quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O Estranho Caso das Palavras Voadoras e Outros Contos

- Eu sempre fui mau nas aulas de física. 

- Você cortava o cabelo das meninas, grudava chiclete na cadeira do professor ou costumava cagar na lancheira?

- Não. Eu tirava notas baixas mesmo. Por quê?

- Então o correto é mal, com éle. 

- Como você sabe que eu falei mau com u, se eu estou falando?

- Seu sotaque.

- Eu não tenho sotaque.

- Ok, confesso. Eu tenho um super poder. Em vez de ouvir as pessoas, eu vejo as palavras saindo da boca delas. Leio e entendo.

- Você lê os lábios?

- Não. Eu vejo as palavras voando. É um troço muito louco.

- E quando você bebe ou quando sai sem óculos de casa?

- Quando eu bebo muito, aperto os olhos e enxergo. Quando eu saio sem óculo de casa, não tem problema.

- Por quê? São letrões gigantes, à prova de problemas de visão? 

- Não. Porque eu não uso óculos.

- Ah. Mas e se alguém fala pelas suas costas, você não ouve?

- Normalmente, ouço. Ou melhor, leio. Porque a letras aparecem flutuando à minha frente. Como disse, é um troço muito louco. 

- E quando você era criança e analfabeta, como fazia? 

- Primeiro, me fiz de louco. Depois, de surdo. Por fim, mímicas. 

- Deve ter sido difícil para você. 

- Nem tanto. A pior parte é desviar das letras. Quando elas avançam na minha direção, tenho que desviar, para não levar um A ou um C na testa. Dói. Já reparou que sempre que tem alguém falando eu fico me mexendo?

- Já, mas pensei que fosse formiga no cu. 

- Não, é esse problema aí.

- Rapaz... não sabia que pelas leis da física isso era possível. 

- O que só comprova que você é mesmo muito ruim de física.

- Sim. Era isso que ia falar no começo. Que eu sempre fui muito mau nas aulas de física. 

- Mal. Fala direito. Isso fere meus olhos.

- Tá. Mau.

- Mal.

- Ai meu Deus, não consigo. 

- Usa outra palavra. Usa péssimo. 

- Mas não era tão mau assim.

- Tá, mas só pra efeito de desenvolver a conversa.

- Tá. Eu era péçimo em física.

- Argh.

- O quê?

- Você falou péssimo com cedilha.

- Cério?

- Ai meu Deus. Fecha a boca, por favor.

- O que foi agora?

- Sério com c.

- Esse foi de propósito.

- Como assim?

- Era só pra ver se essa história toda era verdadeira.

- E você acha que eu ia inventar algo assim tão estupidamente estranho?

- Nunca se sabo.

- Sabo?

- É. Errei de propósito a grafia.

- Mas trocar e por o não é muito comum. Até se eu tivesse a audição normal, pegaria o erro. Foi um teste?

- Ah, não. É que além de física, sempre fui muito mau em português também. Escrito e falado.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O Bom e Velho Trote da Telerj

- Fiz um negócio bisonho. Peguei todas as músicas que estão sem nome no meu computador, puxei para o celular e tenho ouvido sem saber o que vai vir. 

- Sei.

- Só hoje, ouvi de Barry White a Jorge Ben, passando por Gil, The Pogues, o Trote da Telerj e uns gemidos de gente transando. 

- "Aqui é Eliseu Drummond".

- "Grandes merda que tu é adevogado".

- Haha. Mas, peraí, você gravou você transando em MP3?

- Rapaz, não transo desde antes de inventarem o toca-fitas. Não sei quem é que tá transando, mas é bem rapidinho. Dura uns 4 segundos. Deve ser coisa de gente com disfunção sexual.

- E não pode ser você?

- Faz tanto tempo que nem lembro. Mas acho que não. Quando eu transava demorava muito mais do que queria. E muito, muito mais do que a pobre diaba queria também. 

- Imagino. Conversar com você já é um sofrimento. Imagino transar.

- Pois é. Falando nisso, tava pensando em um trio musical muito bom. 

- Lá vem.

- Pensei em um power trio com Cassia Eller, Fernanda Keller e Helen Keller.

- Ah, não.

- Sim, sim. Chamaria Keller inGüiça. Que acha?

- Não, não.

- Pô, seria legal. A Cássia Eller seria a percussionista. E a Fernanda Keller, maratonista.

- Pára, por favor.

- E a Hellen Keller poderia ficar com o surdo, manja?

- Não, não, não.

- E o trio poderia ser agenciado pelo Mi Eller.

- Chega, por favor. Tô quase preferindo transar com você.

- Porra, se vai começar com ameaça, então eu paro. 

- Graças a Deus.

- Mas que elas poderiam posar para a revista Ele e Eller, poderiam.

- Olha que eu tiro a camisa.

- Tá, parei. Vou ouvir de novo o Trote da Teller-rj.






terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O Menino na Gengiva Verde

- Malandro... acabo de tirar um pedaço de couve do tamanho de um ornitorrinco do meu dente.

- Eu acho que não ouvi bem. Pode repetir?

- Acabo de tirar um pedaço de couve do tamanho de um ornitorrinco do meu dente. Tava preso entre meu canino e meu pré-molar.

- Por que você está me falando isso?

- Porque acabei de tirar. Se eu ainda estivesse com a couve presa no dente, dificilmente estaria conseguindo falar. Não percebeu que fiquei a tarde toda em silêncio?

- Você tava com essa couve presa aí desde a hora do almoço?

- Pior que não sei que hora ela entrou na minha boca. Almocei só um pastel. Não comi couve hoje.

- Comeu ontem?

- Também não. Acho que foi no meio da tarde.

- Como assim?

- Acho que eu tava distraído, bocejando no meio da tarde, quando a couve entrou sorrateiramente e se enfurnou entre meu canino e meu pré-molar.

- Couve anda?

- Não sei se anda. Mas que voa, voa. Não tenho outra explicação para ela ter vindo parar aqui.

- A única explicação é que ela entrou voando?

- Isso.

- Já pensou que você pode ter comido couve no final de semana. Aí, uma sementinha dela ficou presa na sua gengiva. Você foi bebendo água e, sem querer, aguando a bichinha. aí, hoje, ela floresceu. Pode ser isso, não?

- Pode. Mas como ela cresceu rápido. Precisaria de adubo, para tanto.

- E as merdas que você fala?

- Opa, opa, opa. Alto lá. Se vai ofender, depois vai ter que aguentar.

- O quê?

- A tréplica.

- Que seria?

- Humm.

- Como?

- Humm. Humm. Humm.

- Ficou mudo?

- Hummm.

- Apareceu outra couve?

- Humm.

- Hahaha. É, e dessa vez nenhuma passou voando. Acho que sua gengiva tá criando couve mesmo. E adubando que é uma beleza.


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Tem Horas para Dar?

- Tive um problema muito sério vindo para cá hoje.

- Que foi?

- Queria saber as horas, porque esqueci meu celular em casa. E vim com essa dúvida na cabeça até aqui.

- Por que não parou alguém na rua e perguntou?

- Pensei nisso. Mas só cruzei com mulheres e com homens penteados. Aí preferi não arriscar.

- Eu sei que lá vem demência, mas explica isso melhor.

- Eu evito parar mulheres na rua. Elas podem achar que ou vou passar uma cantada ou que vou assaltar. E quero evitar confusão. 

- São mesmo coisas bem semelhantes assaltar ou cantar alguém. Eu mesmo já me confundi várias vezes. Na última, de início, achei que a mina ia levar minha grana. Quando vi, estava atracado com ela num canto qualquer, trocando intimidades. Pior: quando terminamos de nos portar como dois animais, ela bateu minha carteira mesmo, se portando como uma gatuna. E ela estava longe de ser gata, ironicamente. 

- Sério isso?

- Não. É que não entendo como você, parando alguém na rua e perguntando "que horas são?", pode levar a pessoa a achar que é assalto ou paquera.

- Nem eu. Mas já aconteceu comigo. Quase fui parar na delegacia certa feita.

- Como você costuma perguntar as horas? Pára a pessoa, tira do bolso uma meia-calça, coloca na cabeça e diz "passa as horas"? 

- Não.

- Ou pára a pessoa, pergunta "teria horas, coraçãozinho?" e dá uma piscadela sexy?

- Não.

- Então me explica como te confundem.

- Sei lá. Da última vez, a mina achou que eu ia assaltá-la e assediá-la. Tudo porque, percebi mais tarde, eu estava sem camisa, com a braguilha da calça aberta e sem cuecas.

- Você sai assim na rua?

- Só quando eu estou desesperado para saber que horas são. Aí saio de qualquer jeito, como ocorreu nessa última vez. 

- E os relógios da sua casa? 

- O que têm?

- Não estavam funcionando nesse dia?

- Eu estava tão desesperado para saber que horas eram que até esqueci-me deles. Saí correndo à rua como estava, seminu, para descobrir o horário. Mais ou menos como aconteceu hoje. 

- Mas hoje, por sorte, você estava vindo trabalhar. E, portanto, estava vestido e de cuecas.

- Pois é. Mas quis evitar a confusão e não parei nenhuma moça. Vai que eu estivesse sem camisa e sem cueca.

- Você não sabia como estava?

- Quando quero saber que horas são, fico um pouco avoado e distraído, sabe?

- Você falou ali em cima que também cruzou com vários homens pelo caminho. Mesmo assim não quis perguntar?

- Eu não disse homens. Eu disse homens penteados.

- Sei. E não quis perguntar para homens penteados por quê?

- Você confia em homem que se penteia antes de sair de casa? 

- Hummm.

