito. Mas legal mesmo, amigo para todas as horas, era o Val de Ramos.

- Duro é quando ele cismava de passar aquele troço na cara. Era um horror o Val de rímel.

- Você não está confundindo com o Valder, que é meio bichona? Ele sim passa rímel. O Valder ama maquiagem.

- Confundi mesmo. Mas com outro cara meio bicha, um que gosta de ir para cima e para baixo galopando em animais exótico para todo lado. Não lembro o nome, mas sei que ele valdelhama para cima e para baixo que é uma beleza.

- Pô! Falando em galope, eu nem te contei! O Val de Olaria foi galopar um mangalarga outro dia na fazenda do tio dele, mas levou um tombo, foi pro hospital, tá todo quebrado, não pode nem se levantar. É muito triste ver o Val de cama.

- Ah, sim. E um toque pra você. Você vai casar aí e tudo mais, vai ter que montar a casa... Cuidado com uma coisa. Tem gente por aí empurrando uma caneca oval de café. Não compra essa não, que é enganação. Caneca é assim: se você usa oval, derrama o café todo.

- Boa dica. Vou comprar outro modelo. Tipo aquela caneca de muito bom gosto que vende na Oktober, com uma teta (tipo essa: http://www.leiloes.net/-CANECA-MAMA,name,150998619,auction_id,auction_details). Eu val de mama, então.

- Ótima ideia. Mas, se for importar a caneca de peitoca por navio, lembre-se de importar pelo porto de Rama. Certeza que chega no prazo. É bastante confiável a indústria naval de Rama.

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*agradecimento ao Juliano, que colocou o vídeo na roda, o que gerou essa montanha de trocadilhos entre mim, Costela, @daniellrezende.

*em 2009, o Valderrama também já tinha gerado outra onda de bobiça, mas no UOL Tecnologia: http://tecnologia.uol.com.br/dicas/ultnot/2009/05/26/ult2665u391.jhtm.



sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A Origem, Versão 2x1

- Tive um sonho horroroso com você essa noite.

- Desenvolva.

- Só de alembrar, me arrupio tudo.

- Aconte logo.

- Tá. Eu sonhei que estava associando fotos aos contatos do celular.

- Que sonho cibernético.

- É. Eu tenho esses sonhos, às vezes. Certa feita, sonhei que o Clodovil me pagava com um cheque pré-datado. E o banco do cheque não era banco, era a Seicho-no-ye. Pior que eu ia descontar e não tinha fundos.

- Também... cheque de igreja. Só faltava você receber um cheque do banco Praça é Nossa e achar que tem fundo.

- Pois é. Tenho muito sonho estranho. Daí, voltando ao meu sonho contigo, eu estava organizando os contatos no celular. E tinha contato de telefone, tinham contas de email, amigos do Facebook, do Orkut, tudo misturado.

- Sei.

- Aí, quando eu fui associar sua foto aos seus dados, fiz uma bobagem e associei seu número de celular às contas - fotos, email, Gtalk, Orkut - de uma tal de "Simplísmente Sheiloca Princesa".

- Sei.

- Aí, toda vez que o telefone tocava e era você, aparecia a foto da Simplísmente Sheiloca Princesa, abraçada com uma zebrinha de pelúcia, no visor do meu telefone.

- É isso é pesadelo?

- Você pergunta porque não viu o naipe dela.

- Ruim?

- Era, mas a zebra era pior. Aí, eu mexia, mexia, mexia e não conseguia resolver. Aí a saída que achei foi pegar seu celular e jogar fora, para você parar de me ligar. Pensei em te matar também, mas achei muito grave. Pensei em jogar fora meu celular, mas não queria me prejudicar, mesmo porque fiquei mais da metade do sonho acertado os contatos. Aí não tive saída a não ser jogar seu telefone fora.

- Aí isso resolveu seu problema?

- Não sei. Porque na hora em que eu estava fatiando seu celular com um cutelo afiado como o diabo, acordei.

- Eu sabia que você ia me contar toda essa história antes mesmo de você me contar.

- Como?

- Simples. Eu li esse texto antes de você publicar.

- Mas se não tava publicado, você ainda não havia interagido. E, sendo assim, você não poderia ter lido. Ou poderia?

- Poderia. Se essa conversar foi um sonho.

- Será?

- Nunca saberemos. A não ser que...

- Que...

- Seu celular toque. E seja eu te ligando e apareça a Simplísmente sei lá quem no visor.

- Ai.

- Ó lá. Tá tocando.

- É mesmo. Mas não é você. Você tá aqui na minha frente.

- Sim, mas se for um sonho, pode ser eu. E então... vai lá atender, vai.

- Ai, meu Deus.

- Vá!

- Tenho medo.

- Vai lá, pô. Quer apostar algo, para te encorajar? Eu aposto que não é um sonho. Você aposta que é. Que acha? R$ 100.

- Tá. Vou lá.

- Se eu perder, te pago com um cheque da Seicho-No-ye.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Um Conto Natalino Atrasado

- Tô com uma dúvida existencial.

- Pregunte.

- Por que você sempre fala "pregunte" em vez de "pergunte"?

- Essa é a dúvida?

- Não. Essa é outra. Estou para te perguntar isso faz tempo.

- Então pregunte.

- O quê?

- Sua outra dúvida, a inicial.

- E essa do "pregunte", não vai responder? 

- É urgente?

- Não. 

- Então, póxima. 

- "Póxima"?

- É. Póxima pregunta.

- Tá. Até quando a gente dá "feliz ano novo"? Estamos quase na metade de Janeiro e não sei como proceder. Já não sei se dou bom dia ou se dou feliz ano novo aos outros.

- Cara, acho que tem que dar "feliz ano novo" até o dia dos Santos Reis. Depois é facultativo.

- Dia do Sérgio Reis?

- Como?

- Quando é esse dia do Sérgio Reis?

- Hein?

- Aliás, o que acontece nesse dia, além de ser o marco do final da saudação de feliz ano novo? Por acaso as crianças vão a escola com um berrante nas costas?

- Que dia de Sérgio Reis?

- Na hora do intervalo, elas vão ao pátio, ficam em fila, colocam a mão no peito e cantam, em coro, "O Menino da Porteira"?

- Não fala dessa música. É muito triste. Mas eu disse Santos Reis, não dia de Sérgio Reis!

- E depois a cerimônia é encerrada com o Hino Nacional. Tocado com um berrante, naturalmente.?

- Ai.

- Tá. Mas que dia é esse aí?

- Seis de Janeiro.

- Esse não é o dia de Santos Reis?

- É. Foi o que eu disse.

- O Sérgio Reis foi alçado a santo? Agora além de Gaspar, Baltazar e Melchior temos o Sérgio Reis?

- Será inútil protestar, né?

- Imagina chegando na estebaria quatro caboclos, três de coroa e um com um chapelão de vaqueiro. Três deles com mirra, ouro, incenso e o rei Reis com uma porteira e um berrante no cangote. 

- Bom, pelo menos se eles tivessem problemas com os animais, o Sérgio Reis poderia domar as vacas e os cavalos que tinham por perto. 

- Só acho que o Sérgio Reis, como rei, deveria usar outro nome artístico. Adotar um ésse no final do nome cairia bem, por exemplo.

- Numerologia?

- Não, questão de estética. Não fica mais legal Rei Sergios Reis?

- Ele poderia subtrair um ésse do final do segundo nome. Rei Sérgio Rei. Não ficaria melhor?

- Ficaria. Ou poderia se bipartir e, tornando-se dois com o mesmo nome, seria o Reis Sérgios Reis.

- Imagina o incômodo que não ia ser o pessoal entrando em um estábulo com dois berrantes e duas porteiras. Iam ter que colocar o José pra dormir fora, para acomodar esses trambolhos incômodos.

- Já pensou que dois Sérgios Reis geraria, automaticamente, cinco reis magos?

- E magros. Porque o Sergião já tá só o pó. Se dividir em dois, sobrariam dois palitos. 

- Será que eles, fracos fracos, iam conseguir carregar duas porteiras e dois berrantes?

- Isso só quem poderia responder seriam os dois Sérgio Reis. Vamos perguntar a eles?

- Eu acho que só tem um por aí, por enquanto.

- Que pena. Vamos ter que esperar ele se bipartir para ficar sabendo.

- Realmente, um pena.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Feliz Ano Novo, Putada!

- Seu cadarço está desamarrado.

- E como é difícil andar assim hoje em dia.

- Você teve que se esforçar para não pisar nele?

- Pelo contrário, fiz questão de vir caminhando com o cadarço assim. Mas a cada 20 metros, alguém me parava para avisar do desamarro. Foi um inferno!

- É a solidariedade do cadarço desamarrado, que aflora o ano todo e, principalmente, nessa época. Aliás, feliz ano novo!

- Para você também. Como passou de réveillon?

- Hummm.

- O quê?

- Você sabia que assim como na língua portuguesa, a Real Academia espanhola resolveu fazer uma reforma ortográfica?

- Vão unificar tudo?

- Mais ou menos.

- E?