- Nem eu. Preferi vir na ignorância a ser enganado por esses verdadeiros sacripantas. 

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Toqu (is not) inho

- Minha playlist deve ser uma das mais bizarras da humanidade. Hoje vim para cá ouvindo, na sequência, Everything but the girl, Exaltasamba, Toquinho, Scissor Sisters, Andrew Bird, Hot Hot Heat e, quando estava entrando no prédio, começou a tocar Barry White.

- Que coincidência você falar isso. No meu caminho para cá, eu sempre vejo estacionado um Fiesta roxo. E ele sempre está com aquela portinhola de colocar gasolina aberta. Eu sei que o carro não está abandonado, porque na volta ele não está lá. Bom, hoje resolvi tomar uma providência.

- Que foi?

- Bom, resolvi fechar a portinhola.

- E aí?

- E aí, fui pego com a boca na botija. Apareceu o dono do Fiesta e me passou um pito. 

- Como assim?

- Ele saiu de uma forma, a qual fica na frente do carro estacionado e disse "a rá! Te peguei! Então é você que fica roubando meu combustível!".

- E você?

- Bom, esperei ele terminar o arroubo de raiva. Contou que há dias tenta pegar o pilantra. E que hoje tinha conseguido e etc e tal.

- E?

- E aí expliquei que não estava roubando nada. Que só queria fechar a portinhola, porque aquilo irritava meu TOC.

- E ele acreditou? 

- No início, não. Mas aí o argui que, se eu era mesmo o ladrão, onde eu teria escondido a gasolina? Já que eu estava só com uma mochila e mais nada.

- Aí ele acreditou?

- De início, não. Achou que eu podia muito bem ter bebido a gasosa.

- E como você resolveu isso?

- Falei que daria uma baforada na cara dele, para ver se ele sentia algum cheiro de gasolina ou qualquer outro combustível. Mas ele não topou.

- Compreensível.

- Aí ele propôs que eu acendesse um fósforo e engolisse. Se eu não explodisse, ele me liberaria, entendendo que eu era mesmo um bom samaritano e que só queria fechar a portinhola.

- Você topou?

- Topei. Não gostei da ideia no início, mas depois ele falou em "bom samaritano" e me sensibilizou. Sempre quis ser um "bom samaritano". 

- Sei.

- Bom, aí engoli o fósforo. Obviamente não explodi e ele me liberou.

- Você comeu um fósforo aceso? 

- Comi. No começo, dá uma queimação no estômago. Mas depois, nada mais. 

- Ai, ai. E o que isso tem a ver com a história da minha playlist?

- Ah, é que você falou Barry White. E antes deste incidente acontecer, eu estava ouvindo Barry White no MP3 player também. 

- Que coincidência.

- E mais: estava até pensando em montar uma banda cover dele, chamada Barry is not White. Que acha? 

- Acho que você quer ser processado.

- Mas as versões seriam estilo rap ou black music. Assim o nome da banda teria motivo de ser.

- Então acho legal. Você poderia aproveitar e fundar outra banda, chamada Marvin is not Gay e só fazer versões bem másculas dos sons dele.

- Másculas como?

- Sei lá, algo estilo Village People. Ou poderia tentar formar um power trio com a Cher e a Barbra Streisand.

- Isso não faz o menor sentido.

- Outra banda cover legal seria Chico is not da vila Buarque. Ela faria versões só jabaquarenses das músicas.

- O que são versões jabaquarenses? Sei lá. Nem sei onde fica a Vila Buarque.

- Outra boa seria a Ram (is not) Ones, com músicas do Ramones tocadas por uma Big Band de umas 400 pessoas. 

- Seria melhor uma orquestra logo. 

- Mas será que o povo de orquestra consegue tocar só três acordes?

- Não. Aí quem consegue são os Scream ins not Trees.

- Mas esse Tress é de árvore, não de três.

- Ah, nem vem se screamiando que será à trioas.

- Você sabe que isso não faz sentido, né?

- Sei.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Tem um jacaré domindo no meu Corcel II

- Por que você tá mancando?

- Você não vai acreditar, mas um jacaré me mordeu hoje de manhã.

- Que crocodilagem, hein?

- Ai, ai, vai rindo.

- Tá, mas fala a verdade, o que aconteceu?

- Um jacaré me mordeu.

- O bicho?

- É.

- Ah, tá. E como isso?

- Eu tava distraído. Quando vi, nhac. Mordeu.

- É? Mas seu pé tá inteiro. Como ele não arrancou fora?

- Ou não tava com tanta fome, ou só me mordeu pra provocar, sei lá. Você acha que eu deveria perguntar se ele queria o pé todo?

- Devia. Porque sua história está tão fantástica que, na certa, esse jacaré fala. Ou melhor, não te responderia nada, porque é um jacaré educado que não fala com a boca cheia.

- Ele não parecia educado. Mordeu meu pé.

- Você vai ter que me provar, muito bem provado, que um jacaré mordeu seu pé. Primeiro porque não tem jacaré em São Bernardo. Segundo, se mordesse, arrancaria seu pé fora. Terceiro: você teria que estar muito distraído para um jacaré se aproximar sorrateiramente e nhac, te morder sem você perceber.

- Ele estava escondido atrás de um Passat, lá na rua. Quando eu passei pelo carro, ele saiu e nhac.

- Ah, então foi de caso pensado?

- Ou foi caso pensado ou ele tava tentando arrombar o Passat, como não conseguiu, desistiu e, muito bravo, se vingou no primeiro pedestre que passou.

- Isso não tá colando. Vai ter que fazer muito mais para que eu acredite.

- Bom, eu tirei uma foto do bicho me mordendo.

- Como?

- Na hora que ele estava avançando, eu peguei meu celular e pimba. Fotografei. Se eu te mostrar a foto, você acredita?

- Olha, em tempos de Photoshop, é meio difícil. Mas se tiver a foto no celular, acredito.

- Nada, tá em papel.

- Já revelou?

- Aproveitei que a Fotótica tá com preço bom.

- Tá, deixa eu ver.

- Aqui.



- Peraí. Você tava descalço vindo para cá? O jacaré te lambeu antes de te morder? E, por último: cara, preciso dizer que isso é um desenho? E mal feito ainda?

- Espero que um dia um jacaré de coma! Vou ficar de longe, rindo e desenha... ou melhor, fotografando tudo.


sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Uma Tarde com Valderrama

- Olha isso: Valderrama returns.

- Onde?

- Aqui. 



-  Valderrama sempre agrega. Pelo vídeo, ele tava com tanta fome de bola que comeria uma colômbia pascal inteira. Hein? Hein? 

- Era tanto tesão pra jogar que, se aparecesse uma colombina, ficaria pequeno pra ela também.

- Ah, sem dúvida. Ia, o Val, derramá todo seu charme sobre ela.

- Não sei por que, mas lembrei-me agora de um velho amigo meu, dos tempos de meninice. Eram dois amigos na verdade. Um no bairro de Ramos, outro no bairro de Olaria. Os dois, vejam vocês que coincidência, chamavam-se Val. O de Olaria era até um bom sujeito. Mas legal mesmo, amigo para todas as horas, era o Val de Ramos.

- Duro é quando ele cismava de passar aquele troço na cara. Era um horror o Val de rímel.

- Você não está confundindo com o Valder, que é meio bichona? Ele sim passa rímel. O Valder ama maquiagem.

- Confundi mesmo. Mas com outro cara meio bicha, um que gosta de ir para cima e para baixo galopando em animais exótico para todo lado. Não lembro o nome, mas sei que ele valdelhama para cima e para baixo que é uma beleza.

- Pô! Falando em galope, eu nem te contei! O Val de Olaria foi galopar um mangalarga outro dia na fazenda do tio dele, mas levou um tombo, foi pro hospital, tá todo quebrado, não pode nem se levantar. É muito triste ver o Val de cama.

- Ah, sim. E um toque pra você. Você vai casar aí e tudo mais, vai ter que montar a casa... Cuidado com uma coisa. Tem gente por aí empurrando uma caneca oval de café. Não compra essa não, que é enganação. Caneca é assim: se você usa oval, derrama o café todo.

- Boa dica. Vou comprar outro modelo. Tipo aquela caneca de muito bom gosto que vende na Oktober, com uma teta (tipo essa: http://www.leiloes.net/-CANECA-MAMA,name,150998619,auction_id,auction_details). Eu val de mama, então.

- Ótima ideia. Mas, se for importar a caneca de peitoca por navio, lembre-se de importar pelo porto de Rama. Certeza que chega no prazo. É bastante confiável a indústria naval de Rama.

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*agradecimento ao Juliano, que colocou o vídeo na roda, o que gerou essa montanha de trocadilhos entre mim, Costela, @daniellrezende.

*em 2009, o Valderrama também já tinha gerado outra onda de bobiça, mas no UOL Tecnologia: http://tecnologia.uol.com.br/dicas/ultnot/2009/05/26/ult2665u391.jhtm.



sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A Origem, Versão 2x1

- Tive um sonho horroroso com você essa noite.

- Desenvolva.

- Só de alembrar, me arrupio tudo.

- Aconte logo.

- Tá. Eu sonhei que estava associando fotos aos contatos do celular.

- Que sonho cibernético.

- É. Eu tenho esses sonhos, às vezes. Certa feita, sonhei que o Clodovil me pagava com um cheque pré-datado. E o banco do cheque não era banco, era a Seicho-no-ye. Pior que eu ia descontar e não tinha fundos.

- Também... cheque de igreja. Só faltava você receber um cheque do banco Praça é Nossa e achar que tem fundo.

- Pois é. Tenho muito sonho estranho. Daí, voltando ao meu sonho contigo, eu estava organizando os contatos no celular. E tinha contato de telefone, tinham contas de email, amigos do Facebook, do Orkut, tudo misturado.

- Sei.

- Aí, quando eu fui associar sua foto aos seus dados, fiz uma bobagem e associei seu número de celular às contas - fotos, email, Gtalk, Orkut - de uma tal de "Simplísmente Sheiloca Princesa".

- Sei.

- Aí, toda vez que o telefone tocava e era você, aparecia a foto da Simplísmente Sheiloca Princesa, abraçada com uma zebrinha de pelúcia, no visor do meu telefone.

- É isso é pesadelo?

- Você pergunta porque não viu o naipe dela.

- Ruim?

- Era, mas a zebra era pior. Aí, eu mexia, mexia, mexia e não conseguia resolver. Aí a saída que achei foi pegar seu celular e jogar fora, para você parar de me ligar. Pensei em te matar também, mas achei muito grave. Pensei em jogar fora meu celular, mas não queria me prejudicar, mesmo porque fiquei mais da metade do sonho acertado os contatos. Aí não tive saída a não ser jogar seu telefone fora.

- Aí isso resolveu seu problema?

- Não sei. Porque na hora em que eu estava fatiando seu celular com um cutelo afiado como o diabo, acordei.

- Eu sabia que você ia me contar toda essa história antes mesmo de você me contar.

- Como?

- Simples. Eu li esse texto antes de você publicar.

- Mas se não tava publicado, você ainda não havia interagido. E, sendo assim, você não poderia ter lido. Ou poderia?

- Poderia. Se essa conversar foi um sonho.

- Será?

- Nunca saberemos. A não ser que...

- Que...

- Seu celular toque. E seja eu te ligando e apareça a Simplísmente sei lá quem no visor.

- Ai.

- Ó lá. Tá tocando.

- É mesmo. Mas não é você. Você tá aqui na minha frente.

- Sim, mas se for um sonho, pode ser eu. E então... vai lá atender, vai.

- Ai, meu Deus.

- Vá!

- Tenho medo.

- Vai lá, pô. Quer apostar algo, para te encorajar? Eu aposto que não é um sonho. Você aposta que é. Que acha? R$ 100.

- Tá. Vou lá.

- Se eu perder, te pago com um cheque da Seicho-No-ye.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Um Conto Natalino Atrasado

- Tô com uma dúvida existencial.

- Pregunte.

- Por que você sempre fala "pregunte" em vez de "pergunte"?

- Essa é a dúvida?

- Não. Essa é outra. Estou para te perguntar isso faz tempo.

- Então pregunte.

- O quê?

- Sua outra dúvida, a inicial.

- E essa do "pregunte", não vai responder? 

- É urgente?

- Não. 

- Então, póxima. 

- "Póxima"?

- É. Póxima pregunta.

- Tá. Até quando a gente dá "feliz ano novo"? Estamos quase na metade de Janeiro e não sei como proceder. Já não sei se dou bom dia ou se dou feliz ano novo aos outros.

- Cara, acho que tem que dar "feliz ano novo" até o dia dos Santos Reis. Depois é facultativo.

- Dia do Sérgio Reis?

- Como?

- Quando é esse dia do Sérgio Reis?

- Hein?

- Aliás, o que acontece nesse dia, além de ser o marco do final da saudação de feliz ano novo? Por acaso as crianças vão a escola com um berrante nas costas?

- Que dia de Sérgio Reis?

- Na hora do intervalo, elas vão ao pátio, ficam em fila, colocam a mão no peito e cantam, em coro, "O Menino da Porteira"?

- Não fala dessa música. É muito triste. Mas eu disse Santos Reis, não dia de Sérgio Reis!

- E depois a cerimônia é encerrada com o Hino Nacional. Tocado com um berrante, naturalmente.?

- Ai.

- Tá. Mas que dia é esse aí?

- Seis de Janeiro.

- Esse não é o dia de Santos Reis?

- É. Foi o que eu disse.

- O Sérgio Reis foi alçado a santo? Agora além de Gaspar, Baltazar e Melchior temos o Sérgio Reis?

- Será inútil protestar, né?

- Imagina chegando na estebaria quatro caboclos, três de coroa e um com um chapelão de vaqueiro. Três deles com mirra, ouro, incenso e o rei Reis com uma porteira e um berrante no cangote. 

- Bom, pelo menos se eles tivessem problemas com os animais, o Sérgio Reis poderia domar as vacas e os cavalos que tinham por perto. 

- Só acho que o Sérgio Reis, como rei, deveria usar outro nome artístico. Adotar um ésse no final do nome cairia bem, por exemplo.

- Numerologia?

- Não, questão de estética. Não fica mais legal Rei Sergios Reis?

- Ele poderia subtrair um ésse do final do segundo nome. Rei Sérgio Rei. Não ficaria melhor?

- Ficaria. Ou poderia se bipartir e, tornando-se dois com o mesmo nome, seria o Reis Sérgios Reis.

- Imagina o incômodo que não ia ser o pessoal entrando em um estábulo com dois berrantes e duas porteiras. Iam ter que colocar o José pra dormir fora, para acomodar esses trambolhos incômodos.

- Já pensou que dois Sérgios Reis geraria, automaticamente, cinco reis magos?

- E magros. Porque o Sergião já tá só o pó. Se dividir em dois, sobrariam dois palitos. 

- Será que eles, fracos fracos, iam conseguir carregar duas porteiras e dois berrantes?

- Isso só quem poderia responder seriam os dois Sérgio Reis. Vamos perguntar a eles?

- Eu acho que só tem um por aí, por enquanto.

- Que pena. Vamos ter que esperar ele se bipartir para ficar sabendo.

- Realmente, um pena.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Feliz Ano Novo, Putada!

- Seu cadarço está desamarrado.

- E como é difícil andar assim hoje em dia.

- Você teve que se esforçar para não pisar nele?

- Pelo contrário, fiz questão de vir caminhando com o cadarço assim. Mas a cada 20 metros, alguém me parava para avisar do desamarro. Foi um inferno!

- É a solidariedade do cadarço desamarrado, que aflora o ano todo e, principalmente, nessa época. Aliás, feliz ano novo!

- Para você também. Como passou de réveillon?

- Hummm.

- O quê?

- Você sabia que assim como na língua portuguesa, a Real Academia espanhola resolveu fazer uma reforma ortográfica?

- Vão unificar tudo?

- Mais ou menos.

- E?

- Então, fiquei sabendo disso no réveillon. Aí, agora isso não me sai da cabeça. Estou pensando em mandar um e-mail pra essa academia da Espanha aí.

- Para?

- Quero sugerir duas mudanças. Eles chamam "boneca" de "muñeca". Além disso, "diminua" é "disminuya". Ficam muito ridículas essas palavras. Vou mandar um e-mail pedindo alteração.

- Quer que usem "boneca" e "diminua" mesmo ou vai dar ideia de outras palavras?

- O que me incomoda é "muñeca" e "disminuya". Se trocarem por qualquer outra coisa, está valendo. "Muñeca" pode ser neneca, rabeca ou panqueca. "Disminuya" pode seguir essa linha.

- Que linha? A da debiloidice total ou a de ser uma outra palavra em português que rime com a original?

- A de ser uma palavra que rime com "boneca". “Disminuya" pode ser neneca, rabeca ou panqueca, desde que um dessas não seja escolhida para ser "muñeca".

- Isso não faz o menor sentido.

- Não faz. Sabe outra coisa que não faz o menor sentido?

- O quê?

- "Don´t cry for me, Argentina."

- A música?

- É.

- Por quê?

- Já ouviu falar em país chorar?

- Não. Mas já ouvi falar em sentido figurado, licença poética, essas coisas. Você já ouviu falar nisso?

- Em país chorar ou em licença figurada?

- Olha...

- Não, nunca. Em nenhum dos dois. Estava pensando em aproveitar o e-mail que enviarei a essa academia espanhola e pedir uma revisão na letra da música.

- Acho que não é bem da alçada deles.

- Também acho. Mas já que vou mandar um e-mail mesmo, aproveito o "send".

- E vai sugerir o quê?

- Substituírem o "Argentina" da música.

- Pelo quê? "Neneca", "rabeca" ou "panqueca"?

- Pensei em Argemiro. Não ficaria legal "Don´t cry for me, Argemiro"?

- Ficaria lindo. Dependendo do naipe do Argemiro, claro.

- Pensei em um bem bonito. Barbudo e tudo.

- Nesse caso, pode mandar o e-mail com fé.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Um Pouco de Nerdice

- Imagina o trabalho que não dá pro Darth Vader tomar banho.

- Ele toma banho? Pergunto porque ele é meio homem, meio máquina. Então, se molhar, pode ser que enferruje.

- Bom, sendo meio homem, meio máquina, talvez tome meio banho. Aliás, meio banho normal, com água, sabonete e xampú. E meio banho de óleo, para limpar sua parte máquina.

- Xampú acho que ele não usa. É careca. 

- Pode usar por preciosismo. Nunca se sabe como são os hábitos higiênicos dele.

- Verdade. Mas se eu fosse ele, não tomaria banho. Ia ficar fedendo para cima e para baixo e ai de quem reclamasse.

- Sei não. Imagina o fedor dentro daquela fantasia de Darth Vader que ele usa. O cheiro ia matar. Ia ter que fazer força para prender a respiração. 

- O Darth Vader usa fantasia de Darth Vader?

- Usa. Ou melhor, não usa. Ah, sei lá. Se ele não usa fantasia de Darth Vader, usa do quê?

- Roupa normal. Para ele, claro. Pros outros é fantasia. 