- Então, fiquei sabendo disso no réveillon. Aí, agora isso não me sai da cabeça. Estou pensando em mandar um e-mail pra essa academia da Espanha aí.

- Para?

- Quero sugerir duas mudanças. Eles chamam "boneca" de "muñeca". Além disso, "diminua" é "disminuya". Ficam muito ridículas essas palavras. Vou mandar um e-mail pedindo alteração.

- Quer que usem "boneca" e "diminua" mesmo ou vai dar ideia de outras palavras?

- O que me incomoda é "muñeca" e "disminuya". Se trocarem por qualquer outra coisa, está valendo. "Muñeca" pode ser neneca, rabeca ou panqueca. "Disminuya" pode seguir essa linha.

- Que linha? A da debiloidice total ou a de ser uma outra palavra em português que rime com a original?

- A de ser uma palavra que rime com "boneca". “Disminuya" pode ser neneca, rabeca ou panqueca, desde que um dessas não seja escolhida para ser "muñeca".

- Isso não faz o menor sentido.

- Não faz. Sabe outra coisa que não faz o menor sentido?

- O quê?

- "Don´t cry for me, Argentina."

- A música?

- É.

- Por quê?

- Já ouviu falar em país chorar?

- Não. Mas já ouvi falar em sentido figurado, licença poética, essas coisas. Você já ouviu falar nisso?

- Em país chorar ou em licença figurada?

- Olha...

- Não, nunca. Em nenhum dos dois. Estava pensando em aproveitar o e-mail que enviarei a essa academia espanhola e pedir uma revisão na letra da música.

- Acho que não é bem da alçada deles.

- Também acho. Mas já que vou mandar um e-mail mesmo, aproveito o "send".

- E vai sugerir o quê?

- Substituírem o "Argentina" da música.

- Pelo quê? "Neneca", "rabeca" ou "panqueca"?

- Pensei em Argemiro. Não ficaria legal "Don´t cry for me, Argemiro"?

- Ficaria lindo. Dependendo do naipe do Argemiro, claro.

- Pensei em um bem bonito. Barbudo e tudo.

- Nesse caso, pode mandar o e-mail com fé.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Um Pouco de Nerdice

- Imagina o trabalho que não dá pro Darth Vader tomar banho.

- Ele toma banho? Pergunto porque ele é meio homem, meio máquina. Então, se molhar, pode ser que enferruje.

- Bom, sendo meio homem, meio máquina, talvez tome meio banho. Aliás, meio banho normal, com água, sabonete e xampú. E meio banho de óleo, para limpar sua parte máquina.

- Xampú acho que ele não usa. É careca. 

- Pode usar por preciosismo. Nunca se sabe como são os hábitos higiênicos dele.

- Verdade. Mas se eu fosse ele, não tomaria banho. Ia ficar fedendo para cima e para baixo e ai de quem reclamasse.

- Sei não. Imagina o fedor dentro daquela fantasia de Darth Vader que ele usa. O cheiro ia matar. Ia ter que fazer força para prender a respiração. 

- O Darth Vader usa fantasia de Darth Vader?

- Usa. Ou melhor, não usa. Ah, sei lá. Se ele não usa fantasia de Darth Vader, usa do quê?

- Roupa normal. Para ele, claro. Pros outros é fantasia. 

- Então é assim: ele usa roupa normal, de gala, de passeio, de festa. O que é tudo a mesma coisa: aquele troço negro, aquele capacete chanel e uma capa preta. Quando os outros usam, é fantasia. Certo?

- Por aí. Por exemplo, peguemos o caso das baianas.

- O que as baianas têm?

-Quando elas saem de casa, estão vestidas à paisana. Quando estão vendendo acarajé, estão uniformizadas. Quando estão na ala das baianas, estão fantasiadas. Tudo depende do referencial adotado.

- Já te falei que tenho uma dificuldade danada em saber quando uma pessoa tá vestida de baiana ou quando está vestida para casar? Para mim, usou roupa branca cheia de rococó, pode ser noiva ou baiana. Sempre fico na dúvida.

- Dica. Se estiver com um acarajé na mão, é baiana. Se tiver um buquê, é noiva. 

- E se estiver com as mãos abanando?

- Noiva ou baiana em horário de folga. Aí é observar e esperar elas voltarem a praticar suas artes.

- Que artes?

- Venda de acarajé ou ritual em altar.

- Ritual em altar é noiva?

- Ou noiva ou Iemanjá. Aí vai ter que esperar acabar. Se quando acaba o ritual ela vai para a lua de mel, é noiva. Se voltar pro mar, é Iemanjá.

- Cara, incrível como você sabe das coisas.

- Eu estudei, meu chapa.