- Então é assim: ele usa roupa normal, de gala, de passeio, de festa. O que é tudo a mesma coisa: aquele troço negro, aquele capacete chanel e uma capa preta. Quando os outros usam, é fantasia. Certo?

- Por aí. Por exemplo, peguemos o caso das baianas.

- O que as baianas têm?

-Quando elas saem de casa, estão vestidas à paisana. Quando estão vendendo acarajé, estão uniformizadas. Quando estão na ala das baianas, estão fantasiadas. Tudo depende do referencial adotado.

- Já te falei que tenho uma dificuldade danada em saber quando uma pessoa tá vestida de baiana ou quando está vestida para casar? Para mim, usou roupa branca cheia de rococó, pode ser noiva ou baiana. Sempre fico na dúvida.

- Dica. Se estiver com um acarajé na mão, é baiana. Se tiver um buquê, é noiva. 

- E se estiver com as mãos abanando?

- Noiva ou baiana em horário de folga. Aí é observar e esperar elas voltarem a praticar suas artes.

- Que artes?

- Venda de acarajé ou ritual em altar.

- Ritual em altar é noiva?

- Ou noiva ou Iemanjá. Aí vai ter que esperar acabar. Se quando acaba o ritual ela vai para a lua de mel, é noiva. Se voltar pro mar, é Iemanjá.

- Cara, incrível como você sabe das coisas.

- Eu estudei, meu chapa.

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Com a colaboração real do @ecostela


quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A volta do Tirulipa Júnior

– A mim o que importa é saber se o Tirulipa Júnior vai retomar a carreira.

– Quem é Tirulipa Júnior?

– O povo brasileiro tem memória fraca mesmo. É o filho do Tiririca, o deputado mais votado do Brasil. E se o Tiririca não puder mais ser palhaço na TV, nada melhor do que ressuscitar o Tirulipa.

– Agora eu me lembro. Mas é que sempre achei que o Tirulipa se parecia muito mais com uma miniatura do Genival Lacerda do que com o próprio pai. E se o pai se chama Tiririca, como o filho pode ser Tirulipa JÚNIOR...

– Você não entende excentricidades artísticas. Podia até ser Júnior Tirulipa que não tinha problema. Aliás, já conheci gente que tinha Júnior como primeiro nome.

– Ah, isso tem. Tem aquele lateral–esquerdo Júnior César. Lindo nome.

– E tinha o técnico Juninho Fonseca. Esse era mais legal ainda porque dá para considerar que o nome é um apelido, já que ele se chamava Alcides Fonseca Júnior. Acharam mais interessante passar o Júnior dele pra frente, e não é que ficou melhor mesmo?

– Bem melhor. Mas eu nunca vi acontecer isso com quem prefere usar Filho em vez de Júnior. Nunca vi um Filho Antunes, por exemplo.

– Bom, eu já vi gente que se chama Primo. Se alguém com esse nome tiver um filho, ele pode colocar Primo Filho ou Filho Primo que vai ficar estranho igual.

– E fica mais interessante ainda se esse Primo Filho tiver um sobrinho um dia. Aí o moleque ia poder se chamar Primo Filho Sobrinho. Deve ser duro ser parente de um cara assim.

– Duro demais. Imagina os netos perguntando: “onde está o vovô Primo Filho Sobrinho?”.

– Melhor deixar pra lá que isso está indo longe demais. Mas, voltando ao papo, porque o Tiririca não poderia mais ser palhaço? Acho que ele pode pelo menos cantar umas músicas nas sessões da Câmara, como o Suplicy faz no Senado. Aliás, o Suplicy podia dar um pulo lá e fazer uma dupla com ele.

– Verdade, acho que seria uma boa. E abriria espaço pra uma outra dupla sensacional, Supla e Tirulipa Júnior, os Filhos do Congresso.

– Perfeito. Agora vou ficar aqui pensando em uma maneira de reativar a carreira do Genival Lacerda. 

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Eu Conheço Alguém que Fala Baleiês

- Minha memória anda cada vez pior. Já te falei isso?

- Isso o quê?

- Ih, esqueci.

- Repete, pô.

- Não, é sério. Esqueci mesmo. Mas mudo de assunto.

- Mude.

- Minha memória anda cada vez pior.

- É? A minha também.

- Já te falei isso?

- Nunca saberemos. A minha memória vai de mal a pior.

- A minha chegou em um ponto que não sei se li algo, se vi na TV, se vi no cinema ou se sonhei.

- Eu, pelo menos, fico feliz várias vezes pelo mesmo motivo. "Vai casar? Parabéns! Ah, já disse? E o que eu disse da primeira vez? Parabéns, também? Viu! Eu não estava mentindo."

- Minha situação é tão ruim que falo uma coisa que acho que inventei e posso estar plagiando Shakespeare sem saber.

- Outro dia, eu estava contando uma piada, perdi o fio da meada e, quando vi, estava recitando Carlos Drummond de Andróide.

- Andrade.

- Não, era Carlos Drummond de Andróide mesmo. Não conhece?

- Não. É bom?

- Uma máquina de escrever. Uma máquina!

- Ai, ai.

- O quê?

- Me diz que você fez esse trocadilho infame com o Drummond só pra emendar essa piada.

- Que piada?

- Carlos Drummond de Andróide.

- Como?

- Carlos Drummond de Andróide, o poeta que é uma máquina.

- Hahaha. Muito boa. Gostei da piada. Posso usar?

- É sua, pô.

- É?

- É.

- Ah, então não espalha. Não achei tão boa assim.

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com ajuda involuntária da Juliana.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Amarração para o Amor

- Estou pensando em entrar no ramo de amarração para o amor e trazer a pessoa amada em até 6 dias.

- Sempre que falam "estou saindo com uma pessoa" e não especificam o sexo, imagino que a "uma pessoa" é do mesmo sexo da pessoa que está me contando isso.

- Eu estou aqui falando de empreendimentos, de mudar de vida, de replanejar toda a minha existência e você vem com esse papo homofóbico?

- Que papo homofóbico? Eu não disse que acho isso bom ou ruim. Só fiz um desabafo, pô.

- Desabafo? Ui, ui, ui. 

- Pronto. Agora isso. Mas fale, você quer entrar no ramo da macumbaria?

- Não.

- Ué, você não disse que ia entrar no ramo da amarração para o amor? E que iria trazer a pessoa amada em até 3 dias?

- Disse 6 dias, não 3. Mas eu não falei em macumbaria.

- E como vai fazer isso sem ser por meio de forças sobrenaturais?

- Pensei em montar uma empresa de busca e apreensão de humanos.

- Tipo sequestro?

- É assim: a pessoa me contrata. Diz quem ama. Eu vou lá, pego a amada, amarro e trago. Como daqui até o Maranhã dá 3 dias de carro, acho que consigo ir e voltar em 6 dias. Por isso trabalho com esse prazo estendido. 

- Isso se a pessoa não oferecer resistência, claro.

- Por isso eu disse que trago "a amada". Vou começar só com mulheres, já que são mais frágeis. Depois, com o negócio crescendo, passo a trazer "o amado" e de avião, para não perder prazo.

- Qual a diferença disso para um sequestro?

- Estou fazendo isso pelo amor. Não por dinheiro.

- Pelo amor alheio e unilateral, já que a outra pessoa vem amarrada.

- Não, pelo amor bilateral em uma situação trilateral. A pessoa que me contrata ama o amarrado. Eu amo a humanidade e o amor das pessoas. Só quem sai perdendo é o amarrado. Mas como não há felicidade plena, acho que 2/3 de uma relação estando felizes, o 1/3 restante tem que se contentar com o que tem.

- Você trabalhará com travestis também?

- Vai começar com homofobismo de novo?

- Não. É porque tecnicamente eles são homens, mas na prática são mulheres, certo?

- Errado. São outro gênero.

- Nem vou perguntar qual. Vou tocar o assunto se não a gente não termina esse papo hoje.

- Tá com pressa?

- Estou. 

- Pronto, perdeu a chance de me contratar. Meu trabalho leva o dobro do tempo do dos outros, mas trago a pessoa inteira, queira ela ou não. 

- Não pretendia contratar seus serviços. Quando quero alguém, vou lá e luto por ela eu mesmo.

- Luta? Ué, não era você que era contra sequestro?

- Luto em sentido figurado. Vou, me aproximo, galanteio e seduzo a outra pessoa.

- "Outra pessoa"? Bicha.


quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Uma onda retrô meio diferente

– Se eu pudesse ter um superpoder, queria ter retrovisão.

– E um retrovisor não resolve isso? 

– Resolve, mas só quando estou dirigindo. E eu acho que retrovisão seria importante em todos os momentos da vida.

– Bom, quando você diz a palavra “retrovisão” parece que é realmente um superpoder muito bom. Mas quando se descobre que é um simples espelho retrovisor, perde um pouco a graça.

– Mas eu me sinto muito poderoso quando entro no carro e percebo que posso ver o que está atrás, como se tivesse olhos nas costas. É um grande invento da humanidade. Dão muito valor a quem inventou o carro, mas nenhum a quem teve a brilhante ideia do retrovisor.

– O Fagner tem uma música que se chama Retrovisor...

– Se for pra ter que escutar Fágner, eu preferia ter retroaudição também...

– E como seria isso?

– Sei lá, acho que escutar tudo de trás pra frente.

– Como um superpoder, acho que isso serviria apenas para decifrar todas as mensagens subliminares escondidas em discos da Xuxa e dos Beatles.  

– E para embaralhar as músicas do Fágner e torná–las audíveis, oras.

– E de retro–olfato, você não gostaria?

– Parece meio complicado. Se eu sentisse cheiro de feijão novinho quando visse um prato cheio de pedras, por exemplo, com certeza ia comer e quebrar os meus dentes.

– Retro-olfato não seria sentir os cheiros ao contrário?

– Sim, mas e qual é o contrário de feijão?

– Deixa pra lá. 

– Mas e você, se pudesse ter um superpoder, qual seria o seu?

– Não sei, acho que telepatia.

– Telepatia? Hmm. No sentido linguístico, é o contrário de retrovisão.

– Como assim?

– Bom, você acha que retrovisão é um nome muito bom pra um poder mais ou menos. Eu acho que telepatia é um nome péssimo pra um poder bom.

– E por quê?

– Parece nome de doença. O cara pegou uma telepatia braba. Como já tinha cardiomiopatia, a coisa ficou feia.

– E você teria um nome melhor pra isso?

– Óbvio. Retrofala.

– Captei. Retrofala aqui com a minha mão...  

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Mais Borboletas

- Hoje eu devo estar com uma energia muito boa.

- Por quê?

- Vindo para cá, quase todo mundo que passei me sorriu. 

- Como é?

- Ah, das pessoas que cruzei, quase todas me cumprimentaram ao passar por mim. A maior parte sorriu. Umas poucas, homens e mulheres,  até chegaram a mandar uns beijinhos meio esquisitos.

- Como assim meio esquisitos?

- Colocaram a mão perto da boca, dando a ideia de beijo. Mas em vez de beijar a mão e assopar, só esfregavam o polegar. Enfim, eram beijos estilizados.

- Será?

- O que mais seria?

- Talvez estivessem indicando para você limpar a boca. Tá cheio de pasta ao redor dos seus lábios. Isso também explica os sorrisos.

- Sério?

- Sério, vai ver no espelho. 

- Por que você não me avisou antes?

- Você acabou de chegar. E já veio com esse papo maluco.

- Ah é.

- É muita pasta. Meu Deus!

- Sabia que tinha esqucido de algo hoje.

- Esqueceu de enxaguar a boca?

- É. Eu estava lá escovando os dentes, aí passou uma borboleta e me distraí atrás dela.

- No seu banheiro entram borboletas?

- Aí vim atrás dela. Quando vi, estava na metade do caminho para cá. 

- No seu banheiro entram borboletas?

- E se tem uma coisa que me distrai são borboletas, sabe? E era daquelas bem bonitas, azuis.

- No seu banheiro entram borboletas?

- Aliás, olha uma ali na janela. 

- No seu banheiro entram borboletas?

- Que coisa mais bonita....

- Hey, onde você tá in... hey! 

- ...

- Esqueceu de novo de limpar a boca. Pelo menos, vai ganhar muitos sorrisos. Ainda mais porque a braguilha tá aberta também.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Elisa Samúdio e CSI Diadema

- E esse lance do advogado do Bruno ser viciado em crack, hein?!

- Como é?

- O advogado do Bruno, o goleiro.

- O do Samúdio?

- Ele era goleiro do Flamengo, burro. Que time é esse Samúdio?

- Perguntei se o Bruno a que você se refere é o do caso Elisa Samúdio.

- Isso. Ele.

- O advogado dele o quê?

- É viciado em crack.

- Que crack, o de fumar?

- É.

- Com colher e potinho de Yakult?

- É, porra.

- Ah, rapaz. É viciado, é?

- É.

- Espero que se recupere logo. Torço por ele.

- Eu também. Mas não vou resistir a fazer um trocadilho.

- Eu faço antes. Advogado do crack. Advogado do craque. Droga de advogado. Etc, etc.

- É. Essa tava fácil até para quem não é "viciado" em trocadilho.

- Tava quicando. Mas mudando de assunto, eu já não duvido de nada desse caso. Nem se a Samúdio aparecer viva. Dizendo que era viciada em se fazer de morta.

- Legal mesmo seria se o Mano Menezes convocasse o Bruno para os jogos de dia da seleção.

- De dia porque...

- Porque à noite ele teria que voltar pra cadeia. Acho que não pode passar a noite fora. Aí já é demais.

- Cara, se a Samúdio aparece viva, nem sei o que acontece.

- Nem eu. Mas iam chamar o CSI Diadema para investigar.

- CSI Oratório.

- CSI Campo Limpo.

- CSI Jardim Ângela.

- CSI Jordanópolis.

- CSI Vila Mimosa.

- Cara, tava pensando em fazer um curso de vigia só para formar o CSI Vila Mimosa.

- Perda de tempo. Na Vila Mimosa nunca, nunca tem crime.

- Ah, mas então, se eu fosse vigia, não ia investigar mesmo. Ia olhar para a pessoa morta e dar o veredito. "Morreu tossindo? Foi tuberculose. Morreu tossindo muito, muito? Tuberculepra. Morreu de repente, sem tossir? Tuberculose fulminante." É até melhor que não tenha crime lá, só morte natural. Assim posso só olhar, dizer o que foi e ir pro meu canto terminar de fumar.

- Para isso, você nem precisa fazer curso de vigia. Basta ficar na Vila Mimosa num canto. Viu alguém caindo, vai lá, balbucia o que quiser e se manda.

- Mas aí trabalharia na ilegalidade. E não gosto disso. Prefiro fazer tudo dentro dos conformes.

- E pra dar palpite na Vila Mimosa você tem que ser vigia?

- Para dar palpite, basta eu saber falar. Mas eu quero montar o CSI Vila Mimosa. E, pra isso, só se formando.

- Em vigia?

- Perfeitamente. Quero virar crack no assunto.

- Nem começa.

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Com a colaboração involuntária do Daniell (que tá aqui e aqui), da BruxaOD, do Fábio Primo (que é um excluído digital e não tem nada desse negócios modernos) e de mais um monte de gente do GoogleGroups do Morfina.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Nanotecnologia e Fones de Ouvido

- A tecnologia só me fode.

- Tomou choque enfiando o dedo na tomada?

- Já, várias vezes. Mas essa tecnologia, eletricidade e tals, é velha. Estou falando da nanotecnologia, meu chapa.

- A nanotecnologia só te fode?

- Em termos. Por exemplo, quando vejo uma pessoa mexendo a boca ao longe, nunca sei se ela está com um fone de ouvido, conversando com alguém por celular. Ou se é louca da cabeça e está realmente falando sozinha.

- E o que a nanotecnologia tem a ver com isso?

- Ué, se os fones não estivessem tão pequenos, eu os veria de longe. E se não os visse, faria meu decreto: a pessoa em questã é louca.

- Você sabe que nanotecnologia não tem a ver com o tamanho dos fones, né?

- E tem a ver com quê, então?

- Com construções a partir de escala atômica, no caso, escala nano.

- Bom, de qualquer forma, se os fones não fossem tão pequenos, não me confundiriam tanto.

- E por que essa encasquetação com fones de ouvido e pessoas falando sozinha ou ao telefone?

- Se eu não sei se a pessoa é louca ou se está falando ao celular, como posso pará-la e pedir informação?

- Se a pessoa estiver falando ao celular, é de bom tom não interromper. Se a pessoa for louca, é uma boa ideia não lha pedir orientações. Em resumo: vendo alguém mexendo a boca e soltando palavras ao vento, não faça perguntas.

- Quer dizer que os fones de ouvido não têm qualquer relação com meu problema? Tampouco a nanotecnologia?

- Isso. Mas lembre-se de uma regra simples para resolver seu problema: pessoa conversando, não interrompa.

- Mas e se eu estiver perdido?

- Pergunte a quem estiver com a boca fechada.

- E se essa pessoa for louca e muda? Ou se for telepata e estiver se comunicando com outra pessoa mentalmente?

- Mas você complica as coisas, hein?

- Só estou supondo.

- Nesse caso, estando perdido, não pergunte a ninguém. Olhe para o céu e se guie pelo Cruzeiro do Sul.

- E se for de dia?

- Espere anoitecer.

- E se for bem de manhazinha?

- Pegue uma bacia, encha d´água. Pegue uma agulha imantada, coloque sobre uma rolha e as ponha na bacia. Pronto, você tem uma bússola que te guiará.

- E se...

- Ah, chega. Vou embora.

- Não... não... volta... droga. Me deixou falando sozinho de novo. Agora, vou ter que conversar comigo mesmo e procurar as respostas. Diabo. Bom, supondo que eu não tenha água para colocar na bacia, será que coca-cola é um bom sucedâneo? Supondo que sim, então...

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

"O apito seria a minha cadeira de rodas se eu fosse um falso cadeirante"

- O apito seria a minha cadeira de rodas se eu fosse um falso cadeirante.

- Como é?

- É que eu assobio tão bem, mas tão bem, que quando o faço, até evito fazê-lo por mais de 2 minutos.

- Não entendi.

- É que eu tenho a sensação de que se assobiar por mais de 2 minutos, vou tomar uma pedrada, confundido com um passarinho.

- Como?

- Ou tomar uma estilingada. Dá na mesma. Eu mesmo, assobiando distraído certa feita, achei que havia um passarinho assobiando por perto.

- Do que você está falando?

- Ou outra vez, mais distraído ainda, achei que eu fosse um passarinho. Foi horrível. Aí eu queria me olhar no espelho, para ver se eu não tinha virado um passarinho. Mas não conseguia ir, porque estava encantado por uma espécie de canto das sereias. Só que no lugar de canto, era assobio. No lugar de sereia, um sereio. Ou melhor, um boto. Ou melhor melhor, eu.

- Você tá passando bem?

- Outro motivo que me leva a não assobiar muito e muito menos em público é que eu acho que podem vir uns homens maus e me colocarem em uma gaiola gigante. 