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Com a colaboração real do @ecostela


quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A volta do Tirulipa Júnior

– A mim o que importa é saber se o Tirulipa Júnior vai retomar a carreira.

– Quem é Tirulipa Júnior?

– O povo brasileiro tem memória fraca mesmo. É o filho do Tiririca, o deputado mais votado do Brasil. E se o Tiririca não puder mais ser palhaço na TV, nada melhor do que ressuscitar o Tirulipa.

– Agora eu me lembro. Mas é que sempre achei que o Tirulipa se parecia muito mais com uma miniatura do Genival Lacerda do que com o próprio pai. E se o pai se chama Tiririca, como o filho pode ser Tirulipa JÚNIOR...

– Você não entende excentricidades artísticas. Podia até ser Júnior Tirulipa que não tinha problema. Aliás, já conheci gente que tinha Júnior como primeiro nome.

– Ah, isso tem. Tem aquele lateral–esquerdo Júnior César. Lindo nome.

– E tinha o técnico Juninho Fonseca. Esse era mais legal ainda porque dá para considerar que o nome é um apelido, já que ele se chamava Alcides Fonseca Júnior. Acharam mais interessante passar o Júnior dele pra frente, e não é que ficou melhor mesmo?

– Bem melhor. Mas eu nunca vi acontecer isso com quem prefere usar Filho em vez de Júnior. Nunca vi um Filho Antunes, por exemplo.

– Bom, eu já vi gente que se chama Primo. Se alguém com esse nome tiver um filho, ele pode colocar Primo Filho ou Filho Primo que vai ficar estranho igual.

– E fica mais interessante ainda se esse Primo Filho tiver um sobrinho um dia. Aí o moleque ia poder se chamar Primo Filho Sobrinho. Deve ser duro ser parente de um cara assim.

– Duro demais. Imagina os netos perguntando: “onde está o vovô Primo Filho Sobrinho?”.

– Melhor deixar pra lá que isso está indo longe demais. Mas, voltando ao papo, porque o Tiririca não poderia mais ser palhaço? Acho que ele pode pelo menos cantar umas músicas nas sessões da Câmara, como o Suplicy faz no Senado. Aliás, o Suplicy podia dar um pulo lá e fazer uma dupla com ele.

– Verdade, acho que seria uma boa. E abriria espaço pra uma outra dupla sensacional, Supla e Tirulipa Júnior, os Filhos do Congresso.

– Perfeito. Agora vou ficar aqui pensando em uma maneira de reativar a carreira do Genival Lacerda. 

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Eu Conheço Alguém que Fala Baleiês

- Minha memória anda cada vez pior. Já te falei isso?

- Isso o quê?

- Ih, esqueci.

- Repete, pô.

- Não, é sério. Esqueci mesmo. Mas mudo de assunto.

- Mude.

- Minha memória anda cada vez pior.

- É? A minha também.

- Já te falei isso?

- Nunca saberemos. A minha memória vai de mal a pior.

- A minha chegou em um ponto que não sei se li algo, se vi na TV, se vi no cinema ou se sonhei.

- Eu, pelo menos, fico feliz várias vezes pelo mesmo motivo. "Vai casar? Parabéns! Ah, já disse? E o que eu disse da primeira vez? Parabéns, também? Viu! Eu não estava mentindo."

- Minha situação é tão ruim que falo uma coisa que acho que inventei e posso estar plagiando Shakespeare sem saber.

- Outro dia, eu estava contando uma piada, perdi o fio da meada e, quando vi, estava recitando Carlos Drummond de Andróide.

- Andrade.

- Não, era Carlos Drummond de Andróide mesmo. Não conhece?

- Não. É bom?

- Uma máquina de escrever. Uma máquina!

- Ai, ai.

- O quê?

- Me diz que você fez esse trocadilho infame com o Drummond só pra emendar essa piada.

- Que piada?

- Carlos Drummond de Andróide.

- Como?

- Carlos Drummond de Andróide, o poeta que é uma máquina.

- Hahaha. Muito boa. Gostei da piada. Posso usar?

- É sua, pô.

- É?

- É.

- Ah, então não espalha. Não achei tão boa assim.

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com ajuda involuntária da Juliana.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Amarração para o Amor

- Estou pensando em entrar no ramo de amarração para o amor e trazer a pessoa amada em até 6 dias.

- Sempre que falam "estou saindo com uma pessoa" e não especificam o sexo, imagino que a "uma pessoa" é do mesmo sexo da pessoa que está me contando isso.

- Eu estou aqui falando de empreendimentos, de mudar de vida, de replanejar toda a minha existência e você vem com esse papo homofóbico?