- Cara, não estou entendendo nada.

- Essa gente é muito gananciosa. Meu Deus! Iam me colocar nessa gaiola e eu ficaria lá, assobiando, assobiando. Se bobear, até furariam meus olhos, para eu assobiar melhor. 

- No começo eu estava temendo pela sua sanidade. Agora, temo pela minha integridade física, fechado com você nesse ambiente.

- Já te falei que eu aprendi a assobiar antes de falar?

- Ah, não. Aí, não. Agora exagerou. Nem lembro como você começou esse papo de louco. Mas agora exagerou.

- Comecei dizendo que o apito seria a minha cadeira de rodas caso eu fosse um falso cadeirante.

- O que isso quer dizer?

- É que quando eu penso em assobiar, eu pego um apito do bolso e apito. Assim, evito tomar pedradas, ser preso, ter os olhos furados. Eu não preciso dele, mas uso, para disfarçar minha habilidade. Como eu faria se não precisasse de cadeira de rodas para andar, mas as usasse para disfarçar meu andar lindo e maravilhoso.

- Você acha que se você tivesse um andar lindo e maravilhoso, iam te dar pedradas, te prender, furar os olhos? Porque não vejo perigo em andar belamente.

- Ah, as pessoas podem querem me colocar umas cordas e me usar de maionete, demonstrando meu belo andar. Assim, se fosse o caso, eu usaria cadeira de rodas.

- O correto é assobio ou assovio?

- Sei lá.

- Ué, você não era o especialista em assobio? Quase um passarinho?

- Sim. Mas não sou espeçalista em português.

- Percebe-se.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Police on my back, na voz de Cher, diretamente do Piritubão

- Tem um bife aí?

- Por que diabos você quer um... argh! O que aconteceu com seu rosto?

- Por isso quero um bife, gelo ou algo assim. 

- Você apanhou na rua?

- Pode-se dizer que sim.

- Que aconteceu?

- Estava vindo para cá...

- Sei.

- Aí começou a tocar "Police on my back" do Clash. 

- Bela música. Dá vontade de correr.

- Foi o que fiz. Estava sobre uma passarela da Anchieta. Comecei a correr e cantar "police on my back, police on my back".

- E caiu lá de cima de cara no chão?

- Só se eu fosse imortal pra cair lá de cima e continuar vivo, só com a cara amassada como sequela.

- É verdade.

- Bom, aí nessa de correr e cantar "police on my back", cruzei com um cidadão, que resolveu correr atrás de mim.

- Por quê? Achou que era pega-pega?

- Nada. Era gringo. Inglês. Achou que eu tava sendo perseguido pela polícia e quis me capturar.

- Capturou?

- Capturou. Me pegou, meteu minha cara no chão e me imobilizou. Aí, chamou a polícia.

- E você foi preso?

- Fui nada. Chegou a polícia, esclarecemos a confusão. Eu servindo de intérprete para ele, inclusive. 

- Caramba.

- Pois é. Aí os policiais chegaram, entenderam o mal-entendido e perguntaram se eu queria fazer queixa contra o gringo.

- E você fez?

- Claro que não. O cidadão tava muito bem intencionado. Achei que colocá-lo na cadeia ia fazer um mal para a população, que precisa de gente bem intecionada assim para salvá-la.

- E ele te pegou de jeito, hein? Sua cara tá fodida de todos os lados.

- Ah, mas a maior parte dos hematomas veio do ponto de ônibus.

- Como é?

- Bom, esclarecido tudo, voltei a caminhar. Vinha para cá. Lá pelas tantas, distraído novamente com a música...

- Ouvindo mais Clash?

- Não. Cher. Ela ainda me emociona, sabe?

- Sei.

- Bom, aí estava distraído, passando por um ponto de ônibus, quando um cidadão foi dar sinal para o Circular parar e enfiou o dedo no meu olho.

- Que zica.

- Pois é. Aí, parei e fiquei cego. Porque o olho esquerdo não tava dos melhores, por conta da confusão com o gringo. E o direito foi dedado pelo popular que queria pegar o busão.

- Puta história triste, meu.

- Pois é. Aí parei para esperar a visão voltar. Nisso, a população queria muito pegar o Circular e avançou. Eu estava entre a porta e essa horda. Resultado, fui, cego, espremido, espancado, socado, humilhado.

- E como chegou aqui? Além de dolorido e mancando, que é o que se percebe de longe.

- Bom, tentei com todas as minhas forças resistir, mas não teve jeito. Me socaram para dentro ônibus. Por sorte, era o Circular. Ele me deixou exatamente onde o peguei. Aí segui meu caminho e cheguei aqui.

- Por sorte?

- Podia ser pior. Podia ser o Penha-Lapa. Aí, a essa hora, eu estaria passando em Quixeramobim e ainda não teria chegado.

- O Penha-Lapa passa em Quixeramobim?

- Passa. Passa em todos os lugares do mundo, exceção à Pirituba, que é perigoso demais.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Minhas impressões sobre The Walking Dead

- Como é a expressão mesmo?

- Qual?

- A do gato que tem medo de água suja.

- "Gato escaldado tem medo de água fria?"

- Não sei. Não tem uma que diz que gato tem medo de água suja?

- Não lembro. Só lembro dessa aí: "gato escaldado tem medo de água fria". A qual, diga-se, é bem redundante.

- Por quê?

- Ah, porque gato tem medo de água de qualquer jeito. Bastava dizer "gato escaldado tem medo de água".

- Pelo seu ponto de vista, até o "escaldado" é desnecessário. Já que gato de qualquer jeito tem medo de água de qualquer jeito, a expressão poderia ser "gato tem medo de água".

- Verdade. Ou, para ser mais específico e deixar tudo bem claro, "gato de qualquer jeito tem medo de água de qualquer jeito", como eu disse ali em cima.

- "Onça tem medo de sopa".

- Como?

- Onça me parece um gato de qualquer jeito. Assim como sopa me parece uma água de qualquer jeito. Vale a expressão?

- Com essa explicação precisa, não posso fazer outra coisa a não ser aceitar.

- "Pantera tem medo de groselha".

- Tá, não força.

- "Coruja tem medo de Yakult".

- Deu, né?

- Por falar em deu, assisti a "Walking Dead".

- Vi também. Sensacional, não?

- Gostei demais. Deve agradar a qualquer pessoa que goste de coisa com morto-vivo.

- E existe quem não goste de morto-vivo?

- É. Acho que não. O que me entristece, que acho uma pena, é que Walking Dead vá ter vida curta.

- Por quê?

- Achei a produção muito cara. Duvido que o pessoal tenha bala para aguentar muitos episódios nesse nível de superprodução.

- Taí, você tem um ponto.

- Pois então.

- Mas se eles quiserem economizar, podem contratar mortos-vivos de verdade para atuar.

- Será?

- Batata. Aí economizam na maquiagem dos atores.

- Sem contar que morto-vivo cobra bem menos do que ator norte-americano para trabalhar. O cachê seria uma miséria.

- Sério que são tão baratos?

- Sim. Mão-de-obra não qualificada. E melhor: não são sindicalizados.

- Sem contar que no camarim, não seria necessário btar muita comida. Uns cérebros e umas alfaces já os deixariam contentes.

- Eles comem alface também?

- Se não tiver cérebro dando sopa.

- Sei.

- E se estiverem morrendo de fome, naturalmente.

- Ou vivendo de fome.

- Naturalmente.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Dilma versus Serra

- Vou votar na Dilma.

- Tem algum bom motivo para isso?

- O Serra é careca. Não sou a favor de presidentes carecas. Aliás, quanto mais cabelo, melhor. Até minha vó sabe que o melhor presidente que tivemos no Brasil até hoje foi o Itamar, o qual, não bastasse uma esvoaçante cabeleira, ainda tirava onda de topete.

- Deixa ver se entendi. Você vai votar na Dilma porque o Serra é careca. Certo?

- Não só isso. Mas é que o outro motivo não sei se é politicamente válido.

- E esse do careca é?

- Não acabei de explanar sobre isso, mencionando presidentes anteriores, penteados e até minha vó?

- Sim.

- Pois então.

- Tá. E qual é o motivo politicamente inválido para votar na Dilma.

- Acho ela gostosa.

- Como é?

- Acho ela meio gostosa. Já o Serra, zero sex appeal.

- E você quer ter uma presidenta gostosa?

- Claro. Melhor do que ver o careca falando na TV regularmente. Ela é uma comuna boa. Já viu ela posando com as armas? Uma beleza.

- Você tá realmente falando sério que acha ela meio gostosa?

- Por que todo mundo pergunta isso?

- Você já falou isso para outras pessoas?

- Era para guardar segredo?

- Não. Claro que não.

- Ah, bom. Porque comentei por alto com minha namorada e com os pais dela.

- Deus!

- Eles falaram o mesmo. Na mesma sequência. Primeiro perguntaram se eu estava falando sério. Depois, disseram "Deus!". Na sequência, ficaram medindo de alto a baixo minha namorada.

- Então você está falando sério, correto?

- Estou, cacete.

- Nesse caso, indico que vote no Serra.

- Mas eu já disse que não voto em careca.

- Eu sei. Mas se a Dilma perder, como toda boa candidata e ex-BBB e aspirante a fama, ela tem boas chances de sair na Playboy. Não seria melhor para você?

- Não curto a Playboy. As fotos são muito pudicas.

- São mesmo. Bom, se te consola, se ela perder por uma margem grande de votos, ela pode posar na Sexy. Prefere assim?

- Quanto menos votos, melhor?