- Que papo homofóbico? Eu não disse que acho isso bom ou ruim. Só fiz um desabafo, pô.

- Desabafo? Ui, ui, ui. 

- Pronto. Agora isso. Mas fale, você quer entrar no ramo da macumbaria?

- Não.

- Ué, você não disse que ia entrar no ramo da amarração para o amor? E que iria trazer a pessoa amada em até 3 dias?

- Disse 6 dias, não 3. Mas eu não falei em macumbaria.

- E como vai fazer isso sem ser por meio de forças sobrenaturais?

- Pensei em montar uma empresa de busca e apreensão de humanos.

- Tipo sequestro?

- É assim: a pessoa me contrata. Diz quem ama. Eu vou lá, pego a amada, amarro e trago. Como daqui até o Maranhã dá 3 dias de carro, acho que consigo ir e voltar em 6 dias. Por isso trabalho com esse prazo estendido. 

- Isso se a pessoa não oferecer resistência, claro.

- Por isso eu disse que trago "a amada". Vou começar só com mulheres, já que são mais frágeis. Depois, com o negócio crescendo, passo a trazer "o amado" e de avião, para não perder prazo.

- Qual a diferença disso para um sequestro?

- Estou fazendo isso pelo amor. Não por dinheiro.

- Pelo amor alheio e unilateral, já que a outra pessoa vem amarrada.

- Não, pelo amor bilateral em uma situação trilateral. A pessoa que me contrata ama o amarrado. Eu amo a humanidade e o amor das pessoas. Só quem sai perdendo é o amarrado. Mas como não há felicidade plena, acho que 2/3 de uma relação estando felizes, o 1/3 restante tem que se contentar com o que tem.

- Você trabalhará com travestis também?

- Vai começar com homofobismo de novo?

- Não. É porque tecnicamente eles são homens, mas na prática são mulheres, certo?

- Errado. São outro gênero.

- Nem vou perguntar qual. Vou tocar o assunto se não a gente não termina esse papo hoje.

- Tá com pressa?

- Estou. 

- Pronto, perdeu a chance de me contratar. Meu trabalho leva o dobro do tempo do dos outros, mas trago a pessoa inteira, queira ela ou não. 

- Não pretendia contratar seus serviços. Quando quero alguém, vou lá e luto por ela eu mesmo.

- Luta? Ué, não era você que era contra sequestro?

- Luto em sentido figurado. Vou, me aproximo, galanteio e seduzo a outra pessoa.

- "Outra pessoa"? Bicha.


quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Uma onda retrô meio diferente

– Se eu pudesse ter um superpoder, queria ter retrovisão.

– E um retrovisor não resolve isso? 

– Resolve, mas só quando estou dirigindo. E eu acho que retrovisão seria importante em todos os momentos da vida.

– Bom, quando você diz a palavra “retrovisão” parece que é realmente um superpoder muito bom. Mas quando se descobre que é um simples espelho retrovisor, perde um pouco a graça.

– Mas eu me sinto muito poderoso quando entro no carro e percebo que posso ver o que está atrás, como se tivesse olhos nas costas. É um grande invento da humanidade. Dão muito valor a quem inventou o carro, mas nenhum a quem teve a brilhante ideia do retrovisor.

– O Fagner tem uma música que se chama Retrovisor...

– Se for pra ter que escutar Fágner, eu preferia ter retroaudição também...

– E como seria isso?

– Sei lá, acho que escutar tudo de trás pra frente.

– Como um superpoder, acho que isso serviria apenas para decifrar todas as mensagens subliminares escondidas em discos da Xuxa e dos Beatles.  

– E para embaralhar as músicas do Fágner e torná–las audíveis, oras.

– E de retro–olfato, você não gostaria?

– Parece meio complicado. Se eu sentisse cheiro de feijão novinho quando visse um prato cheio de pedras, por exemplo, com certeza ia comer e quebrar os meus dentes.

– Retro-olfato não seria sentir os cheiros ao contrário?

– Sim, mas e qual é o contrário de feijão?

– Deixa pra lá. 

– Mas e você, se pudesse ter um superpoder, qual seria o seu?

– Não sei, acho que telepatia.

– Telepatia? Hmm. No sentido linguístico, é o contrário de retrovisão.

– Como assim?

– Bom, você acha que retrovisão é um nome muito bom pra um poder mais ou menos. Eu acho que telepatia é um nome péssimo pra um poder bom.

– E por quê?

– Parece nome de doença. O cara pegou uma telepatia braba. Como já tinha cardiomiopatia, a coisa ficou feia.

– E você teria um nome melhor pra isso?

– Óbvio. Retrofala.