- Quanto menos votos, melhor para você.

- Se ela tiver zero votos, estrela algum filme na Brasileirinhas?

- Hummm.

- Pô, um filme chamado "Dil-e-uma noites... de sexo" seria legal, né?

- "Roça roça na Roussef" seria mais.

- Mano, agora sim. Me convenceu. Vou votar no Serra. Mesmo porque, se ele perder, faz algo no Brasileirinhos, né? E acho que ninguém quer isso.

- Ninguém, não sei. O pessoal que faz títulos para filmes pornográficos deve estar torcendo para ele perder. Fazer trocadilho pornô com Serra é muito, muito mais fácil do que com Dilma.

- É mesmo?

- Uh. Além de nomes como "Serra serra na muchacha", dá ainda para inventar coisas com careca.

- Argh.

- E com tucano. Tipo tucano erótico e daí para baixo.

- Tem espaço coisa daí para baixo?

- Rapaz, o poço da política e da pornografia é fundo. Muito fundo.

- Percebo.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Um Velho me Mordeu!

- Um velho me mordeu!

- Como é?

- Um velho me mordeu!

- É gíria?

- Não. De fato, um velho me mordeu.

- Um velho o que?

- Um velho gente.

- Um velho gente?

- Um senhor idoso, que estava com a cabeça para fora de um portão, resolveu abrir e fechar a boca, prendendo meu braço entre os dentes, bem no momento em que eu passava a sua frente.

- Cacete! Um velho te mordeu!

- É o que estou dizendo.

- E por quê? A troco de nada?

- A troco de nada. Aparentemente, eu estava no lugar errado na hora errada. Passava tranquilamente em frente a um portão de uma casa bem arborizada. Quando senti, nhac.

- E aí?

- Bom, achei que fosse um cachorro e me esquivei, gritando. Quando olhei para o lado, já do outro lado da rua, vi que era um senhor idoso.

- E que desculpa ele deu? 

- Balbuciou uns troços, mas não entendi. A dentadura saiu junto com meu braço da boca dele. Caiu no chão e eu não entendi nada do que ele falava.

- Estaria se desculpando?

- Sei lá. Sei que, recobrado do susto, deixei o velho balbuciando sozinho e continuei no meu caminho.

- Nem pegou a dentadura dele do chão?

- Pensei nisso. Mas vai que ele sai modendo mais gente. 

- Mas vai que ele quisesse se desculpar.

- Nunca saberemos.

- Falando em nunca saberemos, vamos falar sobre os mineiros?

- Você vai fazer piada com pão de queijo?

- Não.

- Com goiabada com queijo?

- Não.

- Com o Itamar?

- Também não.

- Com Governador Valadares?

- Não.

- Com o Clóvis Bornay?

- O Clóvis Bornay é mineiro?

- Sei lá. Mas ele sempre cabe em piadas.

- Bom, de qualquer forma, não vou não.

- Então o que diabo você quer falar sobre eles?

- Queria saber se eles vão ganhar hora extra por todos esses dias sob a terra. Acho, inclusive, que dava para pagar também adicional de insalubridade.

- Hummm.

- Hummm o quê?

- Sei lá. Acho que devia tá uma treta danada no inteiror daquele buraco, hein.

- Interior treta?

- De fato.

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interiotreta é a nova empreitada de @buchabick, ao lado de @fksr86, e retrata o interior desse mundão véio sem fronteira; no twitter, @interiortreta.


quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Conversa Fática é o Ópio do Povo

- Por que você tá com esse branco na cara?

- Tava vindo para cá e respirei um gás tóxico que saiu de um buraco na parede. 

- De um "fuio"?

- "Fuio"?

- É. Um "buiaco" na "paiede" é um "fuio".

- Ai, ai.

- Mas conte aí, que gás tóxico é esse? Você tá morando na Vila Chernobyl?

- Não.

- Passa por Cubatão ao vir para cá?

- Nem.

- Então, que gás tóxico é esse?

- Sei lá. Eu tava vindo e entretido com a vida, coisa e tal. Ouvindo um pouco de Husker Du, um pouco de Adriana Calcanhoto, essas coisas, para desestressar.

- Adriana Calcanhoto estressa, isso sim.

- De qualquer forma, tava vindo para cá e, de repente, senti um calor forte na orelha. Quando olhei, vi um vapor branco incrível saindo do buraco no meio da "paiede". Me senti tonto. Tentei correr, mas não tive ar. Cambaleei uns metros e vi que ia desmaiar. As coisas ficaram brancas e "pá", desmaiei. Acordei com umas três senhoras sobre mim, tentando me acordar e comentando entre si, ao mesmo tempo "tá bêbado". Aí ia me levantar e apareceu uma dona bem bonita, se dizendo médica. Resolvi fingir que ainda tava inconsciente só para ver se ganhava um boaca-a-boca ou coisa assim. Ai ela se aproximou e quando achei que ia me beijar, disse "é, tá bêbado mesmo. Já já acorda." Elas todas me abandonaram. Aí quando vi que não tinha ninguém por perto, levantei e vim para cá.

- Mentira!

- É mesmo. Na verdade isso aqui é pasta. Vou lavar. Valeu por ter avisado.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O Velho Truque dos Mortos-Vivos Quando o Assunto Acaba

- E a ressurreição capilar italiana, hein?

- Que porra é essa?

- Sei lá. Tava vindo para cá, passei na frente de um salão e vi isso escrito.

- Salão do que? Porque, pelo nome, pode ser um salão de levanta defunto, um salão de cabelereiro ou um salão de italianos.

- Não reparei. Mas, pelo nome, julguei ser cabelereiro. 

- Ora, ora, que inocência, meu caro. 

- Pois é, agora percebo. Mas o que diabo é um salão de italianos?

- Uma sala grande cheia de gente que nasceu na Itália, ué.

- E para que serve?

- Para reunir italianos.

- Para conversar?

- Não. Para gesticular e gritar, já que é isso que eles fazem quando se reúnem.

- Curioso. Não sabia que isso existia. 

- Você sabe muito pouco da vida, pelo visto.

- E o que é um salão levanta defunto?

- É uma sala grande com um morto no centro. O qual, depois de uma pajelança qualquer, deixa de ser morto e passa a ser vivo. 

- Vira morto-vivo? 

- Não seja inocente. Claro que não.

- Vira o que? Ex-morto?

- E quantos ex-mortos você já viu por aí?

- Sei lá. Eles têm algum sinal característico para que eu saiba que são ex-mortos?

- Falam com um forte sotaque.

- Ah, então já vi um. No caso, o Henri Sobel. Ele fala com um forte sotaque e, como acho que nasceu no Brasil, é batata que é ex-morto.

- Não. O sotaque do Sobel é provindo dei lá de onde. De ex-morto é provindo do inferno mesmo.

- E como é o sotaque do inferno?

- Cheio de palavra de baixo calão.  Esse povo fala gritando também. E gesticula. Rapaz, como gesticula.

- Caramba, então os italianos são todos ex-mortos?

- Nem todos. Só os que voltaram do além vida. O restante é descendente. Mas como sabemos, é muito difícil mudar hábitos adquiridos na infância.

- Compreendo. Mas por que chegamos neste assunto mesmo?

- Que assunto?

- De ex-morto. 

- Rapaz... não lembro. 

- Deixa eu ver... deixar eu ver... 

- Hummm.

- Também não lembro. Pior que quando encasqueto com algo que quero lembrar, quase fico louco. Não durmo, caem uns fios do meu cabelo. Tudo de nervoso.

- Contra calvície, ouvi falar em um troço bom. Aliás, acho até que foi hoje. Acho. 

- Hummm. Seria um troço tipo ressurreição capilar italiana?

- Errr. Não. Acho que era babosa mesmo.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Já chegou fatiando o perobo, coisa e tal

- Hoje pintou lá em casa a mulher que verifica se tem foco de dengue em domicílios.

- De novo?

- Pois é. Ela já é a oitava vez que ela aparece esse ano.

- Acho que tá querendo graça.

- Como é?

- Acho que ela tá querendo coisa com você. 

- Hein?

- Ah, para aparecer tanto, só pode ser isso. Quer sexo fácil. Ela vai de decote, minissaia ou coisa assim? Fica se insinuando, usando termos-chave como "picadura de mosquito", "eles, assim como eu, estão ovulando" ou "estou cheia de dengo" e coisas do tipo?

- Cara, você acha que eu moro onde? Em um filme pornô?

- Não. Mas se morasse, seria gozado. 

- Ai, ai.

- Exagerei?

- Mais ou menos. Bom, ela não vai decotada e nem usa esses termos estranhos. Ela diz "vim ver se tem foco de dengue". Eu digo "fique à vontade". Ela entra, dá um role no quintal, volta e diz "obrigada".

- Só isso? Sem insinuações mil? Não te chama de gatinho ou quer ver se tem dengo dentro das suas calças?

-  Não, não é bem só isso.

- A rá! Eu sabia. Tem mais, né? Ela aparece à noite, se fingindo de entregadora de pizza e diz que tá louca para entregar o peperoni? Ou chega no meio da tarde se dizendo encanadora e querendo lubrificar os canos coisa e tal?

- Nem. Hoje ela disse que veio ver o foco da dengue porque o mosquito tá sofrendo uma mutação severa. E que essa mutação é tão, mas tão perigosa que todo cuidado é pouco.

- Mutação?

- É.

- Ele vai crescer indefinidamente, ter o exoesqueleto reforçado, criar pêlos nas patas e se alimentar de carne humana?

- Onde você acha que vivemos, no mundo do Alien?

- Não tem nada disso?

- Não. Só falou da mutação. Deu tchau e foi embora.