– Captei. Retrofala aqui com a minha mão...  

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Mais Borboletas

- Hoje eu devo estar com uma energia muito boa.

- Por quê?

- Vindo para cá, quase todo mundo que passei me sorriu. 

- Como é?

- Ah, das pessoas que cruzei, quase todas me cumprimentaram ao passar por mim. A maior parte sorriu. Umas poucas, homens e mulheres,  até chegaram a mandar uns beijinhos meio esquisitos.

- Como assim meio esquisitos?

- Colocaram a mão perto da boca, dando a ideia de beijo. Mas em vez de beijar a mão e assopar, só esfregavam o polegar. Enfim, eram beijos estilizados.

- Será?

- O que mais seria?

- Talvez estivessem indicando para você limpar a boca. Tá cheio de pasta ao redor dos seus lábios. Isso também explica os sorrisos.

- Sério?

- Sério, vai ver no espelho. 

- Por que você não me avisou antes?

- Você acabou de chegar. E já veio com esse papo maluco.

- Ah é.

- É muita pasta. Meu Deus!

- Sabia que tinha esqucido de algo hoje.

- Esqueceu de enxaguar a boca?

- É. Eu estava lá escovando os dentes, aí passou uma borboleta e me distraí atrás dela.

- No seu banheiro entram borboletas?

- Aí vim atrás dela. Quando vi, estava na metade do caminho para cá. 

- No seu banheiro entram borboletas?

- E se tem uma coisa que me distrai são borboletas, sabe? E era daquelas bem bonitas, azuis.

- No seu banheiro entram borboletas?

- Aliás, olha uma ali na janela. 

- No seu banheiro entram borboletas?

- Que coisa mais bonita....

- Hey, onde você tá in... hey! 

- ...

- Esqueceu de novo de limpar a boca. Pelo menos, vai ganhar muitos sorrisos. Ainda mais porque a braguilha tá aberta também.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Elisa Samúdio e CSI Diadema

- E esse lance do advogado do Bruno ser viciado em crack, hein?!

- Como é?

- O advogado do Bruno, o goleiro.

- O do Samúdio?

- Ele era goleiro do Flamengo, burro. Que time é esse Samúdio?

- Perguntei se o Bruno a que você se refere é o do caso Elisa Samúdio.

- Isso. Ele.

- O advogado dele o quê?

- É viciado em crack.

- Que crack, o de fumar?

- É.

- Com colher e potinho de Yakult?

- É, porra.

- Ah, rapaz. É viciado, é?

- É.

- Espero que se recupere logo. Torço por ele.

- Eu também. Mas não vou resistir a fazer um trocadilho.

- Eu faço antes. Advogado do crack. Advogado do craque. Droga de advogado. Etc, etc.

- É. Essa tava fácil até para quem não é "viciado" em trocadilho.

- Tava quicando. Mas mudando de assunto, eu já não duvido de nada desse caso. Nem se a Samúdio aparecer viva. Dizendo que era viciada em se fazer de morta.

- Legal mesmo seria se o Mano Menezes convocasse o Bruno para os jogos de dia da seleção.

- De dia porque...

- Porque à noite ele teria que voltar pra cadeia. Acho que não pode passar a noite fora. Aí já é demais.

- Cara, se a Samúdio aparece viva, nem sei o que acontece.

- Nem eu. Mas iam chamar o CSI Diadema para investigar.

- CSI Oratório.

- CSI Campo Limpo.

- CSI Jardim Ângela.

- CSI Jordanópolis.

- CSI Vila Mimosa.

- Cara, tava pensando em fazer um curso de vigia só para formar o CSI Vila Mimosa.

- Perda de tempo. Na Vila Mimosa nunca, nunca tem crime.

- Ah, mas então, se eu fosse vigia, não ia investigar mesmo. Ia olhar para a pessoa morta e dar o veredito. "Morreu tossindo? Foi tuberculose. Morreu tossindo muito, muito? Tuberculepra. Morreu de repente, sem tossir? Tuberculose fulminante." É até melhor que não tenha crime lá, só morte natural. Assim posso só olhar, dizer o que foi e ir pro meu canto terminar de fumar.

- Para isso, você nem precisa fazer curso de vigia. Basta ficar na Vila Mimosa num canto. Viu alguém caindo, vai lá, balbucia o que quiser e se manda.

- Mas aí trabalharia na ilegalidade. E não gosto disso. Prefiro fazer tudo dentro dos conformes.

- E pra dar palpite na Vila Mimosa você tem que ser vigia?

- Para dar palpite, basta eu saber falar. Mas eu quero montar o CSI Vila Mimosa. E, pra isso, só se formando.

- Em vigia?

- Perfeitamente. Quero virar crack no assunto.

- Nem começa.

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Com a colaboração involuntária do Daniell (que tá aqui e aqui), da BruxaOD, do Fábio Primo (que é um excluído digital e não tem nada desse negócios modernos) e de mais um monte de gente do GoogleGroups do Morfina.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Nanotecnologia e Fones de Ouvido

- A tecnologia só me fode.

- Tomou choque enfiando o dedo na tomada?

- Já, várias vezes. Mas essa tecnologia, eletricidade e tals, é velha. Estou falando da nanotecnologia, meu chapa.

- A nanotecnologia só te fode?

- Em termos. Por exemplo, quando vejo uma pessoa mexendo a boca ao longe, nunca sei se ela está com um fone de ouvido, conversando com alguém por celular. Ou se é louca da cabeça e está realmente falando sozinha.

- E o que a nanotecnologia tem a ver com isso?

- Ué, se os fones não estivessem tão pequenos, eu os veria de longe. E se não os visse, faria meu decreto: a pessoa em questã é louca.

- Você sabe que nanotecnologia não tem a ver com o tamanho dos fones, né?

- E tem a ver com quê, então?

- Com construções a partir de escala atômica, no caso, escala nano.

- Bom, de qualquer forma, se os fones não fossem tão pequenos, não me confundiriam tanto.

- E por que essa encasquetação com fones de ouvido e pessoas falando sozinha ou ao telefone?

- Se eu não sei se a pessoa é louca ou se está falando ao celular, como posso pará-la e pedir informação?

- Se a pessoa estiver falando ao celular, é de bom tom não interromper. Se a pessoa for louca, é uma boa ideia não lha pedir orientações. Em resumo: vendo alguém mexendo a boca e soltando palavras ao vento, não faça perguntas.

- Quer dizer que os fones de ouvido não têm qualquer relação com meu problema? Tampouco a nanotecnologia?

- Isso. Mas lembre-se de uma regra simples para resolver seu problema: pessoa conversando, não interrompa.

- Mas e se eu estiver perdido?

- Pergunte a quem estiver com a boca fechada.

- E se essa pessoa for louca e muda? Ou se for telepata e estiver se comunicando com outra pessoa mentalmente?

- Mas você complica as coisas, hein?

- Só estou supondo.

- Nesse caso, estando perdido, não pergunte a ninguém. Olhe para o céu e se guie pelo Cruzeiro do Sul.

- E se for de dia?

- Espere anoitecer.

- E se for bem de manhazinha?

- Pegue uma bacia, encha d´água. Pegue uma agulha imantada, coloque sobre uma rolha e as ponha na bacia. Pronto, você tem uma bússola que te guiará.

- E se...

- Ah, chega. Vou embora.

- Não... não... volta... droga. Me deixou falando sozinho de novo. Agora, vou ter que conversar comigo mesmo e procurar as respostas. Diabo. Bom, supondo que eu não tenha água para colocar na bacia, será que coca-cola é um bom sucedâneo? Supondo que sim, então...

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

"O apito seria a minha cadeira de rodas se eu fosse um falso cadeirante"

- O apito seria a minha cadeira de rodas se eu fosse um falso cadeirante.

- Como é?

- É que eu assobio tão bem, mas tão bem, que quando o faço, até evito fazê-lo por mais de 2 minutos.

- Não entendi.

- É que eu tenho a sensação de que se assobiar por mais de 2 minutos, vou tomar uma pedrada, confundido com um passarinho.

- Como?

- Ou tomar uma estilingada. Dá na mesma. Eu mesmo, assobiando distraído certa feita, achei que havia um passarinho assobiando por perto.

- Do que você está falando?

- Ou outra vez, mais distraído ainda, achei que eu fosse um passarinho. Foi horrível. Aí eu queria me olhar no espelho, para ver se eu não tinha virado um passarinho. Mas não conseguia ir, porque estava encantado por uma espécie de canto das sereias. Só que no lugar de canto, era assobio. No lugar de sereia, um sereio. Ou melhor, um boto. Ou melhor melhor, eu.

- Você tá passando bem?

- Outro motivo que me leva a não assobiar muito e muito menos em público é que eu acho que podem vir uns homens maus e me colocarem em uma gaiola gigante. 

- Cara, não estou entendendo nada.

- Essa gente é muito gananciosa. Meu Deus! Iam me colocar nessa gaiola e eu ficaria lá, assobiando, assobiando. Se bobear, até furariam meus olhos, para eu assobiar melhor. 

- No começo eu estava temendo pela sua sanidade. Agora, temo pela minha integridade física, fechado com você nesse ambiente.