- Rebolando?

- Não reparei.

- Deixou o telefone?

- Não. Só disse para eu tomar cuidado com a água parada em locais como vasos ou pneus.

- Pneus?

- É. Disse que se eu tivesse pneus velhos, para levar à borracharia.

- Borracharia?

- É.

- A rá! Eu sabia! Eu sabia! Borracharia! A rá! Garanhão!

- Para o bem dessa moça, ou de qualquer outra que trabalhe com dengue, espero que não passe na sua casa para verificar focos de dengue.

- Já passaram.

- E aí?

- Não deixei entrar. Não sou dado a sem vergonhices.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

A Origem, Bebê de Rosemary e histórias bíblicas

– Eu tenho um tio que toca cavaquinho. Ele não toca lá muito bem... Mas digamos que é melhor que ouvir uma transa de gatos. A questão é: o que ele faz é arte?

– Você já ouviu uma transa de gatos?

– Já. É bem estranho, soa como um bebê chorando desesperadamente. Uma vez eu sonhei com um bebê que foi colocado num rio dentro de uma cesta de vime. Eu o encontrava por causa do choro... Mas eram só uns gatos que estavam transando, e o barulho interferiu no meu sonho. Estranho, não?

– Sim, de fato é muito estranho que você tenha sonhado com um remake da história de Moisés ter sido encontrado boiando no rio Nilo pela filha de um faraó egípcio.

– Eu até achei isso de início também.  Mas aí, durante o mesmo sonho, me disseram que o bebê tinha morrido e eu passei a dormir calmamente. Só que logo em seguida eu ouvi o choro de novo e descobri que estavam usando a criança em um ritual e que ele era filho do diabo. Por isso concluí que a história estava muito mais para O Bebê de Rosemary, que é um belo filme, muito melhor que qualquer filme bíblico.

– O Bebê de Rosemary eu ainda não vi. Mas acho que essa história está mais para outro filme, A Origem. A explicação para A Origem é meio complicada, mas esse seu sonho aí tá um pouco mais fácil de entender. Claramente significa que você queria ser travesti, porque tanto na primeira parte como na segunda você assumiu um Eu feminino, princesa egípcia e depois Rosemary. Mas também pode ser que você esteja dormindo neste momento e tudo agora seja um sonho, então na realidade você pode ser de fato a princesa egípcia. Entendeu?

– Ficou difícil porque não consigo parar de pensar no meu tio tocando cavaquinho. Mas e aí, você acha que o que ele faz é arte ou não?

– Bom, se uma pessoa pinta quadros, acho que é uma forma de arte, mesmo que sejam horríveis borrões que lembrem gatos transando. Se faz esculturas de durepox de homens tocando cavaquinho, também não deixa de ser uma manifestação artística. Então, eu acredito que a música do seu tio é arte, sim.

 – Hmmm. Entendi. Então quer dizer que quando alguém coloca um disco da Madonna pra tocar em casa e sai rodopiando pela sala isso também é arte?

– E por que seria?

– Seguindo a lógica que você apresentou, se o que o Baryshnikov faz é arte, então dançar em casa ouvindo Madonna também é, mesmo que seja algo tão tenebroso que cegue quem olhar. Estaria para a dança moderna assim como o durepox está para Rodin.

– Está aí a prova irrefutável de que dança não é arte. Caso contrário, uma danceteria seria um coletivo de artistas amadores.

– De qualquer forma, você gostaria de ver minha coreografia da Madonna?

– Obrigado. Não quero cegar antes de assistir a O Bebê de Rosemary.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Se Deus fosse a favor da cremação, não criaria os mortos-vivos

- Já te contei que recebo muito email por engano, não?

- Já sim. Foi no mesmo dia que você disse que é contra a pessoa ser cremada. Alegando que se Deus fosse a favor da cremação, não teria criado os mortos-vivos.

- Eu já defendi isso?

- Já.

- Que sagaz eu sou.

- Sagacidade, bobagem, asneiras, essas coisas.

- Como?

- Nada. Fale sobre esses emails por engano. Chegou algum bom agora?

- Chegou. Vivo recebendo divertos de um tal Ronald Barata Barata.

- Barata Barata?

- É. Barata Barata.

- Sem vírgula? Não deveria ter uma ali no meio, entre o primeiro e o segundo Baratas?

- Não sei. Acho que é questão de estilo. Do cara do cartório, no caso.

- Quem era "o cara do cartório" do Barata? O Saramago?

- Sei lá. Mas é um nome legal, né? Ronald, Barata, Barata. Sem vírgula entre os nomes envolvidos.

- Sim. Um barato. Rá!

- Bom, mas aí recebi um email por engano desse senhor.

- E o que dizia?

- NA PRÓXIMA QUARTA-FERRIA, DIA 15 (TERCEIRA QUARTA-FEIRA DO MES) TEREMOS A REUNIÃO ORDINÁRIA DO MOVIMENTO DE RESISTÊNCIA LEONEL BRIZOLA. PRECISAMOS ADOTAR ALGUMAS DECISÕES IMPORTANTES.

- Gritando assim?

- Gritando. Com muita ênfase no Movimento Resistência Leonel Brizola. Me deu vontade de ir.

- Ir? Responde que agora se transferiu para o Movimento de Resistência Roberto Marinho e que ele tá fodido na sua mão.

- Pensei em ir. Ou reponder outra coisa, mas nessa sua linha aí.

- Tipo?

- Pensei em dizer que agora sou membro honorário do movimento Calma Cocada. E que assim que acabar a hororabilidade, volto pro movimento do Brizola, já sugerindo um nome mais de vangarda, o Simba, Brizolo.

- Eu acho que você deveria mandar mesmo essa. E acho também que deveria haver mesmo um movimento Calma Cocada.

- Não tem?

- Não que eu saiba.

- Que pena.

- Ô.

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colaboração do Daniell Rezende e do Daniell Rezende.



sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Sufflair, pedintes e dois canos fumegantes

- Tenho ouvido muito Mika e Scissor Sisters esses dias. Posso começar a duvidar da minha masculinidade?

- Lembra aquele dia que você veio trabalhar de meia-calça?

- Tava muito frio.

- Mesmo assim. Desde aquele dia, você poderia ter começado a duvidar. 

- Ih, faz dois meses. Agora já foi.

- Faz assim: duvida retroativamente. Aí tá resolvido.

- Boa, farei isso. Falando em dúvida, por que você tá com essa marca marrom na roupa?

- Um mendigo me abraçou hoje. E ele tava com um chocolate na mão. A ironia é que eu mesmo tinha dado o chocolate para ele.

- Como?

- Ele me venceu pela insistência.

- Explique.

- Estava vindo para cá e parei no mercadinho para comprar umas bobagens. Aí, entrei lá e vi que não tinha dinheiro. Por sorte, tem um Bradesco meio perto.

- Que chocolate era?

- O do pedinte? Sufflair. Por quê?

- Você já reparou que nos faróis só vende Sufflair? Como pode ser verdade isso? E é tão barato que só pode ser carga roubada.

- Roubada? E tão roubando caminhão de Sufflair todo dia há mais de 15 anos? Deve ser falsificado.

- Será que é tão fácil falsificar Sufflair assim?

- Minha teoria é que todos são fáceis de falsificar, mas o Sufflair é o preferido porque, como é aerado, vai mais ar que chocolate. E como ar é grátis, sai mais barato para os falsificadores.

- Interessante lógica. Mas, então, aí você foi ao mercadinho...

- Pois é. No caminho para o mercadinho, passei por esse pedinte. Aí, entre o mercadinho e o Bradesco, passei novamente por ele. Depois, entre o Bradesco e o mercadinho, novamente. E nas três vezes ele me abordou, pedindo dinheiro com uma voz baixa.

- Prefiro quem pede dinheiro com voz baixa. Outro dia uma senhora muito educada me abordou, pedindo dinheiro para a condução. "Por favor, o senhor poderia me ceder R$ 2 para que eu pudesse pegar o coletivo até o Jardim Limpão? Perdi minha carteira e não quero ir a pé até o local". Me senti meio que coagido e não dei. Se ela falasse "passa um trocado", eu daria. Prefiro assim.

- Você está me dizendo que prefere um assalto a um pedido? 

- Mais ou menos isso. Prefiro mais ainda se a pessoa não pedir. Já ir pegando o que quer é melhor. Assim o processo todo é mais rápido, já que eu dou mesmo quando pedem. Sempre.

- Quase sempre, né? Afinal, essa senhora bem educada ficou a ver navios.

- Ficou nada. Do jeito que era educada e instruída, a essa hora já até arrumou emprego no Poupatempo. Ou em alguma floricultura. Já reparou como quem trabalha com planta é educado?

- Já, sim. Mas voltando ao mercadinho. O pedinte me pediu dinheiro 3 vezes. Lá dentro, comprei um Sufflair e pensei "se ele pedir novamente, sou obrigado a dar. É muita insistência".

- E você deu quanto?

- Pois, então. Sai do mercado sem um centavo. Gastei todo o dinheiro no Sufflair. Aí, para não dar nada ao pedinte, acabei descolando o Sufflair. Como já tinha começado a comer um, dei aberto mesmo. Ele ficou tão feliz, que me abraçou e, na confusão, me sujou todo com chocolate.

- Você sacou dinheiro e ele foi inteiro em Sufflair? E todos os Sufflaires foram para o pedinte? Quanto você comprou em chocolate?

- Comprei uns 3. Mas acabou o dinheiro. Foi tudo em Sufflair.

- Rapaz, como tá caro Sufflair.

- É. Se eu tivesse comprado no farol, nada disso teria acontecido.