- Já te falei que eu aprendi a assobiar antes de falar?

- Ah, não. Aí, não. Agora exagerou. Nem lembro como você começou esse papo de louco. Mas agora exagerou.

- Comecei dizendo que o apito seria a minha cadeira de rodas caso eu fosse um falso cadeirante.

- O que isso quer dizer?

- É que quando eu penso em assobiar, eu pego um apito do bolso e apito. Assim, evito tomar pedradas, ser preso, ter os olhos furados. Eu não preciso dele, mas uso, para disfarçar minha habilidade. Como eu faria se não precisasse de cadeira de rodas para andar, mas as usasse para disfarçar meu andar lindo e maravilhoso.

- Você acha que se você tivesse um andar lindo e maravilhoso, iam te dar pedradas, te prender, furar os olhos? Porque não vejo perigo em andar belamente.

- Ah, as pessoas podem querem me colocar umas cordas e me usar de maionete, demonstrando meu belo andar. Assim, se fosse o caso, eu usaria cadeira de rodas.

- O correto é assobio ou assovio?

- Sei lá.

- Ué, você não era o especialista em assobio? Quase um passarinho?

- Sim. Mas não sou espeçalista em português.

- Percebe-se.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Police on my back, na voz de Cher, diretamente do Piritubão

- Tem um bife aí?

- Por que diabos você quer um... argh! O que aconteceu com seu rosto?

- Por isso quero um bife, gelo ou algo assim. 

- Você apanhou na rua?

- Pode-se dizer que sim.

- Que aconteceu?

- Estava vindo para cá...

- Sei.

- Aí começou a tocar "Police on my back" do Clash. 

- Bela música. Dá vontade de correr.

- Foi o que fiz. Estava sobre uma passarela da Anchieta. Comecei a correr e cantar "police on my back, police on my back".

- E caiu lá de cima de cara no chão?

- Só se eu fosse imortal pra cair lá de cima e continuar vivo, só com a cara amassada como sequela.

- É verdade.

- Bom, aí nessa de correr e cantar "police on my back", cruzei com um cidadão, que resolveu correr atrás de mim.

- Por quê? Achou que era pega-pega?

- Nada. Era gringo. Inglês. Achou que eu tava sendo perseguido pela polícia e quis me capturar.

- Capturou?

- Capturou. Me pegou, meteu minha cara no chão e me imobilizou. Aí, chamou a polícia.

- E você foi preso?

- Fui nada. Chegou a polícia, esclarecemos a confusão. Eu servindo de intérprete para ele, inclusive. 

- Caramba.

- Pois é. Aí os policiais chegaram, entenderam o mal-entendido e perguntaram se eu queria fazer queixa contra o gringo.

- E você fez?

- Claro que não. O cidadão tava muito bem intencionado. Achei que colocá-lo na cadeia ia fazer um mal para a população, que precisa de gente bem intecionada assim para salvá-la.

- E ele te pegou de jeito, hein? Sua cara tá fodida de todos os lados.

- Ah, mas a maior parte dos hematomas veio do ponto de ônibus.

- Como é?

- Bom, esclarecido tudo, voltei a caminhar. Vinha para cá. Lá pelas tantas, distraído novamente com a música...

- Ouvindo mais Clash?

- Não. Cher. Ela ainda me emociona, sabe?

- Sei.

- Bom, aí estava distraído, passando por um ponto de ônibus, quando um cidadão foi dar sinal para o Circular parar e enfiou o dedo no meu olho.

- Que zica.

- Pois é. Aí, parei e fiquei cego. Porque o olho esquerdo não tava dos melhores, por conta da confusão com o gringo. E o direito foi dedado pelo popular que queria pegar o busão.

- Puta história triste, meu.

- Pois é. Aí parei para esperar a visão voltar. Nisso, a população queria muito pegar o Circular e avançou. Eu estava entre a porta e essa horda. Resultado, fui, cego, espremido, espancado, socado, humilhado.

- E como chegou aqui? Além de dolorido e mancando, que é o que se percebe de longe.

- Bom, tentei com todas as minhas forças resistir, mas não teve jeito. Me socaram para dentro ônibus. Por sorte, era o Circular. Ele me deixou exatamente onde o peguei. Aí segui meu caminho e cheguei aqui.

- Por sorte?

- Podia ser pior. Podia ser o Penha-Lapa. Aí, a essa hora, eu estaria passando em Quixeramobim e ainda não teria chegado.

- O Penha-Lapa passa em Quixeramobim?

- Passa. Passa em todos os lugares do mundo, exceção à Pirituba, que é perigoso demais.